Há um evento da história recente que pouco sabemos aqui no Brasil. Após a Guerra do Vietnã, com a tomada de poder pelos comunistas e o endurecimento do regime, vários vietnamitas se lançaram ao mar, apenas com a roupa do corpo em barcos precários e lotados. Eles ficavam semanas ou meses no mar esperando que algum país os aceitasse como refugiados. Infelizmente vários morreram de fome e sede no mar sem que recebessem qualquer ajuda.
Depois que várias pessoas e algumas instituições passaram a fazer barulho internacional, alguns países passaram a dar cotas para esses refugiados que passaram a ser conhecido como Boat People. Talvez você nunca tenha ouvido falar deles, e eu particularmente só conheci porque pertenço a uma das instituições que na época os ajudaram.
Uma coisa é saber da história, outra é conhecer um desses refugiados. Tive recentemente na França e conheci um casal já na faixa dos 60 anos que se lançaram ao mar nessa época. Sorriso permanente nos lábios e uma doçura no falar. O olhar de quem já sofreu muito e por isso pode ser muito feliz.
Tina, sempre com sorriso nos lábios, me disse, “Vocês ocidentais não sabem o que é sofrer. Me joguei ao mar com a roupa no corpo e nenhuma certeza que estaria viva. Passei fome e sede, ficamos semanas no mar, até que fomos aceito pelo Canadá. Vocês reclamam muito mas têm tudo para serem felizes, só não são capazes de ver.”
Tim, seu marido disse: “Estou sempre preparado para a próxima viagem que pode ser amanhã ou outro dia, quem sabe. Por isso vivo cada momento como se fosse o último, o que me dá grande alegria. Vivo cada momento sem ter a certeza do próximo e posso me maravilhar com o céu azul, com o floco de neve, com a cor das árvores e o sorriso de uma criança.”
Conhecendo a ambos, vi que não é só retórica, eles vivem o que dizem. Foram corajosos, não aceitaram o sofrimento e se jogaram contra o desconhecido, sem nada nas mãos. Poderiam ter morrido, mas o sofrimento da passagem permite a eles ter a visão profunda de ver o simples, de não complicar as coisas desnecessariamente.
Vejo momentos na minha vida quando a situação estava ruim e vendo o mar bravio a minha frente, não tive coragem e fiquei com meu sofrimento mesmo. Fiquei com medo do pior e no fundo perdi. Outras vezes me lancei ao mar e nem sempre a passagem foi tão dolorosa, mas sempre foi proveitosa, mesmo quando não atingi meu objetivo. O sucesso não está garantido para ninguém, mas se acovardar e se acomodar parece pior.