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08.01.2009

Vendo meu filho de 10 meses brincar com bolhas de sabão essa manhã fiquei pensando como às vezes não crescemos. Fiquei soprando bolinhas de sabão e ele maravilhado as acompanhava subir e descer. Fascinação, surpresa. De repente elas caem e algumas não estouram. Ele rapidamente tenta agarrá-las com a mão e para surpresa uma a uma ia sumindo. Elas eram frágeis mas ele não tinha aprendido isso ainda e sofria a cada bolha que sumia.

 

Penso que várias vezes fiquei olhando para bolhas de sabão soprada por outros maravilhados com sua beleza e me lancei avidamente para agarrá-las tentando possuir. Da mesma maneira todas sumiram assim que tentei tocar na sua superfície que parecia sólida. E como eu sofri. Uma promoção, um novo emprego, tudo isso me iludiu, mas não havia nada de concreto. Talvez se eu soubesse que eram apenas frágeis ilusões, me dedicaria a observar mais. Ver de onde surgiram, observar seu aparecimento e sumiço sem me apegar.

 

Algumas bolhas de sabão duram mais tempo, mas todas desaparecem. Essa é a natureza ilusória das coisas. Achamos que duram para sempre, mas quando penso que posso possuí-las, simplesmente somem. Estou aprendendo, mas o caminho é longo. Já aprendi que algumas coisas não duram, mas aprender que nada dura é árduo. Saber intelectualmente é uma coisa, mas viver essa realidade é outra. Quando esqueço disso a realidade se impõe.

 

Quando vou crescer?

postado por Maitri, às 10:56

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12.12.2008

Recentemente tive a oportunidade de trabalhar como voluntário em uma cozinha. No dia seguinte haveria almoço para 200 pessoas e era necessária ajuda. Trabalhei bastante: piquei alho, ralei gergelim, descasquei inúmeras maçãs e fatiei abóboras. Realmente foi árduo. Eu fazia parte de um grupo que estava na cozinha e todos estávamos bastante concentrados, mas alegres diante dessa tarefa.

 

Aconteceu algo fantástico. No dia seguinte ao comer eu conseguia ver por trás daquela comida todo o trabalho necessário para preparar aquele simples prato. Eu via o rosto dos meus colegas, eu via o suor, via que sem isso aquele prato não seria possível. Ele simplesmente não existiria. Eu senti uma profunda gratidão a eles por eu ter o que comer.

 

Olhando um pouco mais a fundo vi o trabalho daqueles que plantaram aqueles alimentos. Eu estava em uma região rural e nos meus passeios vi o trabalho duro do campo para plantar, cuidar e colher cada alimento. Sem esse trabalho, sem essas pessoas, sem esse conhecimento adquirido pela humanidade em milênios eu não teria o que comer. Eu não sei fazer isso. Se tivesse que plantar e colher para comer provavelmente morreria de fome. Eu senti uma gratidão profunda a eles por eu ter o que comer.

 

Às vezes quando vamos a um restaurante e pagamos a conta achamos que as pessoas fazem aquilo por obrigação. Os garçons, cozinheiros, aqueles que lavam os pratos. Tomamos isso como natural e não vemos que sem eles não teríamos o que comer. Não é uma questão de dinheiro. Não podemos comer dinheiro. Se eles não aceitassem aquele pedaço de papel que acreditamos ter valor, eu não teria o que comer. Deveríamos ser gratos a eles a cada garfada. Deveríamos ter uma gratidão profunda a eles por termos o que comer.

 

Essa gratidão pode se expandir ao nosso planeta Terra. Sem as chuvas, sem o nosso clima atual, sem o sol, sem as estações, sem o solo fértil, sem o vento não haveria alimentos. Será que somos gratos ao nosso planeta por nos dar vida? A vida que levamos é uma vida de quem reverencia a Terra e a respeita. É uma vida de quem reverencia todas as formas de vida e a respeita. Somos um com nosso planeta e todas as formas de vida. Deveríamos agradecer por isso. Sem eles não comeríamos e não viveríamos.

postado por Maitri, às 12:14

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08.12.2008

Há um livro famoso no mundo Zen chamado “Mente Zen, Mente Principiante”. Nele o autor, um famoso monge Zen, mostra que o caminho para a felicidade passa por olhar para tudo com olhar de iniciante. Aquele olhar que damos pela primeira vez, cheio de curiosidade e deslumbramento. Lembra quando você viu uma paisagem linda pela primeira vez? Chegou a fazer aquele Oh! É possível que depois de ver várias vezes a mesma paisagem, aquele deslumbramento tenha empalidecido e sumido. A mente iniciante busca sempre ver tudo como se fosse a primeira vez, com curiosidade, sem preconceitos, estando aberto para tudo que vem.

 

Fui com meu filho para Búzios no final de semana. O olhar dele ao pisar na areia, ao sentir as ondas do mar, foi indescritível. O sorriso dele está marcado na minha mente até agora. Ele pulava de alegria, se lambuzava todo de areia e só achava um pouco estranho quando o mar vinha molhar os seus pés. Mas rapidamente se acostumou e gostou. Uma explosão de felicidade devidamente registrada em dezenas de fotos.

 

Com o deslumbramento dele eu passei a ver novamente a areia, o mar como coisas fantásticas, passei a ver através do olhar dele. Como Búzios é lindo e a praia da Ferradura em especial! Já perdi a conta de quantas vezes fui lá, mas essa vez parece que foi a primeira. O dia estava deslumbrante, e a alegria de meu filho tornou tudo melhor. Vi novamente aquele cenário com a mente iniciante.

 

Ao passar por essa experiência, a mensagem do livro ganhou novo significado. O que era uma compreensão intelectual passou a ser uma percepção profunda baseada na minha experiência. É um exercício interessante olhar o mundo a nossa volta com os olhos de uma criança. Olhe para o céu azul, a natureza em torno. Para os que como eu moram no Rio, uma das mais belas cidades do mundo, a beleza está em toda parte, mas nós cariocas não vemos. Nos acostumamos com ela e perdemos a chance de extrairmos grande felicidade.

 

A vida é um milagre profundo. Não deixe de perceber isso. Não deixe que problemas ou insatisfações o deixem cego para as maravilhas que estão ao seu redor. Volte a ser criança no olhar e descubra de novo o que está na frente do seu nariz.

postado por Maitri, às 16:14

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05.12.2008

Não sei se você já reparou na imigração dos diferentes países, mas para mim dizem muito sobre eles. Recentemente eu estive na França e lá eles apenas olham para você, sorriem, pegam seu passaporte, dão outra olhada e te devolvem com outro sorriso. Fiquei pasmo. Nem perguntaram o que eu ia fazer por lá e o mais incrível é que eles nem carimbam seu passaporte. Para mim é a cara do francês: liberal, tolerante e meio blasé.

 

Ano passado fui passar alguns dias na Califórnia. Apesar de ter melhorado um pouco, a imigração americana é pavorosa. Uns sujeitos, na sua maioria, mal encarados que te intimidam com perguntas e mais perguntas sobre sua vida, o que você está fazendo por lá. Será que alguém responde que está indo explodir uma bomba? E o formulário do visto? Pergunta se eu já fui proxeneta. Meu amigo, espero que não, por que deve ser algo bem ruim, mas será que alguém diz que já foi? É o retrato deles hoje em dia. Se sentem perseguidos, ameaçados, e sempre movidos pelo medo. Medo do terrorismo, dos russos, árabes, medo de ser um looser, e por aí vai. O medo leva a esse comportamento defensivo e agressivo.

 

E a imigração brasileira? Que vergonha. Entre filas e espera de bagagem, saí do aeroporto do Rio uma hora e meia depois que o avião pousou. Uma grande desorganização. Poucas pessoas trabalhando e por isso filas enormes para tudo: ver o passaporte, esperar a mala e na alfândega. É a nossa cara. Nada mais a declarar.

 

Quando você viajar de novo para o exterior, repare e já tenha um primeiro vislumbre da cultura do povo, um pouco do que você vai encontrar pela frente na sua viagem.

postado por Maitri, às 13:32

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03.12.2008

Minha prima nasceu com um tipo de deficiência mental que a deixou sempre com idade mental de um bebê de 4 meses. Ela nunca falou, no máximo ficava sentada na cama, com uma mão segurando a outra. Apenas isso. Imagine um bebê de 38 anos, que menstrua, tem que tomar banho sempre de forma assistida. É muito difícil para os pais. É difícil mesmo conseguir babás que queiram encarar essa parada. É muito trabalho. O bebê nunca cresce.

 

Você consegue imaginar ser mãe ou pai assim. Acho que não. Só se você for um.

 

Minha prima morreu na última semana pouco antes de completar 39 anos. Nesses 39 anos quem suportou a maioria do peso da situação foi minha tia. Ela viveu esses anos em função do seu bebê. Se doou, sofreu, se desgastou. O resultado pode ser visto no seu corpo. Envelhecimento, um câncer controlado no olho, que a levou a cegueira parcial, a pele cheia de marcas. Os demais membros da família foram coadjuvantes nesse drama recém encerrado.

 

Quando ela morreu pude ver diferentes reações. Minha tia mostrava uma leveza e uma tranqüilidade, os demais caras arrasadas e uma dor aparente no rosto. Tentando entender me parece que a tranqüilidade de minha dia se deve ao fato dela ter dito a cada dia nesses 39 anos, “eu te amo, eu estou aqui para você”. Nesses 39 anos ela sabe que fez tudo e mais alguma coisa. Ela deve ter a sensação de plenitude, de compleitude. Ela não deixou nada por fazer, nada por terminar, nenhuma palavra não dita. Ela viveu cada momento como se fosse a última vez que fosse ver a filha, sem reclamar, aceitando a vida com ela se ofereceu. Hoje ela está bem.

 

Fico pensando nas vezes que não disse eu te amo para minha esposa, sempre imaginando que haveria uma próxima oportunidade. Nas vezes que não mordi as bochechas de meu filho, nas vezes que não dei aquele abraço apertado no meus pais ou talvez por estar correndo não dei a devida atenção a um amigo. Se eu não tivesse outra oportunidade de fazer isso, talvez chorasse muito.

 

A morte faz parte da vida. São dois lados da mesma moeda, mas vivemos sempre a ignorá-la, achando que dá azar pensar nela. Ter a morte como companheira é libertador. Liberta da ilusão da permanência eterna. Nos mostra que o momento seguinte pode não existir, nos empurra para o aqui e o agora e nos faz viver profundamente ESTE momento, que é o único que podemos viver.

 

Vivendo assim, profundamente cada instante, não teremos do que nos lamentar ou chorar quando tudo mudar, quando perdermos um amigo, um parente, quando as vacas ficarem mais magras, quando a viagem acabar.

postado por Maitri, às 11:00

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02.12.2008

Nunca me imaginei como pai. Talvez seja por falta de imaginação mesmo, ou porque gostava muito da liberdade que tinha e vendo meus amigos e parentes com filhos, com raras exceções, achava que a vida deles tinha acabado. Eles não tinham mais tempo para eles e cada segundo era devotado ao novo membro da família. Sempre pensei: “Comigo vai ser diferente”. Talvez por não me convencer das minha próprias palavras demorei muito a ser pai.

 

Em determinado momento, achei que era hora. Era como um ciclo que tinha se esgotado. Muitas viagens, muito cinema, muito de tudo que queria. Estou pronto, pensei. Comigo sempre foi assim. Nessas mudanças de ciclo, sempre soube reconhecer quando algo havia terminado e era hora de uma nova fase. Foi assim com o namoro firme, com o casamento, com mudanças de emprego. Sou meio lento, mas quando acaba, acaba, e começo a me mover em direção ao novo.

 

O Vinícius nasceu e foi como um clique. Eu passei a ver o que aqueles pais cansados e dedicados viam e sentiam. Não dá realmente para contar. É preciso passar por isso e sentir. É como um véu que descortina o que sempre esteve ali. Essa nova fase me enche de alegria. Cada passo, cada sorriso, cada nova gracinha e cada manha são motivo de uma alegria incontida. O mundo mudou, porque eu mudei. Meus olhos mudaram porque passaram a incorporar os olhos do Vinícius. E isso é muito bom.

 

É claro que dá trabalho, mas quem conhece prêmio sem esforço. Mesmo para ganhar na loteria tem que jogar...

 

Vejo alguns amigos meus que talvez tenham antecipado o momento de ter filho, ou não chegaram a essa comunhão com eles. Esses amigos parecem urubus agourentos. “Ele tá começando a engatinhar” digo eu todo feliz. “Se prepare que agora vem o pior, vai pegar em tudo.” Ouço também: “Se prepare, fiquei a noite toda assistindo Backyardigans, que legal né!!!”, todo irônico. Ainda: “Eu chego em casa e não consigo fazer nada. Se prepare quando chegar nessa fase você vai ver o que é bom.” Eu nunca ouvi desse amigo um comentário compartilhando a felicidade de ser pai. São sempre reclamações do estorvo que a vida dele se transformou.

 

Bênção ou maldição? Depende de cada um de nós. Se temos olhos para ver o milagre da vida que cresce, transforma e nos permite tocar a existência no sentido mais profundo, temos uma oportunidade de tocar um mundo mágico e misterioso. Temos a oportunidade de olhar a nós mesmos.

postado por Maitri, às 12:32

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01.12.2008

Há um evento da história recente que pouco sabemos aqui no Brasil. Após a Guerra do Vietnã, com a tomada de poder pelos comunistas e o endurecimento do regime, vários vietnamitas se lançaram ao mar, apenas com a roupa do corpo em barcos precários e lotados. Eles ficavam semanas ou meses no mar esperando que algum país os aceitasse como refugiados. Infelizmente vários morreram de fome e sede no mar sem que recebessem qualquer ajuda.

 

Depois que várias pessoas e algumas instituições passaram a fazer barulho internacional, alguns países passaram a dar cotas para esses refugiados que passaram a ser conhecido como Boat People. Talvez você nunca tenha ouvido falar deles, e eu particularmente só conheci porque pertenço a uma das instituições que na época os ajudaram.

 

Uma coisa é saber da história, outra é conhecer um desses refugiados. Tive recentemente na França e conheci um casal já na faixa dos 60 anos que se lançaram ao mar nessa época. Sorriso permanente nos lábios e uma doçura no falar. O olhar de quem já sofreu muito e por isso pode ser muito feliz.

 

Tina, sempre com sorriso nos lábios, me disse, “Vocês ocidentais não sabem o que é sofrer. Me joguei ao mar com a roupa no corpo e nenhuma certeza que estaria viva. Passei fome e sede, ficamos semanas no mar, até que fomos aceito pelo Canadá. Vocês reclamam muito mas têm tudo para serem felizes, só não são capazes de ver.”

 

Tim, seu marido disse: “Estou sempre preparado para a próxima viagem que pode ser amanhã ou outro dia, quem sabe. Por isso vivo cada momento como se fosse o último, o que me dá grande alegria. Vivo cada momento sem ter a certeza do próximo e posso me maravilhar com o céu azul, com o floco de neve, com a cor das árvores e o sorriso de uma criança.”

 

Conhecendo a ambos, vi que não é só retórica, eles vivem o que dizem. Foram corajosos, não aceitaram o sofrimento e se jogaram contra o desconhecido, sem nada nas mãos. Poderiam ter morrido, mas o sofrimento da passagem permite a eles ter a visão profunda de ver o simples, de não complicar as coisas desnecessariamente.

 

Vejo momentos na minha vida quando a situação estava ruim e vendo o mar bravio a minha frente, não tive coragem e fiquei com meu sofrimento mesmo. Fiquei com medo do pior e no fundo perdi. Outras vezes me lancei ao mar e nem sempre a passagem foi tão dolorosa, mas sempre foi proveitosa, mesmo quando não atingi meu objetivo. O sucesso não está garantido para ninguém, mas se acovardar e se acomodar parece pior.

postado por Maitri, às 11:58

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30.11.2008

Para mim uma das maiores doenças desse século é o déficit de atenção. É impressionante como muitas pessoas não conseguem fixar a atenção por mais de 10 segundos. Alguns conhecidos meus mais estressados, após 12 segundos te ouvindo já começam a olhar para o lado, depois de 34 segundos começam a querer te interromper e falar. Às vezes falam sobre alguma coisa que não tem nada a ver com o que você estava dizendo. Se você conseguir passar dessa fase dificilmente passa dos 60 segundos. Me sinto o próprio Enéas.

 

Acho que isso se deve ao bombardeamento de informações que sofremos diariamente. Tv, jornal, internet despejando kilotons de dados sobre nossas cabeças e acreditamos que temos que captar tudo isso para nos mantermos atualizados. São as pressões da vida moderna e pensamos que não há alternativa. Ou absorvemos tudo isso ou seremos jogados fora como lixo pós-industrial. O resultado é uma ansiedade crescente, e a dificuldade de ouvir e aprofundar, de refletir. Tudo tem que ser rápido e descartável. Raso.

 

Vendo meu pequeno filho (sempre ele) noto que sua atenção também flutua rapidamente entre os objetos que passam a sua frente. Ele ainda tem dificuldade de se concentrar e olhar em profundidade para um boneco ou para um chocalho. Tudo o excita, tudo é novo, e ele se distrai facilmente. Em que ponto retrocedemos e voltamos para o nível de atenção de um recém-nascido.

 

Da mesma maneira que há o movimento da slow-food, creio que temos que inicial o movimento do slow-talk e do simplesmente slow. Treinar nossos ouvidos para ouvir. Refrear nossa impaciência que nos empurra a ir pensando na resposta enquanto a outra pessoa nem terminou de falar. Respirar. Ouvir, mas ouvir com os ouvidos atentos e com a mente aberta. Deixando que as palavras do outro nos surpreendam nos ensinem. Desacelerar nossas mentes e ver em profundidade o que está a frente do nariz, e não percebemos.

 

Não para aqueles que interrompem quando falamos. Não para aqueles que olham para o infinito e perguntam 42 vezes o que já falamos 41 vezes. Não para aqueles que são como ilhas só se interessando pelos seus umbigos, não se importando com ninguém mais. É impossível conversar de forma inteligente como um telégrafo. É impossível dialogar sem um outro a ouvir. É impossível criar verdadeiros relacionamentos quando um não percebe o outro, quando não há escuta profunda e fala amorosa.

postado por Maitri, às 12:20

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18.11.2008

No dia 19 termina mais um ciclo de minha vida. Depois de 8 anos e 9 meses mudo de emprego. É muito tempo. Fiz muita coisa, tive muitos chefes, trabalhei com muita gente. Fiz muitos amigos. Não aqueles amigos que somem quando trocamos de emprego. Alguns sei que ficarão porque os laços que criamos são fortes. Esse é um dos legados que levo. Quando as pessoas não são obrigadas mais a se relacionar com você e mesmo assim isso acontece. É sinal que algo ficou, é sinal que criamos algo verdadeiro.

 

Muitas histórias, muitas decepções e frustrações. Olhando agora, tudo foi importante e fez parte de minha estrada. As felicidades que tive não aconteceriam ou não seriam completas se as frustrações não estivessem lá. Nesses momentos, amigos verdadeiros se revelaram e ensinamentos foram aprendidos. Aprendi muito com cada dor e cada surra que recebi nesse emprego. Sem elas não estaria bem preparado para o próximo desafio.

 

Olho sem saudade, mas com alegria. Acho que construí algo, que deixo algo de bom. Mesmo que isso não seja reconhecido por outros, não importa. Minha sensação é de dever cumprido. Talvez não tenha feito o melhor que pude, mas fiz um bom trabalho e isso para mim é o que importa.

 

O ciclo, eu sentia, estava no fim. Pouco me prendia nesse trabalho. A energia e a vontade já não eram tão fortes quanto no início e eu sempre me perguntava o que me fazia acordar, fazer a barba e ir para tão longe. A resposta há muito tempo é “não sei”. Quando um convite interessante apareceu, foi só a mão que fechou o caixão.

 

É uma sensação estranha trabalhar de aviso prévio. Eu já não pertenço a este mundo, não tenho o que fazer, apenas contando as horas para o desfecho final. A cabeça vai longe, mas por obrigações profissionais o corpo está presente. Já acabou. É apenas o final da festa. São abraços de despedida e apertos de mão. “Mantenha contato”, “Posso mandar meu currículo?”, “Não some, tá”.

 

Mais uma página virada, fim de ciclo. Luz que se apaga. Fim.

 

postado por Maitri, às 10:54

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17.11.2008

Crianças são muito dependentes de seus pais. Aprendo olhando o Vinícius o quanto nascemos frágeis e dependentes de um ser maior que nós que nos provê de tudo que temos. Quando saímos de perto dele, o pequeno Vinícius fica nervoso e se não voltamos logo, como chora. De noite para deixá-lo sozinho no berço é um horror, nosso coração se despedaça em mil partes com o choro estrondoso. Aliás, depois que passamos a deixá-lo sozinho para que durma, percebo que durante o dia ele passou a ficar mais nervoso quando fica sozinho. Espero que estejamos acertando.

 

O fato é que ele precisa dessa presença maior externa a ele. Dizem os pediatras que nessa idade por não ter uma noção forte de eu, a identidade do bebê se confunde com a dos pais. Talvez não ter os pais por perto implique numa sensação muito grande de vazio, de não existência. Isso com certeza deixa o pequeno com muito medo, o medo de não existir.

 

O tempo passa e crescemos, mas muitos ainda continuam dependentes desse ser externo. Nossa noção de mundo cresce e esse ser maior tem que crescer junto. Muito chamam de Deus, outros de outros nomes, mas a necessidade de se sentir protegido por alguém maior permanece. Esse alguém nos salvará nos momentos de dificuldade, e para esse alguém faremos nossos pedidos mais íntimos, que esperamos ser atendidos (se formos bonzinhos).

 

Porque é tão difícil crescer e resolver as coisas por nós mesmos assumindo a responsabilidade pelas nossas escolhas e aceitando suas conseqüências? Porque ao invés de nos esforçarmos para nos transformarmos e alterarmos nosso futuro, preferimos a caminho do Vinícius? Choramos e esperamos que os seres maiores resolvam.

 

Crescer é difícil. Crescer espiritualmente é mais difícil ainda. Somos bombardeados desde a infância com esses conceitos de Papai do Céu que nos infantilizam para sempre. A liberdade é difícil de ser conquistada ela precisa de esforço, mas a recompensa é grande.

 

Para mim foi difícil no início. Achava que seria punido por estar tentando fazer as coisas sozinhos, mas aos poucos minha percepção mudou. Consegui crescer e o Papai do Céu se tornou o todo. Continua grande, absoluto, mas passei a querer apenas estar em sintonia, em harmonia com esse Todo. Mas o importante é que sei que depende de mim. Se me esforçar, se me transformar atingirei essa harmonia. E isso não significa que a partir daí tudo na minha vida se resolverá e nem passarei por apertos. Apenas percebo que passo a ter mais calma e tranqüilidade de superar esses momentos difíceis, e aí, eles se tornam menos difíceis

 

Milagre não é passar a só ter bons momentos, ser próspero e ter saúde. Milagre é conseguir ficar sólido nos maus momentos, quando a grana aperta (o emprego desmorona) e quando a saúde ou alguém querido se vai.

 

postado por Maitri, às 13:42

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