
por: Roberto Caetano Miraglia
Gino estava viúvo havia dez anos. Marieta faleceu deixando Gino sob os cuidados das filhas.
Na parede da sala, próximo à porta de entrada de sua casa, Gino conservava o retrato de Marieta sempre limpo e brilhando. Ao sair para a rua, Gino se despedia de Marieta, e, ao chegar, olhava para o retrato e tirava o chapéu.
Certo dia, voltando de um passeio, Gino entrou em casa e, como sempre, tirou o chapéu para o retrato de Marieta. Mas... que surpresa! A foto... Marieta estava sorrindo para Gino!!
– Santo Dio! Marieta riu pra mim! - exclamou o assustado velhinho.
- Nicolina, Conchetta, vengo qui! - gritou Gino para suas filhas.
- Fala papà! Que aconteceu?
- Mio Dio! Tua mama riu pra mim!
- O quê ? Bebeu vinho, papà?
- Ma que? Ho visto com esses ólho que a terra há de comê!
- Papà, onde já se viu um retrato dá risada!?
- Ma, ho visto!
- Ma, viu a mama dá risada!? Como isso é possível, papà? Será que não foi um cisco no olho?
- Cassarola, ma que cisco que nada, ho visto Marieta ri pra mim! Deu até pra vê o dente de ouro que ela tinha no lugar do canino esquerdo!
- Papà, você viu a mama com um cachorro na boca?
- Chega, Nicolina! Basta Conchetta! Vocês não acredita no que io to falando! Deixa estar!
Gino foi para a cama ainda surpreso com o que havia visto, e muito bravo com suas filhas que não acreditavam na sua visão.
No dia seguinte, bem cedo, Gino resolveu sair, e, como de costume, se despediu do retrato.
Gino já estava na rua quando decidiu voltar e olhar de novo Marieta.
- Cáspita! Marieta balançou a cabeça!
- Nicolina!! Conchetta!! - gritou Gino.
- Ma que houve papà? - indagou Nicolina.
- Io não tô ouvindo nada, io tô vendo sua mãe balançar a cabeça!
- Papà, outra vez com estas visão? - criticou Conchetta.
- Ma será o Benedito!? Que voceis não acredita numa palavra que io falo? Marieta balançou a cabeça! É vero!
- Papà, com quantos anos o senhor tá? - perguntou Nicolina.
- Acho que com todos!
- Ma vá papà, responde sério!
- É sério! Io não me recordo! Só sei que faz tempo que io nasci na minha bela Itália. Acho que quando vim pro mundo, o Papa ainda era coroinha!
- Pois é papà! É problema de “umidade”!
- Ma que umidade?!
- “Uma idade” avançada!
- Nicolina, você tá debochando de tuo Papà! Ho visto tua mãe balançá a cabeça, e se voceis não acredita, io vô dá uma vorta! Arrivederci!
- Tchau, papà!
Gino foi se distrair um pouco para acalmar os nervos. Ninguém acreditava em uma só palavra do que dissera e isto o aborrecia muito.
A notícia de que Gino via o retrato de Marieta se mexendo havia se espalhado por todo o bairro do Cambuci. Em qualquer lugar que fosse, Gino era questionado sobre suas visões e acabava sendo alvo de brincadeira dos amigos.
- Ei! Gino! Sono io, Vitório! Como está, compadre?
- É, Vitório, io acho que tô ficando pazzo!
- Ma quê? Sei pazzo em dizer que está pazzo?
- Ma nó, Vitório! É que ninguém acredita que Marieta se mexe no retrato!
- E você, acredita?
- Ma, claro! Se io to falando que vi é perché vi!
- Intó, Gino, não seria aquelas coisa de “gato ou passarinho” que os médico fala?
- Ma que coisa é essa, Vitório?
- Uma tar de “mia ou pia”?!
- Nó, Vitório! Se io tivé alguma coisa nas vista, o remédio é uma cadeira!
- Cadeira? Pra quê, Gino?
- Pras vista cansada!
- É Gino, você gosta de brincá! Cadeira pra vista cansada! Essa é boa, compadre!
- Só brincando mesmo, compadre Vitório! Só brincando...
- Vá benne Gino! Ma non fica triste, vá! Se a Marieta, que Dio a tenha, tá se mexendo prá você é porque ela qué arguma coisa, você não acha?
- Ma, que coisa?
- Io non sapevo! Ma, da outra vez que ela se mexê, pergunta pra ela!
- Boa idéia, compadre! É isso mesmo que io vô fazê! Tchau compadre!
- Tchau, Gino! Se cuida! Io sei que você tem vista boa, mas da outra vez que sair na rua, coloca a ceroula por baixo das calça e não por cima! Vá benne!?
Gino ficou esperançoso com a sugestão dada pelo compadre Vitório. Quem sabe se perguntando, Marieta responderia o porquê de tudo o que estava acontecendo.
Voltando para casa pela Rua Lavapés, fez o sinal da cruz quando avistou acima a Igreja Nossa Senhora da Glória e foi em direção ao Largo do Cambuci para chegar até a Rua José Bento pela Rua Independência.
Durante o percurso, tendo em vista que a notícia havia se espalhado, a criançada brincava com o bom velhinho:
- Seu Gino, Seu Gino, bateu a cabeça e ficou ouvindo o sino!
- Mais respeito, seus moleque! - esbravejava Gino.
E a molecada continuava cantando os versinhos de provocação:
- Seu Gino, Seu Gino, onde está Dona Marieta?
Acho que está dentro do retrato, fazendo um monte de careta!
Chegando em casa, Gino se dirigiu ao retrato e logo foi dizendo:
- Marieta, Marieta, o que você quer?
Depois de um pequeno silêncio, ouviu-se:
- Dinheiro pra fazê as compra no armazém!!!
- O quê?! - exclamou o assustado velhinho.
- É papà! Eu preciso comprá umas vinte lâmpida e me esfregá bastante!
- Mio Dio, Nicolina, que susto! Você não tá vendo que io tô falando com sua mama? E pra quê você precisa de vinte lâmpida pra se esfregá?
- Porque o médico-torpedista do hospital disse que pra eu me curá das dor nas costa eu preciso tomá muito banho de luz! Capisce?
- San Genaro! Quanta ingnorância! Onde já se viu uma coisa dessa!
Os dias foram passando e Gino vendo Marieta se mexer no retrato. Ora piscava, ora sorria, ora balançava a cabeça. E ninguém acreditava em suas visões.
O bom velhinho já nem ligava mais se as pessoas davam crédito à sua palavra, pois o que realmente importava era saber que Marieta lhe mandava sinais.
Nicolina e Conchetta estavam pensando em levar Gino ao médico. Os amigos foram aos poucos se afastando, porque imaginavam que estava esclerosando, principalmente quando ele vestia a ceroula por cima da calça!
O tempo, implacável, foi passando, até que um dia o coraçãozinho de Gino parou e ele foi ao encontro de sua querida Marieta.
Para homenagearem seu pai, Nicolina e Conchetta colocaram o retrato de Gino ao lado do retrato de Marieta, próximo à porta de entrada da casa, e todos que passavam pelos retratos faziam reverência, como culto ao amor eterno daquele casal.
Depois do demorado velório, Gino foi enterrado no Cemitério da Vila Mariana, cercado de muita tristeza e principalmente de muito remorso das duas filhas, que sempre caçoavam do pai por suas fantasias.
Nicolina e Conchetta voltaram para casa tristes e cabisbaixas, abriram a porta da sala, olharam para o retrato do pai e falaram:
- Descurpe, papà, se nóis te chateou! Ma é difícil acreditá que a mama se mexeu, capisce? Num dá pra engoli que retrato pisca e dá risada! O senhor não acha? - disse Nicolina.
- É papà, o senhor e a mama faiz farta! - Disse Conchetta chorando.
- Vá benne, a vida continua, Conchetta. Vamo dormi que amanhã é outro dia!
- Tá certo, Nicolina. Vamo em frente que atrais vem gente!
As duas olharam para os retratos e disseram:
- Buona notte papà! Buona notte mama!
- Buona notte! - ouviu-se ao longe.
- O quê?! Você falou arguma coisa, Nicolina?
- Io? Io nó! Já até tirei os dente de cima pra dormi!
- Nó, ma eu ouvi falá buona notte!
- Ma, eu também!
- Será que foi o papà?
- Sei pazza! Retrato não fala!
- Ma falô!
- Será???
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Apresentado na 217ª Pizza Literária - 16.10.2008