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05.01.2010


Quando um escritor escreve um romance, ele faz um ofício de fé, pois uma vez lançada a idéia, por meio de enredo há muito tempo engendrado, não a segura mais, pois a palavra é mais forte do que um tiro de canhão ou o ferimento de um punhal, fere aqui, ali, acolá e continua ferindo sempre. Por isso, ao se tomar uma iniciativa de tal ordem, há que se ter o cuidado para que ela seja o portador da paz, concórdia e harmonia, levando a mensagem diretamente aos corações dos leitores. Em outras palavras, o autor deve ter em mente que lançar um livro é como mandar um filho para a guerra, através do mar proceloso.

A trama está bem ordenada, de forma a prender a atenção e o interesse do leitor. No conteúdo, o livro transmite preciosas lições de vida, úteis a todos, acima de tudo pelo poder dos exemplos.
O novel romancista, possuidor de notáveis atributos intelectuais, oferece aos leitores uma agradável e profícua leitura. Oxalá seja esta a primeira de muitas obras literárias. Parabéns ao autor, pela qualidade de seu trabalho.
(Valter Martins de Toledo)

O livro conta a história de João Batista Souza Lino Sotto Maior, filho de imigrantes portugueses estabelecidos no Brasil em fins do século XIX, tradicional família ligada ao ramo da tecelagem. Inteligente, bem educado e culto, João decide ser médico a tomar a frente dos negócios da família. A princípio contrariado, seu pai vê com orgulho o sucesso e o reconhecimento do filho, no Brasil e no exterior, como um grande cirurgião. Uma tragédia pessoal vai mudar de maneira drástica o destino desse homem apaixonado pela vida e pela profissão. Abandonando tudo que construíra e deixando de lado tudo aquilo em que acreditava, João vai se embrenhar e buscar refúgio nos confins da Amazônia, muito distante daquilo que comumente chamamos civilização. É nesse cenário, povoado por lendas e histórias que o povo da região ribeirinha acredita que João vai viver sua maior aventura. Da resistência ao passado, que o transformara num homem rude e cético, ao reencontro com a vida e com o amor, João verá, mais uma vez , seu destino ser mudado pela presença de uma mulher; menina-moça inocente e pura, que irá confrontá-lo com suas dores, pecados e mazelas.

Francisco Sinke Pimpão

Francisco José Sinke Pimpão, nascido em Curitiba no ano de 1953, é Bacharel em Administração e sócio de uma empresa de consultoria. Nos últimos anos tem-se dedicado ao estudo e aplicabilidade da Gestão de Processos nas Organizações, fruto de 27 anos de atuação no mercado. Com pós-graduação em Marketing e tendo concluído diversos cursos no Brasil e exterior, escreveu diversos artigos publicados em livros e revistas especializadas. Atualmente é redator e coordenador de web sites.




Muiraquitã é um amuleto indígena. Segundo a lenda era retirado sob a inspiração de Iaci (lua) do fundo de um lago denominado Espelho da Lua (Iaci-uaruá) na proximidade das nascentes do rio Nhamundá, perto do qual habitavam as índias Icamiabas, nação das legendárias mulheres guerreiras que os europeus chamaram de Amazonas (mulheres sem marido). O lago era consagrado à Lua, pelas Icamiabas, onde anualmente realizavam a Festa de Iaci, divindade mãe do Muiraquitã, que lhe oferecia o precioso amuleto retirado do leito lacustre. Oferecido pelas guerreiras amazonas aos índios da aldeia vizinha, os guacaris, logo após acasalarem em noites de lua cheia. Depois do acasalamento, pouco antes da meia-noite, com as águas serenas e a Lua refletida no lago, as índias nele mergulhavam até o fundo para receber de Iaci os preciosos talismãs, com a configuração que desejavam, recebendo-os ainda moles, petrificando-se em contato com o ar, logo após saírem d’água

Uma versão da fábula diz que os rebentos do sexo masculino nascidos dessa união eram entregues aos guacaris. As meninas permaneciam com a tribo feminina. O amuleto conferia status e poderes mágicos ao seu possuidor. Bem pequenos e, por isso mesmo, alvo fácil de roubos e contrabandos, os muiraquitãs, quase sempre confeccionados em rochas esverdeadas, tinham em geral forma de sapos.
Mais raramente, podiam ser talhados também em rochas brancas, em formatos de morcegos, peixes e homens.

Fontes:
http://www.abrasoffa.org.br/folclore/lendas/muiraquita.htm
http://portalamazonia.globo.com/pscript/amazoniadeaaz/artigoAZ.php?idAz
=538
– Francisco Sinke Pimpão .O Dia em que a Muiraquitã virou Gente. Curitiba: Pro Infanti, 2009.
– http://www.proinfantieditora.com.br/produto.php?id=131


postado por Magister, às 09:45

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04.01.2010


(História Triste para um Dia Alegre)

Como se explica que o Saraiva, um homem que tomava a sério as coisas mais cômicas da vida, e, segundo afirmavam as pessoas que o conheciam mais de perto, nunca ninguém viu rir, como se explica que o Saraiva, na terça-feira gorda de 1885, saísse de casa depois de jantar e, sem dizer nada à senhora, comprasse uma vestimenta de palhaço, uma cabeleira e uma máscara, e com tais objetos se metesse no seu escritório na Rua do Hospício, de onde saiu disfarçado?

Ninguém diria que escondido naquela roupa alegre, muito branca e semeada de rodinhas vermelhas, e por baixo daquela cabeleira azul, encimada por um chapeuzinho minúsculo e pontiagudo, e por trás daquela carranca jocosa, que ria de um rir comunicativo, estivesse o grave comerciante, que parecia haver nascido para vida monástica.

A esposa desse urso, D. Balbina, era, quando se casou, uma rapariga expansiva e risonha; teve, porém, que se submeter ao feitio dele: tornou-se tão séria e tão sensaborona como o Saraiva, e, sozinha em casa, sem filhos, sem amigas, porque o marido não queria visitas, aborrecia-se muito.

Aborrecia-se tanto que procurou uma distração, e encontrou-a num belo rapaz, seu vizinho, que de vez em quando pulava o muro do quintal para fazer-lhe companhia, e consolá-la daquele silêncio e daquela solidão.

Infelizmente para ela, outro vizinho, por inveja ou simplesmente por maldade, escreveu uma carta anônima ao Saraiva, de que ele tinha um sócio de cuja existência não suspeitava - e ora ai está como se explica que naquela terça-feira gorda, depois de dizer a D. Balbina que ia para o escritório, onde se demoraria até tarde da noite, fechando uma correspondência que devia partir no dia seguinte, o austero e sisudo negociante foi se vestir de palhaço para apanhar a esposa em flagrante delito.

- Eu saio, os criados saem, pensou ele; se ela tem realmente um amante, é de supor que aproveite a ocasião para metê-lo em casa...

Bem pensado, porque um quarto de hora depois de sair de casa o marido, o amante saltava o muro, e naquela terça-feira gorda, apesar de ter ficado em casa, D. Balbina divertiu-se mais que muitos foliões, nas patuscadas dos préstitos e dos bailes.

Havia já duas horas que o vizinho fazia companhia à solitária vizinha, quando a campainha do portão do jardim foi violentamente agitada. D. Balbina chegou à janela e avistou um tilburi, cujo cocheiro, mal que a viu, gritou:

- Mande cá uma pessoa, minha senhora!

Não havia um criado em casa. D. Balbina teve que ir pessoalmente abrir o portão.

- Que é? - perguntou ela.

- Minha senhora, este palhaço tomou o meu tilburi, e mandou tocar para esta casa; mas em caminho parece que teve uma apoplexia e morreu!

Efetivamente, o Saraiva, homem sangüíneo, que não pensou nas conseqüências de pôr aquela cabeleira e aquela máscara depois de jantar, tinha morrido no tilburi.

Deixo ao leitor o cuidado de pensar no espanto e na confusão que isso causou, e na tragicômica anomalia daquele negociante austero, estendido morto num canapé, e amortalhado em vestes de palhaço.

Só direi que D. Balbina, passado o período do luto, esposou o solicito vizinho que a consolava naquele silêncio e naquela solidão.

E até hoje, e lá se vão mais de vinte anos, ela não atinou com o motivo que levou o seu primeiro marido a vestir-se de palhaço... para morrer.

Fontes:
- AZEVEDO, Artur de. Contos.
- Imagem =
http://rei-de-lopes.blogspot.com

postado por Magister, às 09:43

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03.01.2010


Ao Paraná

Nasceste onde eu nasci. Creio que ao mesmo dia
Vimos a luz do sol, meu glorioso irmão gêmeo!
Vi-te a ascensão do tronco e a ansiedade que havia
De seres o maior do verdejante grêmio.

Nunca temeste o raio e eu como que te ouvia
Murmurar, ao guaiar da fronde, ao vento: - "Teme-o
Somente o fraco arbusto! A rija ventania,
Teme-a somente o errante e desnudado boêmio!

Meu vulto senhorial queda-se firme. Embala-mo
O tufão e hei de tê-lo eternamente ereto!
Resisto ao furacão quando a aura abate o cálamo!"

Ouve-me agora a mim que, em vez de ti, vegeto:
Já que em ti não pesei, entre os fulcros de um tálamo,
Faze-te abrigo meu nas entraves de um teto!
-------------
Fontes:
MENEZES, Emílio de. Obra Reunida. RJ: José Olympio, 1980.
Foto de Tiago Duarte (Pinheiro Morto)

postado por Magister, às 04:02

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02.01.2010

O grande barato da vida é olhar para trás e sentir orgulho da sua história.

O grande lance é viver cada momento como se a receita de felicidade fosse o AQUI e o AGORA.

Claro que a vida prega peças. É lógico que, por vezes, o pneu fura, chove demais…, mas, pensa só: tem graça viver sem rir de gargalhar pelo menos uma vez ao dia? Tem sentido ficar chateado durante o dia todo por causa de uma discussão na ida pro trabalho?

Quero viver bem! Este ano que passou foi um ano cheio. Foi cheio de coisas boas e realizações, mas também cheio de problemas e desilusões. Normal. As vezes a gente espera demais das pessoas. Normal. A grana que não veio, o amigo que decepcionou, o amor que acabou. Normal.

O ano que vai entrar vai ser diferente. Muda o ano, mas o homem é cheio de imperfeições, a natureza tem sua personalidade que nem sempre é a que a gente deseja, mas e aí? Fazer o quê? Acabar com o seu dia? Com seu bom humor? Com sua esperança?

O que desejo para todos é sabedoria! E que todos saibamos transformar tudo em boa experiência! Que todos consigamos perdoar o desconhecido, o mal educado. Ele passou na sua vida. Não pode ser responsável por um dia ruim… Entender o amigo que não merece nossa melhor parte. Se ele decepcionou, passe-o para a categoria 3. Ou mude-o de classe, transforme-o em colega. Além do mais, a gente, provavelmente, também já decepcionou alguém.

O nosso desejo não se realizou? Beleza, não estava na hora, não deveria ser a melhor coisa pra esse momento (me lembro sempre de um lance que eu adoro): CUIDADO COM SEUS DESEJOS, ELES PODEM SE TORNAR REALIDADE.

Chorar de dor, de solidão, de tristeza, faz parte do ser humano. Não adianta lutar contra isso. Mas se a gente se entende e permite olhar o outro e o mundo com generosidade, as coisas ficam bem diferentes.

Desejo para todo mundo esse olhar especial.

O ano que vai entrar pode ser um ano especial, muito legal, se entendermos nossas fragilidades e egoísmos e dermos a volta nisso. Somos fracos, mas podemos melhorar. Somos egoístas, mas podemos entender o outro. O ano que vai entrar pode ser o bicho, o máximo, maravilhoso, lindo, espetacular… ou… Pode ser puro orgulho! Depende de mim, de você! Pode ser. E que seja!!!

Feliz olhar novo!!! Que o ano que se inicia seja do tamanho que você fizer.

Que a virada do ano não seja somente uma data, mas um momento para repensarmos tudo o que fizemos e que desejamos, afinal sonhos e desejos podem se tornar realidade somente se fizermos jus e acreditarmos neles!
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Fonte
Imagem = http://br.universalscraps.com

postado por Magister, às 09:40

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24.12.2009


— Até a morte de meus pais, nunca mudei.

Eu estava distraída.

— Não mudou ...?

— De casa. Até ser posta à venda, essa foi a única casa que tive.

— Deve ser algo profundamente reconfortante morar na mesma casa que se tem dentro.

— Ah, isso quer dizer o que?

—Simplesmente que você me faz lembrar que em matéria de casa eu vivi umadualidade — havia, sim, uma casa eterna e boa, com recantos eesconderijos mágicos e até alguns inacessíveis e misteriosos, mas era acasa de minha avó. Nós, quer dizer, meus pais e eu, sempre fomosinstáveis, sempre nos mudando e nunca a casa em que morávamos erasatisfatória. O pior é que isso perdura, acho... Que horror!

—Bom, mas morar nessa casa que parecia eterna — mas não era — quasetransforma a gente em árvore, com raiz e copa frondosa e espaçosa.Quando isso acaba, a gente descobre que não cabe direito em lugarnenhum. Você viu meu apartamento — um bom prédio bem situado no meio deoutros tantos prédios parecidos, com entradas impecáveis e pátioslimpos e cimentados, nenhum pedacinho de terra aparecendo, só canteirosmuradinhos e floridinhos...

Nada daquela sombra no chão batido,as gaiolas que meu pai cuidava diariamente, as paredes largas, entre asquais meus velhos móveis tinham espaço e luz, que refletiam com brilhode madeira boa. Agora eu e eles ficamos um pouco empoeirados – é tudolimpo, mas meio embaçado, a poeira do tempo parece que grudou.

Tenhoquase certeza que a história de Sorriso veio logo depois dessa conversasobre a casa, trazida nessa onda de nostalgia que veio rolando, talveznos vapores da sopa de feijão, que veio cremosa e acompanhada detorradas e de um bom vinho – duas garrafas para três pessoas – foi umjantar perfeito e uma conversa que ficou ecoando até agora e deu pararebrotar neste começo de outono europeu. Acho que também pelo fato determos entrado num restaurante quase vazio e que, contrariamente ao dolado, não tinha música barulhenta para atrair público em busca deanimação, com as poucas pessoas que havia falando baixo ou longe, nãosei, mas a conversa pôde correr solta.

Devo ter esquecido vários detalhes, o que me vem são retalhos de sons, de frases.

...

—...e além dessas minhas casas sem história, minha cidade também temmuito pouca, apesar de ter sido na origem um pouso de tropeiros, quedizem ser lugar de muita conversa e de bons causos pela noite afora.Deve ser daí minha nostalgia irrealista de luz de fogueira perdida nosilêncio da noite estrelada e meu gosto de ouvir histórias, meioenrodilhada num canto.

— Pois esta cidade tem muita história,vivida ou inventada, dá no mesmo — o que fica é sempre uma históriacontada. E a casa de meus pais tem até um bom causo, que se poderiachamar “Sorriso da casa velha”.

— Ah, é? Alusões literárias, a esta hora?

—Pode até ser, mas não deu para resistir. Veja: Sorriso era o nome de umretardado mental, que ficou com esse nome porque sorria o tempo todo ea vizinhança o chamava assim. Ele apareceu lá em casa um belo dia, ouuma bela noite, pois acho que vinha sobretudo para dormir na varanda.Quando eu voltava de dar aula à noite, quase tinha que passar por cimadele. Minha mãe arrumou um papelão para servir de cama, mas Sorrisosumiu com ele. Ele fazia questão de deitar no capacho, que era bemgrande. Acho que ele tinha uma casa, mas nunca soube bem aonde.

Lembrandodessa noite, em que festejamos o aniversário de Bia, agora que jápassaram uns três meses de minha viagem ao Brasil, o que me impressionaé o fato de que esse homem fosse visto de maneira tão benigna, delepoder dormir nessa casa de família de classe média conservadora ediscreta. Essa senhora tão estrita em matéria de costumes, que minhasamigas descreviam como uma mãe severa, orientada por uma moralidade jáfora de uso na época, aparece como uma pessoa paradoxalmente aberta,com uma generosidade quase perigosa, se transportada para um prédioqualquer de uma cidade atual, ou talvez mesmo para uma residênciaburguesa da mesma época. Será que uma casa velha, cuja única ostentaçãode riqueza provém da sombra das árvores e da solidez dos muros um tantomaltratados, de bons móveis envernizados, toalhas bem passadas emoradores fiéis, tem mais espaço para a marginalidade, para aalteridade gratuita e incontrolável de um retardado mental ? Éparadoxal, claro, mas pensando bem, foi também por ter se tornadomarginal no crescimento da cidade, na partida dos filhos, no necessárioabandono disso tudo que pesa e prende, que a casa velha teve quedesaparecer. Em todo caso, me espantou essa história de uma dona decasa mineira aceitando, sem medo nem preconceitos, que um louco, como agente os chamava no interior, entrasse pelo jardim confiante em que nãoseria expulso, sabendo que poderia dormir tranqüilo no lugar e damaneira que escolhera por motivos que só ele sabia e que aliás nenhumainstituição psiquiátrica foi chamada a questionar. Acho que um dia elaproibiu apenas que ele dormisse atravessado na porta — a restrição deveter sido bem aceita, pois o pouso serviu ao Sorriso durante bastantetempo.

— E ele vinha todas as noites?

— Não, ele sumia devez em quando, às vezes eu cruzava com ele na rua, de dia, mas talveztivesse achado outro pouso, não sei. Quando minha mãe vinha da feiraele se oferecia para carregar as sacolas, se caía uma tabuinha doscercados dos canteiros, ele arrumava, enfim, ele olhava em volta eenxergava coisas para fazer, que às vezes a gente nem via.

— O que aconteceu com o Sorriso? Achou alguma garagem de prédio para morar?

—Imagine... esse tipo de nicho num prédio moderno, com todos os espaçosracionalizados e rentabilizados... impossível. E depois, com a cidadeficando tão feia, tão desfigurada parece que de susto com tanta viarápida, não dá para imaginar qualquer lugar que seja, capaz de acolhera loucura, o sorriso gratuito de um vagabundo improdutivo...

— Mas afinal, que fim levou o seu louco poético?

—Não sei. Não me lembro bem se foi com a morte de minha mãe que elesumiu, mas sei que foi bem antes da venda da casa. Eu ainda morava lá elembro que senti falta de tudo ao mesmo tempo. Mas o que mais pesavaera a ausência de meus pais, e foi essa falta que determinou todo oresto. O Sorriso era um traço, um detalhe num quadro de outros tempos,sumiu como sumiram todos os outros momentos, almoços de domingo,visitas de irmãos, primos, sobrinhos, gente que passava na rua...

Houveoutros episódios, diálogos mais vivos, mas que foram se apagando,deixando apenas essas vagas lembranças que não chegam para formar umahistória. Talvez uma crônica, pedindo ecos nas lembranças dos outros,como costumam fazer as crônicas, retratando o que é efêmero edesimportante.

No dia seguinte tomamos o ônibus de volta para oRio, a cidade enfeiada ficou para trás, a serra da Mantiqueira fez atransição, com seus restos de mata, algumas poucas árvores grandiosas,muita encosta desbarrancada, muito paliteiro de eucalipto. Sorrisosraros e desdentados na paisagem vista da estrada.

Chegando noRio, comemos na casa de Thereza uma polenta frita bem crocante, que elatinha prometido ao devolver a do restaurante na noite do jantar, quefoi considerada mole e indigna da nossa fome saudosa e exigente — ficoufaltando só o frio de Minas e a neblina com a sombra do Sorrisoimaginada pelas esquinas.

Fonte:
Releituras 

postado por Magister, às 04:02

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23.12.2009


VovôLucani é um personagem do cotidiano, um professor aposentado, críticoobservador dos acontecimentos diários e das notícias veiculadas namídia. Com bom humor o octogenário faz gozação sadia, sátira suave, emresposta às perguntas de curiosos sobre história, atualidades eassuntos que ouve, lê e vê diuturnamente. Enquanto diverte o leitor, oVovô contribui para aguçar o senso de curiosidade pelos assuntostratados na obra:

ABalaiada, Ali Baba, A Guerra dos Farrapos, Napo Leão, O Ovo de Colombo,Cabral, Os Deuses do Olimpo, Os Mistérios dos Hieróglifos, As PartidasDobradas, Dostoy, Picasso, Babá Cã, As Tecas, Matisse, O BichoPreguiça, Um Burro na Guarda Pretoriana, Thomas Edison, Homero,Sócrates, Átila, Os Vikings, Os Alquimistas, Salvador Dali, A Ópera, AGuerra Fria, Shake Speare, As Maravilhas do Mundo Atual, Ostra Damos,Miguel Ângelo, O Jazz, Com Servantes, O Gago, Ivan Gogue, Ri de Coque,Clô de Mané, Arquimedes, Tales de Mileto, Os Desenhos Animados,Alexandre o Grande, Ésquilo, O Fico, A Velocidade do Som, ARelatividade, As Torres de Controle, Os Merovíngios, Rodin, Leonardo DáVinte, O Pelourinho, Lã Pião, O Método Unforgettable, Os Números, OsIdiomas, Confúcio, Tíbia e Perônio, O Matemático, O Salário Mínimo,Robin Wood, Madame Que Ri, Darwin, Zagalo, Nobel, Lech Walessa, A Prosaem Versos, A Astrologia e, o poderoso Jugo Chá Vez, etc.
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Sobre o Autor

Salomon Nery (1948)

Nasceuna cidade de São Paulo em 1948, no bairro do Bom Retiro. Seus avós eramitalianos que fugiram da segunda guerra mundial. Homem de bom humor,espontâneo e de caráter humilde. Na escola, quando adolescente semprefoi aluno aplicado e prestativo do tipo que levava maçã para aprofessora. No ensino médio teve ótimos professores, destacando-se oprofessor Emílio Giustti de língua portuguesa, que exigia muito de seusalunos, fazendo-os aprender de “verdade”, principalmente a redação.Destacou-se inicialmente por escrever bons textos, sempre com umespecial toque de humor. Na sala de aula, respondia questões com umleve humor descontraído e o mais importante: não usava palavrões e nemgírias. Quando questionado sobre algum vulto ilustre procuravapesquisar a fundo, ganhando os parabéns dos mestres e, chamado à frentepara expor seu trabalho, surpreendia a todos com seu jeito divertido. OAutor sempre gostou de escrever textos divertidos o que o fez criar ovelhinho simpático Vovô Lucani, do livro Vovô Sabe Tudo.

Fonte:
http://www.virtualbooks.com.br

postado por Magister, às 04:00

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22.12.2009


I

Aodar com o padre Teófilo falando a uma senhora, ambos sentadinhos nobanco da igreja, e a igreja deserta, confesso que fiquei espantado.Note-se que conversavam em voz tão baixa e discreta, que eu, por maisque afiasse o ouvido e me demorasse a apagar as velas do altar, nãopodia apanhar nada, nada, nada. Não tive remédio senão adivinhar algumacoisa. Que eu sou um sacristão filósofo. Ninguém me julgue pelasobrepeliz rota e amarrotada nem pelo uso clandestino das galhetas. Souum filósofo sacristão. Tive estudos eclesiásticos, que interrompi porcausa de uma doença e que inteiramente deixei por outro motivo, umapaixão violenta, que me trouxe à miséria. Como o seminário deixa sempreum certo vinco, fiz-me sacristão aos trinta anos, para ganhar a vida.Venhamos, porém, ao nosso padre e à nossa dama.

II

Antes de ir adiante, direi que eram primos. Soube depois que eramprimos, nascidos em Vassouras. Os pais dela mudaram-se para a Corte,tendo Eulália (é o seu nome) sete anos. Teófilo veio depois. Na famíliaera uso antigo que um dos rapazes fosse padre. Vivia ainda na Bahia umtio dele, cônego. Cabendo-lhe nesta geração envergar a batina, veiopara o seminário de São José, no ano de mil oitocentos e cinqüenta etantos, e foi aí que o conheci. Compreende-se o sentimento de discriçãoque me leva a deixar a data no ar.

III

No seminário, dizia-nos o lente de retórica:

— A teologia é a cabeça do gênero humano, o latim a perna esquerda, e a retórica a perna direita.

Justamente da perna direita é que o Teófilo coxeava. Sabia muito asoutras coisas: teologia, filosofia, latim, história sagrada; mas aretórica é que lhe não entrava no cérebro. Ele, para desculpar-se,dizia que a palavra divina não precisava de adornos. Tinha então vinteou vinte e dois anos de idade, e era lindo como São João.

Jánesse tempo era um místico; achava em todas as coisas uma significaçãorecôndita. A vida era uma eterna missa, em que o mundo servia de altar,a alma de sacerdote e o corpo de acólito; nada respondia à realidadeexterior. Vivia ansioso de tomar ordens para sair a pregar grandescoisas, espertar as almas, chamar os corações à Igreja, e renovar ogênero humano. Entre todos os apóstolos, amava principalmente São Paulo.

Não sei se o leitor é da minha opinião; eu cuido que se pode avaliar umhomem pelas suas simpatias históricas; tu serás mais ou menos dafamília dos personagens que amares deveras. Aplico assim aquela lei deHelvetius: "O grau de espírito que nos deleita dá a medida exata dograu de espírito que possuímos." No nosso caso, ao menos, a regra nãofalhou. Teófilo amava São Paulo, adorava-o, estudava-o dia e noite,parecia viver daquele converso que ia de cidade em cidade, à custa deum ofício mecânico, espalhando a boa nova aos homens. Nem tinha somenteesse modelo, tinha mais dois: Hildebrando e Loiola. Daqui podeisconcluir que nasceu com a fibra da peleja e do apostolado. Era umfaminto de ideal e criação, olhando todas as coisas correntes por cimada cabeça do século. Na opinião de um cônego, que lá ia ao seminário, oamor dos dois modelos últimos temperava o que pudesse haver perigoso emrelação ao primeiro.

— Não vá o senhor cair no excesso e noexclusivo, disse-lhe um dia com brandura; não pareça que, exaltandosomente a Paulo, intenta diminuir Pedro. A Igreja, que os comemora aolado um do outro, meteu-os ambos no Credo; mas veneremos Paulo eobedeçamos a Pedro. Super hanc petram...

Os seminaristasgostavam do Teófilo, principalmente três, um Vasconcelos, um Soares eum Veloso, todos excelentes retóricos. Eram também bons rapazes,alegres por natureza, graves por necessidade e ambiciosos. Vasconcelosjurava que seria bispo; Soares contentava-se com algum grande cargo;Veloso cobiçava as meias roxas de cônego e um púlpito. Teófilo tentourepartir com eles o pão místico dos seus sonhos, mas reconheceudepressa que era manjar leve ou pesado demais, e passou a devorá-losozinho. Até aqui o padre; vamos agora à dama.

IV

Agora a dama. No momento em que os vi falar baixinho na igreja, Euláliacontava trinta e oito anos de idade. Juro-lhes que era ainda bonita.Não era pobre; os pais deixaram-lhe alguma coisa. Nem casada; recusoucinco ou seis pretendentes.

Este ponto nunca foi entendidopelas amigas. Nenhuma delas era capaz de repelir um noivo. Creio atéque não pediam outra coisa, quando rezavam antes de entrar na cama, eao domingo, à missa, no momento de levantar a Deus. Por que é queEulália recusava-os todos? Vou dizer desde já o que soube depois.Supuseram-lhe, a princípio, um simples desdém, — nariz torcido, diziauma delas; — mas, no fim da terceira recusa, inclinaram-se a crer quehavia namoro encoberto, e esta explicação prevaleceu. A própria mãe deEulália não aceitou outra. Não lhe importaram as primeiras recusas;mas, repetindo-se, ela começou a assustar-se. Um dia, voltando de umcasamento, perguntou à filha, no carro em que vinham, se não selembrava que tinha de ficar só.

— Ficar só?

— Sim, umdia hei de morrer. Por ora tudo são flores; cá estou para governar acasa; e você é só ler, cismar, tocar e brincar; mas eu tenho de morrer,Eulália, e você tem de ficar só...

Eulália apertou-lhe muito amão, sem poder dizer palavra. Nunca pensara na morte da mãe; perdê-laera perder metade de si mesma. Na expansão de momento, a mãe atreveu-sea perguntar-lhe se amava alguém e não era correspondida; Euláliarespondeu que não. Não simpatizara com os candidatos. A boa velhaabanou a cabeça; falou dos vinte e sete anos da filha, procurouaterrá-la com os trinta, disse-lhe que, se nem todos os noivos amereciam igualmente, alguns eram dignos de ser aceitos, e que importavaa falta de amor? O amor conjugal podia ser assim mesmo; podia nascerdepois, como um fruto da convivência. Conhecera pessoas que se casarampor simples interesse de família e acabaram amando-se muito. Esperaruma grande paixão para casar era arriscar-se a morrer esperando.

— Pois sim, mamãe, deixe estar...

E, reclinando a cabeça, fechou um pouco os olhos para espiar alguém,para ver o namorado encoberto, que não era só encoberto, mas também eprincipalmente impalpável. Concordo que isto agora é obscuro; não tenhodúvida em dizer que entramos em pleno sonho.

Eulália era umaesquisita, para usarmos a linguagem da mãe, ou romanesca, paraempregarmos a definição das antigas. Tinha, em verdade, uma singularorganização. Saiu ao pai. O pai nascera com o amor do enigmático, doarriscado e do obscuro; morreu quando aparelhava uma expedição para irà Bahia descobrir a "cidade abandonada". Eulália recebeu essa herançamoral, modificada ou agravada pela natureza feminil. Nela dominavaprincipalmente a contemplação. Era na cabeça que ela descobria ascidades abandonadas. Tinha os olhos dispostos de maneira que não podiamapanhar integralmente os contornos da vida. Começou idealizando ascoisas, e, se não acabou negando-as, é certo que o sentimento darealidade esgarçou-se-lhe até chegar à transparência fina em que otecido parece confundir-se com o ar.

Aos dezoito anos, recusouo primeiro casamento. A razão é que esperava outro, um maridoextraordinário, que ela viu e conversou, em sonho ou alucinação, a maisradiosa figura do universo, a mais sublime e rara, uma criatura em quenão havia falha ou quebra, verdadeira gramática sem irregularidades,pura língua sem solecismos.

Perdão, interrompe-me uma senhora,esse noivo não é obra exclusiva de Eulália, é o marido de todas asvirgens de dezessete anos. Perdão, digo-lhe eu, há uma diferença entreEulália e as outras, é que as outras trocam finalmente o originalesperado por uma cópia gravada, antes ou depois da letra, e às vezespor uma simples fotografia ou litografia, ao passo que Euláliacontinuou a esperar o painel autêntico. Vinham as gravuras, vinham aslitografias, algumas muito bem acabadas, obra de artista e grandeartista, mas para ela traziam o defeito de ser cópias. Tinha fome esede de originalidade. A vida comum parecia-lhe uma cópia eterna. Aspessoas do seu conhecimento caprichavam em repetir as idéias umas dasoutras, com iguais palavras, e às vezes sem diferente inflexão, àsemelhança do vestuário que usavam, e que era do mesmo gosto e feitio.Se ela visse alvejar na rua um turbante mourisco ou flutuar um penacho,pode ser que perdoasse o resto; mas nada, coisa nenhuma, uma constanteuniformidade de idéias e coletes. Não era outro o pecado mortal dascoisas. Mas, como tinha a faculdade de viver tudo o que sonhava,continuou a esperar uma vida nova e um marido único.

Enquantoesperava, as outras iam casando. Assim perdeu ela as três principaisamigas: Júlia Costinha, Josefa e Mariana. Viu-as todas casadas, viu-asmães, a princípio de um filho, depois de dois, de quatro e de cinco.Visitava-as, assistia ao viver delas, sereno e alegre, medíocre,vulgar, sem sonhos nem quedas, mais ou menos feliz. Assim se passaramos anos; assim chegou aos trinta, aos trinta e três, aos trinta ecinco, e finalmente aos trinta e oito em que a vemos na igreja,conversando com o padre Teófilo.

V

Naquele dia mandara dizer uma missa por alma da mãe, que morrera um anoantes. Não convidou ninguém: foi ouvi-la sozinha. Ouviu-a, rezou,depois sentou-se no banco.

Eu, depois de ajudar à missa,voltei para a sacristia, e vi ali o padre Teófilo, que viera da roçaduas semanas antes e andava à cata de alguma missa para comer. Pareceque ele ouviu do outro sacristão ou do mesmo padre oficiante o nome dapessoa sufragada; viu que era o da tia e correu à igreja, onde aindaachou a prima no banco. Sentou-se ao pé dela, esquecido do lugar e dasposições, e falaram naturalmente de si mesmos. Não se viam desde longosanos. Teófilo visitara-as logo depois de ordenado padre; mas saiu parao interior e nunca mais soube delas, nem elas dele.

Já disseque não pude ouvir nada. Estiveram assim perto de meia hora. Ocoadjutor veio espiar, deu com eles e ficou justamente escandalizado. Anotícia do caso chegou, dois dias depois, ao bispo. Teófilo recebeu umaadvertência amiga, subiu à Conceição e explicou tudo: era uma prima, aquem não via desde muito. O padre coadjutor, quando soube daexplicação, exclamou com muito critério que o ser parente não lhetrocava o sexo nem supria o escândalo.

Entretanto, como eutinha sido companheiro do Teófilo no seminário e gostava dele,defendi-o com muito calor e fiz chegar o meu testemunho ao palácio daConceição. Ele ficou-me grato por isso, e daí veio a intimidade denossas relações. Como os dois primos podiam ver-se em casa, Teófilopassou a visitá-la, e ela a recebê-lo com muito prazer. No fim de oitodias, recebeu-me também; ao cabo de duas semanas era eu um dos seusfamiliares.

Dois patrícios que se encontram em plagaestrangeira e podem finalmente trocar as palavras mamadas na infâncianão sentem maior alvoroço do que estes dois primos, que eram mais queprimos: moralmente eram gêmeos. Ele contou-lhe a vida e, como osacontecimentos acarretassem os sentimentos, ela olhou para dentro daalma do primo e achou que era a sua mesma alma e que, em substância, avida de ambos era a mesma. A diferença é que uma esperou quieta o que ooutro andou buscando por montes e vales; no mais, igual equívoco, igualconflito com a realidade, idêntico diálogo de árabe e japonês.

— Tudo o que me cerca é trivial e chocho, dizia-lhe ele.

Com efeito, gastara o aço da mocidade em divulgar uma concepção queninguém lhe entendeu. Enquanto os três amigos mais chegados doseminário passavam adiante, trabalhando e servindo, afinados pela notado século, Veloso cônego e pregador, Soares com uma grande vigararia,Vasconcelos a caminho de bispar, ele Teófilo era o mesmo apóstolo emístico dos primeiros anos, em plena aurora cristã e metafísica. Viviamiseravelmente, costeando a fome, pão magro e batina surrada; tinhainstantes e horas de tristeza e de abatimento: confessou-os à prima...

— Também o senhor? perguntou ela.

E as suas mãos apertaram-se com energia: entendiam-se. Não tendo achadoum astro na loja de um relojoeiro, a culpa era do relojoeiro; tal era alógica de ambos. Olharam-se com a simpatia de náufragos, — náufragos enão desenganados, — porque não o eram. Crusoe, na ilha deserta, inventae trabalha; eles não; lançados à ilha, estendiam os olhos para o marilimitado, esperando a águia que viria buscá-los com as suas grandesasas abertas. Uma era a eterna noiva sem noivo, outro o eterno profetasem Israel; ambos punidos e obstinados.

Já disse que Euláliaera ainda bonita. Resta dizer que o padre Teófilo, com quarenta e doisanos, tinha os cabelos grisalhos e as feições cansadas; as mãos nãopossuíam nem a maciez nem o aroma da sacristia, eram magras e calosas echeiravam ao mato. Os olhos é que conservavam o fogo antigo, era porali que a mocidade interior falava cá para fora, e força é dizer queeles valiam só por si todo o resto.

As visitas amiudaram-se.Afinal íamos passar ali as tardes e as noites e jantar aos domingos. Aconvivência produziu dois efeitos, e até três. O primeiro foi que osdois primos, freqüentando-se, deram força e vida um ao outro;relevem-me esta expressão familiar: — fizeram um pique-nique deilusões. O segundo é que Eulália, cansada de esperar um noivo humano,volveu os olhos para o noivo divino e, assim como ao primo viera aambição de São Paulo, veio-lhe a ela a de Santa Teresa. O terceiroefeito é o que o leitor já adivinhou.

Já adivinhou. O terceirofoi o caminho de Damasco, — um caminho às avessas, porque a voz nãobaixou do céu, mas subiu da terra; e não chamava a pregar Deus, mas apregar o homem. Sem metáfora, amavam-se. Outra diferença é que avocação aqui não foi súbita como em relação ao apóstolo das gentes; foivagarosa, muito vagarosa, cochichada, insinuada, bafejada pelas asas dapomba mística.

Note-se que a fama precedeu ao amor.Sussurrava-se desde muito que as visitas do padre eram menos deconfessor que de pecador. Era mentira; eu juro que era mentira. Via-os,acompanhava-os, estudava esses dois temperamentos tão espirituais, tãocheios de si mesmos, que nem sabiam da fama, nem cogitavam no perigo daaparência. Um dia vi-lhes os primeiros sinais do amor. Será o quequiserem, uma paixão quarentona, rosa outoniça e pálida, mas era,existia, crescia, ia tomá-los inteiramente. Pensei em avisar o padre,não por mim, mas por ele mesmo; mas era difícil, e talvez perigoso.Demais, eu era e sou gastrônomo e psicólogo; avisá-lo era botar forauma fina matéria de estudo e perder os jantares dominicais. Apsicologia, ao menos, merecia um sacrifício: calei-me.

Calei-me à toa. O que eu não quis dizer, publicou-o o coração de ambos.Se o leitor me leu de corrida, conclui por si mesmo a anedota,conjugando os dois primos; mas, se me leu devagar, adivinha o quesucedeu. Os dois místicos recuaram; não tiveram horror um do outro nemde si mesmos, porque essa sensação estava excluída de ambos, masrecuaram, agitados de medo e de desejo.

— Volto para a roça, disse-me o padre.

— Mas por quê?

— Volto para a roça.

Voltou para a roça e nunca mais cá veio. Ela, é claro que tinha achadoo marido que esperava, mas saiu-lhe tão impossível como a vida quesonhou. Eu, gastrônomo e psicólogo, continuei a ir jantar com Euláliaaos domingos. Considero que alguma coisa deve subsistir debaixo do sol,ou o amor ou o jantar, se é certo, como quer Schiller, que o amor e afome governam este mundo.


Fonte:
ASSIS, Machado de Assis. Histórias sem Data. SP: Cia. Editora Nacional, 2005.

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21.12.2009
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20.12.2009


Algumas Poesias do livro "Helenos"

Areílico é morto pelo filho de Menetes

Areílico é morto pelo filho de Menetes
com a longa haste de bronze cravada na coxa
Menelau percebe o peito nu de Toante
aí o fere cobrindo seus olhos de treva
Ânflico mata Filido destroçando seus ossos
Nestórida derruba Antímnio, que irrita o irmão
e este, Máris, é morto também pela mesma lança
Peneleu, num golpe, de Lico tira a cabeça
Cleóbulo baixou os olhos frente a Ajax
Piracme cai na poeira fixo à lança de Pátroclo
Meríones atinge Acamante com a espada no ombro

Abre-se o fosso no caminho do Hades
um a um os heróis se retiram às sombras
onde não tardarão a encontrar a nova luta
no primoroso verso de um poeta brônzeo
========================

Amanhece junto aos rumores dos pássaros

amanhece junto aos rumores dos pássaros
o campo aberto está à espera dos filhos
prendo às pernas minha sandália de couro
com o elmo de bronze expondo seu brilho

última olhada a este espelho turvo
lâmina fria em um lago escuro
preparo punhal espada e escudo
expectativa das dores de um golpe duro

ouvi no sonho a voz da justiça
mas ela não tinha mãos corpo ou face
talvez fosse meu medo pedindo socorro
alimentando de vida o que só é disfarce

meus irmãos chamam, e vamos juntos
aos que sobrarem da luta, cobrir de glória
aos outros, descer aos campos do Hades
que a tudo engole e aos sonhos devora
=======================

Três cavaleiros viajam em um campo de areia e pedra

três cavaleiros viajam em um campo de areia e pedra
em direção à tenda de Aquiles pedir-lhe favores
dentro da noite sobre os cavalos não se falam
é a ânsia da chegada, a surpresa e os temores

à tarde canta Aquiles intrigante música
mergulhado em si próprio e na escura dor
ver que o herói é sempre só é uma estátua
o bronze é sua roupa o sangue seu amor

desfeita a carne sobre o fogo do banquete
bebem os cavaleiros um vinho doce no silêncio
composto aos poucos pelos galos montanheses
e a densa nuvem da fumaça dos incensos

" - estende tua mão e tua bravura sobre o povo
mostra ao destino que teu desejo é tua espada"
" - guerreiros valorosos, minha resposta é não
o limite desta tenda é minha glória conquistada

o navio negro exposto ao frio e ao bravo mar
é meu retiro e junto a Pátroclo farei reino
combinando esquecimento e ardor, fracasso e luta
na insegura espera do prazer que nunca tenho"
=====================

Amo sobretudo as batalhas

amo sobretudo as batalhas
seus longos preparativos
e a chance de olhar nos olhos
um inimigo que é amigo

contemplar o vermelho da tarde
abraçado aos desfalecidos
contar entre nós os que sobraram
honrar em lágrimas os desaparecidos

amo sobretudo esta rotina
fazer dia a dia o que é devido
no campo entre homens valorosos
brigar e sofrer sem um grito

longe das mulheres e das intrigas
longe do amor do corpo e do seu ritmo
afiando facas, carregando pedras
entre homens desfiamos nosso íntimo

amo sobretudo a disciplina
a construir este muro infinito
dentro estamos a sós e no silêncio
marchando firmes num labirinto
========================

Os primeiros vapores da manhã estendem-se na baía

Os primeiros vapores da manhã estendem-se na baía
longe os primeiros pios, devagar se contorce a água
em crespas ondas de um profundo mito atrás.

Aqueles que me contaram, e os que contaram a eles
uns sobre os outros em sucessivos gestos rituais
a história deste fogo, também minha e também sua.

Preso em sua própria tenda, leves panos estendidos
armações rústicas e frágeis sobre o exército
este guerreiro persegue os sinais de sua luta.

Rede tecida no contorcer das decisões e palavras
pouco a pouco, apesar do empenho em desfazer
cada gole amargo e cada curva estranha.

Armam-se os escudos, brilham as espadas matinais
protetores de couro, detalhes de bronze sobre os olhos
não há lágrimas, a festa é feita de louvor

A romper esta espera feita no silêncio
abatem-se os primeiros combatentes gloriosos
deixando atrás o nome a ser escrito em ouro

Horas, sol de inverno, rolam as cabeças
olhos nos olhos, corpo a corpo, sangue
leio em mais um dia o retorno eterno.

A esperança da vitória, fé no inalcançável
buscando no braço forte que levanta o golpe
um dia esquecido onde isto está escrito

Tarde, os que voltam abraçados se recomporão
novas tiras de couro, está aceso o fogo
músculos e olhos cansados se aconchegam

Este guerreiro tenso porém não findou o dia
e a cela à qual está preso não fraquejou
tendo se armado como um monstro surdo

Vindo do tempo vazio, pêndulo na escuridão
não há resposta, porém pergunta, guerreiro doce
os pêlos do braço voejam na brisa triste

Claro como os exaustos companheiros adormecidos
estende-se o passar das horas sobre eles
cantam pelo campo os insetos passageiros

Venham a ouvir este canto incerto
foi inscrito em tua fronte de guerreiro
que em ti se cantarão os dias da glória

Bem como os do começo da pergunta
os dias do amor e da música
também os do pêndulo, da dor e do escuro.
=======================

Primeiro vieram e arrancaram sua casa

primeiro vieram e arrancaram sua casa
depois impuseram o dia sobre o dia
fizeram com que a paz fosse sonho
que o fato novo da manhã um amargo

lançaram sobre ele o fogo e o ferro
também o desprezo do inimigo no campo
os sons da noite o sino badalando
o vão o fútil o só e o volúvel

desde seu ponto perdido na terra
procurou o que explica o sentido da luta
seu gesto inglório e a esperança inútil
a razão de si em seu momento de luto

ajoelhado frente ao deus dos homens
pediu e suplicou e acreditou na fé
que do nada se reerguesse sua casa
e que seu nome se transformasse em pó

Fonte:
FACCIONI FILHO, Mário. Helenos. Letras Contemporâneas, 1998.

A Cinética Poesia de Mauro Faccioni Filho


Helenos,livro de poesia do poeta, engenheiro e cineasta paranaense, residenteem Santa Catarina, Mauro Faccioni Filho, marca pelo movimento cinéticoe estranhamento. E isso ocorre tanto no conteúdo, quanto na forma dospoemas.

Editado em 1998, pela editora Letras Contemporâneas,sob o comando de Fábio Brüggemann e Péricles Prade, a obra encontra-seesgotada e apenas disponibilizada pelo autor na internet.

Olivro traz em epígrafe, a tradução de um poema de Jorge Luis Borges,feita pelo autor. O poema chama-se Arte Poética, e traz versos quedenotam o eterno retorno da poesia. A poesia que nunca morre e retornacom a aurora e o ocaso.

Entrando em HELENOS damos de cara com Areílico morto pelo filho de Menetes. "Abre-seo fosso no caminho do Hades/ um a um os heróis se retiram àssombras/onde não tardarão a encontrar a nova luta/no primoroso verso deum poeta brônzeo"

Não me engano quando constato que esselivro de poemas é um quase-roteiro cinematográfico, na maneiraim-expressionista de condução/movimento das cenas/poemas, sua matéria esignificação.

Homero, divisa um poeta no tempo. Homero no tempoa divisar um poeta que lhe retorna convicto de linguagens novas.Sedento do sangue das deusas e heróis despojados nos campos debatalhas. Homero não morreu. A poesia não morreu e retorna homérica notempo, no vento. Homero o paradigma da poesia repartida na face daterra. Todos sofremos a carga inconsciente do poético, que atravessa osséculos. Há muito de grego e romano na tradição poética do ocidente.Essa riqueza órfica transcende as mais atentas consciências (não comodefeito mas como importante contributo) e vem somar a liracontemporânea, como no caso de Helenos. Helenos, um livro que já nasceclássico, pela diferença que faz, na poesia brasileira posultramoderna.Nada a ver. Nada a dever, a santos, deuses e tempestades. Nada e tudoao mesmo tempo. A poesia de Mauro Faccioni Filho, deslumbra pelorompante da linguagem, dos cenários, da movimentação dos corpos, dasalmas, das armas, da empática destreza de estar deslocado no tempo e emtantas personas. Eis o poder do poeta que adentra espaços sagrados paraextrair dali a matéria mais rica do seu dizer.

Pretensiosa nasignificação, sua poesia, almeja mundos na ponta da lâmina de prata, aadaga lampejante do verbo novo, que é o enfoque contemporâneo ao temaantigo. O ponto de partida inusitado e franco, que só o poetacontemporâneo na rede de interferências/referências, pode tomar e toma.

Vencer,perder, sonhar, lutar, empunhar as armas, honrar os mortos em batalha.Essa a voz poética que o território greco-romano, nathuralmenteprovocado, da poesia do Mauro F. Filho apresenta. Uma poesia de altainspiração e retorno a raiz da raça "meusirmãos clamam, e vamos juntos/aos que sobrarem da luta, cobrir deglória/aos outros, descer aos campos do Hades/que a tudo engole e aossonhos devora".

No sistema nervoso central da poesia de Helenos, está a batalha. O amor que os homens nutrem pela luta. "amosobretudo as batalhas/seus longos preparativos/e a chama de olhar nosolhos/contar entre nós os que sobraram/honrar em lágrimas osdesaparecidos".

O sentido da luta, é o sentido do próprioviver, eis que viver é lutar obsessivamente contra as forças ocultas danathureza, e o poeta assim prescreve no poema Primeiro vieram earrancaram sua casa: "desde seu pontoperdido na terra/procurou o que explica o sentido da luta/seu gestoinglório e a esperança inútil/a razão de si em seu momento de luto".

Nesseterritório sagrado de Helenos, onde a poesia de Mauro Faccioni Filho seassenta, existe luta, muita luta, vencidos e vencedores, heróisanônimos, nomes que passam com o vento do deserto. "quevenham as ondas apagar imagens/desenhos turvos, a expressãoincompleta/que passe o amanhã e passe o depois também/passem os nomescom o vento do deserto".

Alvo livre o coração do sol. EmQuando os guerreiros dão-se trégua, iniciam os jogos olímpicos, e umaoutra realidade se estabelece na vida e no poema: "nadade sangue, nada de lágrimas/o que é dor e guerra pode esperar/apoderosa lança é a mais distante/cujo alvo livre é o coração do sol".

Doamor, da morte, suas faces no tempo, nada ficou de fora da poéticaproposta pelo autor, e em Assilikis troca bilhetes com seu futuroamante, vê-se: "Arrumo as mechas,mergulho no frio/empunho os batidos seios para a aurora/ao lado do amorhá o vento da morte/cantarei um poema, só desejo dormir".

Mesmocom a boca cheia, poema híbrido de gozo e dor, de corpo seprostituindo, de corpo que se dá e vende-se, o furor do prazer sobretodas as coisas, eros e tanatos reinvocados: "arrancarei todos os cabelos/gozando aos uivos e às bofetadas/e me jogarei sobe meus restos/e mais cinco moedas prateadas".

Amore perdição. A louca selvagem vinda da fábula – o sexo virado fabulação.O poema Deite-se na cama convida a passividade do outro. O outro queserá objeto dos muitos desejos. "baterei como uma louca/uma selvagem vinda da fábula/serpentes pelo pescoço..."Belíssimos esses versos do poema, trazendo alto poder de imaginação dopoeta, que busca na raiz da raça, como entendi e mencionei acima, amatéria do seu poético. O poeta é mais que lutador na poesia deHelenos, resolve-se mártir de sua causa íntima. "saúdo este resignado poeta/mártir de sua causa íntima/algumas facas moças poemas/versos e esperança íntima".

Helenosnão é livro de leitura fácil e rápida. Há de se perquirir, isolar,trafegar pela floresta dos símbolos híbridos de sóis e luas que o poetanos oferece. A primeira paisagem poderia ser até bucólica, não fossemas espadas, as mortes, as lutas fratrícidas, o profano das relações,quando a mulher também comparece no usufruir da vida em sua completude.Há também o território de sombra e lusco-fusco, onde os objetos surtemmiragens, ser e não-ser, estar e não-estar, no mundo entre as coisas. "aaventura de buscar onde não foi buscado/a tentativa de afirmar em si onão firmado/viu no meio da mata o que não se havia visto/o caminho aser seguido onde nada era seguido." Aqui é o típico caso docaminho do sem-caminho, do ser que não sabe claramente onde ir,seguir... procurar e firmar o que não foi procurado, firmado. Essa acondição a que se resume a vida do próprio poeta, na sua luta inglóriacom os signos. A busca da voz única, a infinitude dos objetos, osmovimentos do tempo, o espírito que quer, prefigura, desanima erepercute. Gênio das imagens inusitadas, o poeta é o arquiteto decatedrais em meio aos ímpios. "o gênio arquiteto das imagens/ergueu a catedral em meio aos ímpios".

Logomais, em Barba de anteontem camisa amarrotada, o poeta sentencia que agrandeza e miséria andam sempre de mãos dadas, como elementoscontrários que se encontram nos extremos para enriquecer a vida. Vida "esta é a arte, esta visão do mundo/grandeza e miséria nós de mãos dadas".O nós remetem aos conluios, aos elementos complexos, diferentes,unidos, conciliados numa mesma estrutura, assim como é o próprioHelenos em sua urdidura de signos.

Numa poética assim de opostostrançados como cipós-fios no tempo, difícil ao mais compenetradoexegeta, arrancar daquele território/espaço, as fibras orgânicas, ostecidos claros de significação. Tudo translude e transluz, na poesia deHelenos, iludindo assim o olho que vê, em pleno favor da criação livredo poeta, que não restringiu o ímpeto diante do desafio que se impôs:dizer o dito retornado, a voz das pedras antigas de Grécia e Roma, noscondutos, órgãos projetivos de sua visão e raça: "mas o tempo não dá tréguas/embaixo da terra outras idéias/brotaram de sementes antigas/dizendo:retornamos retornaremos".

OMauro Faccioni Filho é poeta que faz realmente brotar de sementesantigas muitas idéias novas, e a poesia rigorosa de linguagem.

Odomínio da língua e as projeções do sujeito/criador, são de fácilvisibilidade na obra, formada a estrutura poética com a máximaintensidade, labor, estética.

Em Uma jaula, poema-vanguarda, dápra se dizer, o poeta abre a linguagem contemporânea livre, de plenorigor imagético, síntese e precisão semântica: "umajaula: o trio dos tigres tristes/quer ser mas sempre falha/circoaberto:/sílaba interna da palavra/que ao picadeiro se espalha."

Nãotenho dúvidas quanto ao poeta alardear suas imagens com a fúria dosdestrambelhados. Esses os necessários no orbe da poesia. Loucos de todogênero, poetas inventores de linguagem na mais perfeita afirmaçãopoundiana, contra os beletristas e diluidores. Em Helenos, há ofanopéico, melopéico e logopéico, transmixados todos no ímpeto do dizerque acelera o batimento cardíaco, ilude, prestidigita o conhecimentodito e transita os muitos tempos no tempo. De Grécia antiga com suaslutas fratrícidas passamos ao contemporâneo livre. Homero versado dePound, Whitman, Fernado Pessoa, vozes da modernidade, crescidas novento.

Lembrando Walt Whitman, na biografia escrita por PaulZweig, também agora vemos em Do rio interminável/Piso exato sobre teupasso, algo de metempsicose, de passos que passam sobre os própriospassos. No poema de Whitman eram os pós (corpo do poeta morto) queaderiam sob a sola da bota do outro no tempo. No caso de Helenos, navoz plural de Mauro F. Filho é: "piso exato sobre teu passo,/sobre a marca gasta mas rígida/caminhando em um só caminho/que o teu passo fez e o meu refaz".

Opoeta dança com as imagens, palavras, sentenças, em Ele teve sua épocade belo, adentra a seara do estético. O estético que se confunde com aprópria essência da poesia, o lustro/brilho da linguagem que ao mesmotempo nucleariza a significação e se faz conteúdo: "o belo nunca é passado/mas o sonho borrado e turvo/numa noite do futuro".O belo como a encarnação do sonho no futuro, o sonho que nunca é de virclaro, divisado nas particularidades, mas denso e sujo, turvo ecomplexo, como certos signos.

Poesia, é sim, processo deauto-conhecimento. As linguagens induzindo o sujeito no caminho dosem-caminho. Pedras que vão se identificando. Imagens, rostos,vertigens, na velocidade do tempo. O conhecimento do nada-ser. O saltorepentino no abismo: "para descobriro que temos no umbígo/eu não sou você, nem ele, ninguém/resto deesperança que não digo/não vamos? Então vou só/descer é tão fácil quenão ligo".

Em Descobri após os trinta anos, o poetadestina, desatina, a que as palavras igualem, aspirem ao labirinto. Olabirito é o poema. A vocação teleológica da palavra, que nunca devetrazer uma só face chapada, mas de forma cubista transfigurar muitossentidos. "olhando ao lado resta aliteratura/solitária próxima, eis a dor/mas a um poema que nadatem/senão prosa, palavras igualem/aspirem ao labirinto...".

Quaseao final do livro em Nossa decadência começou, é de se matar o que nãomorreu, calar-se: recolher o ímpeto selvagem da criação. Decadência, avoz retornada pra dentro. O NADA prevalecido de nada sobre todas ascoisas. Essa a plena decadência, que é um não-fazer, não-sentir,não-pensar, onde o discurso trunca e se recolhe. "onde houve uma alegria, secou/nasceu uma fonte salgada/que para o mar não deu/melhor é calar a boca/matar o que não morreu".

Noutropoema, o tempo, o tirano implacável, aquele que corre pra trás e nãosabíamos, comparece em sua horrível indiferença. O tempo, indiferenteao homem, sua luta e seus caminhos. "cruzamos os mesmos caminhos/luta triste e sem glória/a nós o tempo desconhece".

EmComo já estamos pálidos e perdidos, o poeta refaz imagens de um mundoexterior mezobucólico: cavalos no campo, plantações, tudo a que guardeo tempo eterno na lembrança. Tudo o que é apenas sombra e passagem.Passam na vida, os homens, as coisas, os objetos, na social indiferençado tempo.

No poema Não era nada e perguntou, a filopoética deMauro F. Filho se estabelece nathuralmente, belíssima no clima criadodo encontro do homem/poeta consigo mesmo na imagem refletida noespelho. Poesia com filosofia, aliás algo de muito a ver com a Grécia,e a origem da própria linguagem (palavras) que no seu existir dependemda significação, (o conceito além da imagem fônica) que se confunde comimportante objeto/função da filosofia, que é criar conceitos,significar, entender, ampliar, o significado/entendimento da vida e dascoisas.

Reflexo do reflexo no espelho. Quem sou? Conquista –espaço – conhecido e desconhecido – a aventura humana no mundo dossignos. Um dos mais belos poemas do livro, o cunho filosófico do objetoconhecido, não vem com ranço de tese acadêmica, mas com os elementosindispensáveis ao processo do conhecimento: sujeito x objeto. "não era nada e perguntou/ao espelho, quem sou/reflexo do reflexo sobre/lâmina da água ou gelo..."

Correrá o rio interminável, correrá com as palavras aptas a angariar o mundo. "haveráum broto alheio e estranho/que guardaremos na memória feito o momentofugaz/de um gesto, um lance/um íntimo/e tu dirás:é o ponto/de tuaanônima alegria". Muitos brotos alheios e estranhos haverão deser encontrados pelos caminhos, como a poesia desse Mauro FaccioniFilho, extratos tirados da raiz da raça, vertidos dos labirintos daimaginação criadora.

Os poemas de Helenos, como cinéticasaparições, invadem a mente do leitor, num movimento que não é própriodos livros de poesia, mas de filmes. Filmes que o Mauro Faccioni Filhoprovavelmente realizará no futuro do futuro do Brasil, na condição depoeta pleno que é.
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Fonte:
Artigo de Jairo Batista Pereira. In http://www.tanto.com.br/Jairobatistapereira-maurofaccioni.htm  

postado por Magister, às 04:02

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19.12.2009


Personagens
Mateus, velho de 80 anos
Mateusa, idem
Catarina
Pêdra e filhas
Silvestra
Barriôs, criado

ATO PRIMEIRO

Cena Primeira

MATEUS (caminhando em roda da casa; e Mateusa assentada em uma cadeira)
– Que estão fazendo as meninas, que ainda as não vi hoje?!

MATEUSA (balançando-se)
– E o Sr. Que se importa, Sr. Velho Mateus, com as suas filhas?

MATEUS (voltando-se para esta)
– Ora é boa esta! A Sra. Sempre foi, é, e será uma ( atirando com a perna) – não só impertinente, como atrevida!

MATEUSA – Ora, veja lá, Sr. Torto (levantando-se), se estamos no tempo em que o Sr. A seu belo prazer me insultava! Agora eu tenho filhos que me hão de vingar

MATEUS (abraçando-a) – Não; não, minha querida Mateusa; tu bem sabes que isso não passa de impertinências dos 80. Tem paciência. Vai me aturando, que te hei de deixar minha universal herdeira (atirando com uma perna) do reumatismo que o demo do teu Avô torto meteu-me nesta perna! (atirando com um braço) das inchações que todas as primaveras arrebentam nestes braços! (abrindo a camisa) das chagas que tua mãe com seus lábios de vênus imprimiu-me neste peito! E finalmente (arrancando a cabeleira): da calvície que tu me pegaste, arrancando-me ora os cabelos brancos, ora os pretos, conforme as mulheres com quem eu falava! Se elas (virando-se para o público) os tinham pretos, assim que a sujeitinha podia, arrancava-me os brancos, sob o frívolo pretexto de que me namoravam! Se elas os tinham brancos, fazia-me o mesmo, sob ainda o frivolíssimo pretexto de que eu as namorava (batendo com as mãos, e caminhando). E assim é; e assim é, - que calvo! calvo, calvo, calvo, calvo, calvo (algum tanto cantando) calvô... calvô...calvô... ô...ô...ô!...

MATEUSA (pondo as mãos na cabeça)
– Meu Deus! Que homem mais mentiroso! Céus! Quem diria que ainda aos 80 este judeu-errante havia de proceder como aso quinze, quando roubava frutas do Pai!

MATEUS (com fala e voz muito rouquenha) –
Ora, Sra.! Ora, Sra.!Quem, quem lhe disse essa asneira?!
(Profere estas palavras querendo andar e quase sem poder. É este o todo do velho em todos os seus discursos.)

MATEUSA (empurrando-o) – Então para que fala de mim a todas as moças que aqui vêm, Sr., chino?! Para quê, hem? Se o Sr. não fosse mais namorador que um macaco preso a um cepo, certamente não diria – que sou velha, feia e magra! Que sou doente de asma; que tenho uma perna mais curta que a outra; que... que... finalmente, que já (voltando-se com expressão de terror) não lhe sirvo para os seus fins de (pondo a mão em um olho) de... O Sr. bem sabe! (esfregando com as costas da mão o outro [olho] com voz de quem chora). Sim, se eu não fosse desde a minha mais tenra idade um espelho, tipo, ou sombra de vergonha e de acanhamento, eu diria (virando-se para o público): Já não quer dormir comigo! Feio! (saindo da sala) mau! velho! Rabugento! Também não te quero mais, fedorento!

MATEUS – Mas (voltando-se para o fundo), e as meninas, onde estão!? Onde? Onde?
(Puxa a cabeleira.) Pêdra! Catarina! Silvestra! (Escuta um pouco.) Nenhuma aparece! Cruéis! Fariam o mesmo que a Mãe!? Fugiriam de mim!? Coitado! Pobre de quem é velho! As mulheres fogem, e as filhas desaparecem!

Cena Segunda

PÊDRA (entrando) – O que é, Papaizinho? O que é que quer? O que tem? Sucedeu-lhe alguma cousa? Não? (Pegando-lhe no braço.)

MATEUS (como acordando-se de um sonho.) – Hem? (Esfregando os olhos.) Hem? O que é? Que é? Chegou alguém? Eu estava, aqui estava.

PÊDRA – Que tem, meu Pai?

MATEUS (assoando-se sem tocar no nariz, e olhando) – Vejam o que é ser velho!
Menina, menina, já que estás aqui, dá-me um lenço; anda (pegando nos braços da filha), anda, minha queridinha; vê um lenço para o vosso velho paizinho! Sim; sim; vai; vai; anda. (Fazendo-a caminhar.)

PÊDRA (voltando-se) – Também este meu Pai cada vez fica mais porco! Por isso é que a minha mãe já enjoou ele tanto, que nem o pode ver! (Saindo.)
Eu já vou buscar! Espere um minuto (com as mãos, fazendo-o parar), já venho, Papai! Já venho, e vou buscar-lhe um dos mais lindos (com ar gracioso) que encontrar em meu guardaroupa, ouviu, Papai? Ouviu?

MATEUS – Sim, sim; já ouvi. Tu sempre foste o encanto dos meus olhos; o sonho de todos os meus momentos... (Entra outra.) Esta menina (voltado para o povo) é os encantos da imaginação desta cabeça (batendo com as mãos, uma de cada lado da cabeça) e objeto que ao ver, me enche (apalpando o coração) este coração de alegria!

CATARINA – E eu, Papai? E eu, então não mereço alguma?!

MATEUS (voltando-se e olhando para Catarina) – Minha querida Filha! Minha querida Catarina! (Abraçando-a .) És tu, oh! Quanto me apraz ver-te! Se tu soubesses, queridíssima Filha, quão grande é o prazer que banha (inclinando [-se] e levando a mão ao peito) este peito! Sim (tornando a abraçá-la) , tu és um dos entes que fazem com que eu preze a velha existência, ainda por alguns dias! Sim sim, sim! Tu, tua sábia irmã Pêdra; e... e aquela que ainda hoje não tive a fortuna de ver, a tua mais que simpática irmã Silvestra; - são todas três os Anjos que me amparam; que me alimentam o corpo e a lama; por que, e para quem vivo; e morreria, se fosse mister!

(Entra Silvestra, aos pulinhos, e Pêdra, fazendo passos de dança.)

SILVESTRA – Papaizinho do meu coração! (abraçando-o pelas pernas.) Você é o meu tudo! Olhe, Papaizinho: eu sonhei que o Sr. queria um lenço, e corri! Tomei este que a mana Catarina lhe trazia, e lhe truce!

MATEUS – Quanto sou feliz! (Pega o lenço e enxuga os olhos.)

CATARINA (à parte, e com expressão de dor) – Ele disse que a outra era simpática; e de mim nem ao menos diz que sou formosa. Sempre é velho: não sabe agradar a todos!

PÊDRA – Papai! Eu não fui portadora do que me pediu, porque a Silvestra é muito velhaca, e muito ligeira! Assim que me viu com o lenço na mão, tomou-m’o, e correu para trazer-lhe primeiro que eu!

SILVESTRA – É porque eu quero ( dando com a mão na irmã) mais bem ao Papai do que Você; aí está!

PÊDRA – Pois não! Não vê que a Sra. já pesou os graus de amor que em meu coração eu consagro a meu Pai...

SILVESTRA – Não preciso pesar! Olhe: no seu coração existe certa força ou quantidade de amor consagrado (afagando com as mãos) ao papaizinho! E em mim, todo o meu coração é puro amor a ele tributado!

PÊDRA – Vejam só ( com aspecto impertinente, desgostoso; rosto franzido, pondo a cabeça de um lado, etc.) como é retórica! Não pensei que a Sra. estivesse tão adiantada! Não estudou; não se preparou hoje tãobém em seus velhos alfarrábios de filosofia!? Se não se preparou, para outra vez prepare-se, e veja se ganha mais um afeto do papai!

CATARINA (acomodando-as) – Meninas! (pegando no braço de uma e de outra) acomodem-se; vocês parecem nenês!

MATEUS – Meus anjos ( tãobém querendo acomodá-las). Minhas santas; minhas virgens... não quero que briguem, porque isso me desgosta. Sabem que já sou velho e que os velhos são sempre mais sensíveis que os moços... Quero vê-las contentes; contentezinhas; ao contrário fico triste.

PÊDRA E CATARINA (formando com as mãos pegadas umas nas outras um círculo em roda do pai.) – Nosso Papaizinho! Não há de se desgostar; não há de chorar (dançando). Nós havemos de amparar o nosso querido Papai. (Umas para as outras) Vamos; pulemos; dancemos; e cantemos: todos! Todos a uma só voz. ( O Pai vira-se ora para uma, ora para outra, cheio do maior contentamento: o sorriso não lhe sai dos lábios; os olhos são ternos; a face se franze de prazer; quer falar, e apenas diz: )
Meu Deus! Eu sou; eu sou tão feliz! que... Sim, sou; sou muito feliz!
(As filhas cantam:)
Nós somos três anjinhos;
E quatro éramos nós,
Que do céu descemos;
E o amor procuremos:
- Mataremos ao algoz
Destes dois nossos paizinhos!
Sempre fomos bem tratadas
Quer deste, quer daquela:
Não queremos que a maldade,
Para nossa felicidade,
Maltrate a ele ou a ela...
Mataremos tresloucadas!
Não somos só anjos
Que assim pensamos;
Que assim praticamos;
Tãobém são os arcanjos!
De principados – exércitos
Temos também de virtudes!
De tronos! Não mudes,
Papai! Vivam as ordens!
- Para debelarmos facínoras!
- Para triunfarem direitos,
- As armas temos nos peitos!
- A força de milhões d’espíritos!
(Terminado o canto, abraçarão todas o Pai, e este a elas, banhados todos na maior efusão de júbilo.)

PÊDRA ( para o pai) – Agora, Papai, vamos coser, bordar, fiar; fazer renda. ( Para as irmãs: ) Vamos, Meninas; a Mamãe já há de Ter a nossa tarefa pronta para nos dar trabalho!

CATARINA- Ainda é cedo; eu não ouvi dar oito horas; e o nosso trabalho sempre principia às nove.

SILVESTRA – Eu não sei o que fazer hoje: se bordar, se fiar, ou se crivar!

PÊDRA – Por bem de Deus, você nunca sabe o que há de fazer!

SILVESTRA (olhando-a com certo ar de indiferença) – Se te parece, minha querida Maninha, chama-me de preguiçosa!

PÊDRA – Não; isso eu não digo, porque a Sra. deu as mais delumbrantes provas de que há de vir a ser lá... (elevando a mão) para o futuro uma moça das mais trabalhadoras que eu conheço! E ainda hoje disso deu segurança no jardim do quintal, em que não ficava flor que não fosse pela Sra. cultivada!

SILVESTRA – Inda bem que a Sra. sabe, e faz-me o obséquio de dizer! E se eu o não fora ainda, não era de admirar; pois não conto mais de nove a dez anos de idade.

MATEUS (voltando-se para Silvestra) – Pois a Sra. esteve no quintal?

SILVESTRA – Pois então, Papai; eu não havia de ir cortar, arrancar todas as ervas perniciosas, que crescendo destroem as plantas, as flores preciosas ?

MATEUS (com muita alegria, pegando a filha) – Filha! Filha minha! Vem a meus braços!
(Abraça-a e beija-a muitas vezes.) Fazes, minha muito amada Silvestra, o que Deus faz aos Governos! O que os bons Governos fazem aos Governados! Prendem; castigam; melhoram; ou inutilizam os maus – para que não ofendam, nem prejudiquem os bons! E vocês (para as outras), o que faziam, durante o tempo em que minha inteligente Silvestra procedia com tanto acerto, praticando uma tão meritória ação e digna dos maiores elogios?

PÊDRA E CATARINA (quase ao mesmo tempo) – Eu regava as plantas e flores, com a mais fresca e cristalina água, a fim de que crescessem e dasabrochassem – perfeitas e puras! ( Isto disse Catarina)

PÊDRA - Eu, Papai, mudava algumas e plantava outras.

MATEUS – Já vejo que todas trabalharam muito! Hei de fazer a cada uma das Sras. O mais lindo presente! (Movendo a cabeça – inclinando- a.) Isto é, quando eu sair à rua! Pois bem sabem que eu aqui não tenho com que lhes presentear.

PÊDRA – Eu quero... quero: o que há de ser? (Levantando algum tanto a cabeça.) Uma boneca de cera, do tamanho da (apontando) Silvestra! E toda vestida de seda, ouviu, Papai? Com brincos, adereço... O Sr. sabe como se vestem as moças que se casam; assim é que eu quero! Não se esqueça; não se esqueça de comprar e me trazer assim. Olhe ( batendo- lhe a mão no braço), se na loja do Pacífico não tiver, tem na do Leite, na do Rodolfo, ou do Paradeda.

SILVESTRA – Eu me contento com menos! Quero um vestido de seda, lavrada a barra, e as mangas a fio de ouro; com blonds, e tudo o mais que se usar, do mesmo fio, ou daquilo que for mais moderno.

MATEUS (para Silvestra) – Contentas-te só com isso? Não queres sapatos de seda, botinhas de veludo tãobém bordadas de ouro, ou enfeite fino para a cabeça?

SILVESTRA – Não, Papai; basta o vestido; o mais tudo eu tenho muito bom, e em estado de poder servir com o lindo vestido que lhe peço. Sempre gostei da economia; e sempre aborreci a prodigalidade!

MATEUS – Estimo muito; é o mais fiel retrato da moral do velho Mateus!
(Para Catarina:)E a Sra., que está tão calada! Então, não pede nada?

CATARINA - As manas já pediram tanto, que eu não sei o que lhe hei de pedir; parece que tudo há de custar tanto dinheiro, que se o Sr. não tivesse ainda há pouco tirado a sorte grande na loteria do Rio de Janeiro, eu acreditaria – que teria de vender a cabeleira, para satisfazer tantos pedidos!

MATEUS – Não; não, menina! O que elas pedem custa pouco comparativamente aos meus e vossos rendimentos. Diga, diga: o que mais estimará que eu lhe traga, para comprar e trazer-lhe?!

CATARINA – Pois bem; em vou dizer-lhe: mas V. Mcê não se há de zangar.

MATEUS – Não; não; peça o que quiser, que eu com muito prazer lhe trago!

CATARINA – Pois então, visto que tem gosto em me fazer um presente... Até se eu não tivesse de ir a um batizado à casa da minha amiga e comadre D. Leocádia das Neves Navarro e Souto, eu não diria o que mais preciso, e quero que me dê... É um ramalhete das mais delicadas flores que se costumavam vender nas lojas das modistas francesas e alemãs.

MATEUS – E levou tanto tempo para pedir uma cousa de tão pouco valor!?

CATARINA – Não é de muito pequeno valor! O que eu quero é de uns muito mimosos, cujo preço sobe a dez ou doze mil-réis!

MATEUS – Pois então, isso é muito barato! Mas como é o que me pede, fique certa que há de ser servida, tanto mais que tem a intenção de se apresentar com ele em um baile, batizado, ou não sei que festa!

CATARINA – É quanto basta; e com ele ficarei muito contente!

MATEUSA (entra rengueando, revirando os olhos, e fazendo mil trejeitos; as filhas que a observam dizem umas para as outras) – Aí vem a Mamãe! – (Quase em segredo, rapidamente:) Olhem a Mamãe! Vamos! Vamos! Já são nove horas! ( Para o pai: ) Papai! Não se esqueça das nossas encomendas, como nós não nos esquecemos d’orar a Deus para que prolongue seus dias; e que estes sejam felizes! Até logo à hora do jantar ( e fazendo uma profunda cortezia, depois de lhes beijarem a mão, pegando nas saias dos vestidos), que é quando poderemos ter o inexprimível prazer de passar alguns preciosos momentos em sua estimável companhia.

Cena Terceira

MATEUSA (aproximando-se às filhas) – Vão meninas, vão fazer a sua costura! Está tudo marchando! Cada uma das Sras. Tem na sua almofada o pano, a linha, a agulha; e tudo o mais que é necessário para trabalhar até às 2 da tarde. O que é de abordar para a Pêdra, está desenhado a lápis; os picados para a Catarina, estão alinhavados; e a costura lisa, a camisa deste velho feio (batendo no ombro do marido) está começada. Tenham cuidado: façam tudo muito bem feitinho.

CATARINA, PÊDRA E SILVESTRA – Como sabe, somos obedientes filhas; deve por isso contar que assim havemos de fazer. (Saem.)

MATEUSA (para o marido, batendo-lhe no ombro) – Já sei que está repassado de prazer! Esteve com suas queridas filhinhas mais de duas horas! E eu lá, sofrendo as maiores saudades!

MATEUS – É verdade, minha querida Mateusa (batendo-lhe também no ombro), mas, antes de te dizer o que pretendia, confessa-me: Por que não quiseste tu o teu nome de batismo, que te foi posto por teus falecidos Pais?

MATEUSA – Porque achei muito feio o nome Jônatas que me puseram; e então preferi o de Mateusa, que bem casa com o teu!

MATEUS – Sempre és mulher! E não sei o que me pareces depois que ficaste velha e rabugenta!

MATEUSA (recuando um pouco) – És bem atrevido! De repente, e quando não esperares, hei de tomar a mais justa vingança das grosserias, das duras afrontas com que costumas insultar-me!

MATEUS (aproximando-se e ela recuando)

MATEUSA – Não se chegue para mim ( pondo as mãos na cintura e arregaçando os punhos) que eu não sou mais sua! Não o quero mais! Já tenho outro com quem pretendo viver mais felizes dias!

MATEUS (correndo a abraçá-la apressadamente) – Minha queridinha; minha velhinha! Minha companheirinha de mais de 50 anos (agarrando-a), por quem és, não fujas de mim, do vosso velhinho! E as nossas queridas filhinhas! Que seriam delas, se nós nos separássemos; se tu buscasses, depois de velha e feia, outro marido, ainda que moço e bonito! Que seria de mim? Que seria de ti? Não! Não! Tu jamais me deixarás.
(Tanto se abraçam; agarram; pegam, beijam-se, que cai um por cima do outro.)
Ai! Que quase quebrei uma perna! Esta velha é o diabo! Sempre mostra que é velha e renga! (Querem erguer-se sem poder.) Isto é o diabo!...

MATEUSA ( levantando-se, querendo fazê-lo apressadamente e sem poder, cobrindo as pernas que, com o tombo, ficaram algum tanto descobertas)
– É isto, este velho! Pois não querem ver só a cara dele? Parece-me o diabo em figura humana! Estou tonta.. Nunca mais, nunca mais hei de aturar este carneiro velho, e já sem guampas!
(Ambos levantaram-se muito devagar; a muito custo; e sempre praguejando um contra o outro. Mateusa, fazendo menção ou dando no ar ora com uma, ora com outra mão: ) Hei de ir-me embora; hei de ir; hei de ir!

MATEUS – Não há de ir; não há de ir; não há de ir porque eu não quero que vá! Você é minha mulher; e pelas leis tanto civis como canônicas, tem obrigação de me amar e de me aturar; de comigo viver, até eu me aborrecer! (Bate com um pé. ) Há de! Há de! Há de!

MATEUSA – Não hei de! Não hei de! Não hei de! Quem sabe se eu sou sua escrava!? É muito gracioso, e até atrevido! querer cercear a minha liberdade! E ainda me fala em Leis da Igreja e civis, como se alguém fizesse caso de papéis borrados! Quem é que se importa hoje com Leis ( atirando-lhe com o ‘Código Criminal’) , Sr. banana! Bem mostra que é filho dum lavrador de Viana! Pegue lá o Código Criminal, - traste velho em que os Doutores cospem e escarram todos os dias, como se fosse uma nojenta escarradeira!

MATEUS (espremendo-se todo, abaixa-se levanta o livro e diz à mulher) – Obrigado pelo presente: adivinhou ser cousa de que eu muito necessitava!
(Mete-o na algibeira. À parte: ) Ao menos servirá para algumas vezes servir-me de suas folhas, uma em cada dia que estas tripas (pondo a mão na barriga) me revelarem a necessidade de ir à latrina.

MATEUSA – Ah! já sabe que isso não vale cousa alguma; e principalmente para as Autoridades – para que tem dinheiro! Estimo muito; muito; e muito! (Pega em um outro – a ‘Constituição do Império’ e atiralhe na cara.)

MATEUS (gritando) – Ai! cuidado quando atirar, Sra. D. Mateusa! Não continuo a aceitar seus presentes, se com eles me quiser quebar o nariz! (Apalpa este, e diz: ) Não partiu, não quebrou, não entortou! ( E como o nariz tem parte de cera, fica com ele assaz torto. Ainda não acaba de endireitá-lo, Mateusa atira-lhe com outro de ‘História Sagrada’, que lhe bate numa orelha postiça, e que por isso com a pancada cai; dizendo-he: ) Eis o terceiro e último que lhe dou para... os fins que o Sr. quiser aplicar!

MATEUS (ao sentir a pancada, grita) – Ai que fiquei sem orelha! Ai! Ai! Ai! Onde cairia? (Atirando os livros na velha e com raiva. ) Por mais que recomendasse a esta endemoninhada que não queria presentes caros, este demônio havia de quebrar-me o nariz e pôr-me fora uma orelha! Ó Mateusa do diabo! Com quê, partes desta casa sem eu ir amanhã ao baile masquê, visitar as Pavoas!? E...

MATEUSA (batendo o pé) – Cachorro! Ainda me fala em pavoas, e em baile masquê!?
Traste! Ordinário! Já... rua, seu maroto!

MATEUS (voltando-se para o público) – Já se-viu que escaler velho mais impertinente! Esperem que eu lhe boto cavernas novas! (Procurando uma bengala. ) Achei! ( Com a bengala em punho) Já que a Sra. não faz caso da lei escrita! falada! e jurada! há de fazer da lei cacetada! paulada! ou bengalada!
(Bate com a bengala no chão.)

MATEUSA – Ah! dessa lei, sim, tenho medo. (À parte.) Mas ele não pode comigo, porque eu sou mais leve que ele; tenho melhor vista ; e pulo mais. (Pega em uma cadeira e dá-lhe com ela, dizendo: ) Ora tome lá! (Ele apara a pancada com a bengala, encolhendo-se todo; enfia esta na cadeira; empurram para lá, empurram para cá.)

CATARINA, PÊDRA E SILVESTRA (aparecendo na porta dos fundos; umas para as outras) – Vai lá! (Empurrando. Outra: ) Vai tu apartar! (Outra: ) Eu, não; quando eles estão assim, eu tenho medo, porque sou pequenina!

MATEUS – Ai! eu caio! Quem me acode! Perdi o queixo!

MATEUSA (gritando e correndo) – Ai! eu esfolei um braço, mas deixo-lhe a cadeira enfiada na cabeça! (Quer assim fazer e fugir, mas Mateus atiralhe a cadeira às pernas; ela tropeça e cai; ele vai acudi-la; quer correr; as filhas convidam-se a fugir; ele cai aos pés da velha).

BARRIÔS ( o criado) - Eis, Srs., as conseqüências funestas que aos administrados ou como tais considerados, traz o desrespeito das Autoridades aos direitos destes; e com tal proceder aos seus próprios direitos: – A descrença das mais sábias instituições, em vez de só a terem nesta ou naquela autoridade que as não cumpre, nem faz cumprir! – A luta do mais forte contra o mais fraco! Finalmente, - a destruição em vez da edificação! O regresso, em vez do progresso!

Porto Alegre, maio 12 de 1866.

Fonte:
Virtual Books


José Joaquim de Campos Leão, conhecido como Qorpo Santo (Triunfo, 19 de abril 1829 — Porto Alegre, 1 de maio de 1883) foi um dramaturgo brasileiro.

José Joaquim Leão, natural da vila do Triunfo, interior do Rio Grande do Sul. Percorreu várias localidades do interior antes de se estabelecer em Porto Alegre. Foi comerciante, professor, vereador, delegado de polícia. Vai para Porto Alegre em 1840, já órfão de pai, para estudar gramática e conseguir emprego na capital, habilitando-se ao exercício do magistério público, que passou a exercer a partir de 1851.

Casa-se em 1855 e, em 1857, muda-se com a família para Alegrete, cidade na qual funda um colégio, adquirindo respeitabilidade como figura pública, escrevendo para jornais locais e ocupando ainda cargos públicos de delegado de polícia e vereador.

Em 1861, de volta a Porto Alegre, segue a carreira de professor e começa a escrever sua Ensiqlopédia ou seis mezes de huma enfermidade. Parecem manifestar-se, neste momento, os primeiros sinais de seus transtornos psíquicos, rotulados então sob o diagnóstico de “monomania”, sendo afastado do ensino e interditado judicialmente a pedido da própria família. QS não aceita pacificamente este seu enquadramento psiquiátrico, recorrendo ao Rio de Janeiro, sendo examinado então por médicos daquela capital, que diferem do diagnóstico inicial e não endossam sua interdição judicial.

Todavia, o estigma estava posto, e o autor se vê cada vez mais isolado. Este isolamento social parece incitá-lo a escrever febrilmente, e o leva ademais a constituir sua própria gráfica, na qual viabiliza e edita sua produção textual.

A extensão e a natureza de seus problemas mentais não são claras. Os médicos que o examinaram no Rio de Janeiro, em 1868, declararam que estava apto para administrar negócios e família. Porém, de volta a Porto Alegre, no mesmo ano, foi interditado pela Justiça. Conseguiu montar uma gráfica, em 1877, para imprimir uma estranha série de livros intitulada Ensiqlopédia, ou Seis Mezes de huma Enfermidade.

As Relações Naturais, Mateus e Mateusa e Eu Sou Vida, Eu Não Sou Morte foram montadas, pela primeira vez, em 1966 na capital gaúcha.

Três anos mais tarde, foi lançada a coletânea das peças por iniciativa de Guilhermino César. Desde a década de 80 sua vida e obra têm inspirado livros, teses e discussões. ‘‘Atualmente, procura-se disfarçar a superficialidade dos seus enredos com algumas tintas de protesto e denúncia’’, afirma o professor Fraga no ensaio Um Corpo que se Queria Santo, introdução ao Teatro Completo. ‘‘Mas, na essência, lá está todo o arsenal cômico vindo diretamente de Martins Pena: quiproquós, esconderijos dentro dos armários, personagens caricaturais, os mesmos velhos preconceitos disfarçados com a máscara da liberalidade.’’

Os textos têm tantos personagens quanto possível diante da crença do autor na migração das almas. A Impossibilidade da Santificação ou a Santificação Transformada, por exemplo, traz 31 deles. Alguns personagens viram outros durante o enredo. ‘‘Alguns personagens são pessoas da sociedade carioca que ele queria atacar’’, conta Denise. Curioso são os nomes: Rubincundo, Revocata, Helbaquínia, Ridinguínio, Ostralâmio, Lamúria, Rocalipsa, Esterquilínea, Eleutério, Régulo, Catinga, Esquisito, Córneo, Ferrabrás, Simplício e por aí segue. A edição mantém os nomes originais, mas atualiza a grafia das palavras para o português usual, em vez de manter a proposta do autor. Muda inclusive a escrita dos títulos: Relasões Naturaes, por exemplo, vira Relações Naturais.

Campos Leão pretendia reformar a língua portuguesa suprimindo letras inúteis como ‘‘u’’ depois do ‘‘q’’ (daí o Qorpo-Santo) e lançou a sua Ensiqlopédia com tipologia própria. Idéia que fazia certo sentido, tanto que algumas de suas propostas foram mais tarde incorporadas ao idioma, como a eliminação do ‘‘ph’’ de pharmacia e o ‘‘h’’ quando não soa, como em deshonesto e deshumano. Para sexo, no entanto, propunha a grafia seqso. Achava que assim atenderia melhor à alfabetização, baseado em sua experiência como professor. ‘‘Quando ele percebeu que não havia chance de suas peças serem lidas, virou tipógrafo e editou a Ensiqlopédia em casa’’, explica Denise.

A Ensiqlopédia ou Seis Meses de uma Enfermidade possui nove volumes. Cada um deles é dedicado a um gênero — as comédias estão no quarto e as poesias, no primeiro. Há três na biblioteca da família Assis Brasil, três com o colecionador Julio Petersen, ambos de Porto Alegre, e os outros três estão desaparecidos. Há somente um exemplar de cada. Reeditada, a obra teatral funciona como pretexto para enveredar pelo universo de uma das figuras mais intrigantes da dramaturgia brasileira. O melhor de tudo parece mesmo o autor, inventor de si mesmo e da proposta que, como lembra Fraga, a Emília de Monteiro Lobato apreciaria conhecer.

As dezessete comédias (uma delas incompleta) reunidas em Teatro Completo são todas datadas de 1866 e levariam exatamente um século para ser encenadas. A primeira montagem foi realizada por um grupo estudantil de Porto Alegre, em 1966. Desde então, os textos de Qorpo-Santo voltaram poucas vezes ao palco. É um autor difícil, que exige ousadia da direção. Os personagens não apresentam uma identidade coerente, e suas ações são as mais desvairadas: ateiam fogo no cenário, soltam ratos no palco, bolinam e espancam uns aos outros. Muitas peças têm uma pesada carga sexual. As Relações Naturais inclui cenas em um bordel e insinuações de incesto. A Separação de Dois Esposos encerra-se com um diálogo hilariante entre Tatu e Tamanduá, o primeiro casal gay da dramaturgia brasileira. O curioso é que o dramaturgo era um conservador empedernido. Só quando escrevia, o monarquista José Joaquim de Campos Leão dava lugar ao anárquico Qorpo-Santo.

Adotou o nome Qorpo-Santo por razões místicas que não explica muito bem – em seus escritos, compara-se a Jesus Cristo e afirma encontrar-se, pelo fenômeno da "transmigração das almas", com o espírito de Napoleão III. A grafia de "Qorpo" obedece à ortografia criada pelo autor, que assim desejava simplificar a escrita em português.

Obras

* Certa identidade em busca de outra
* Eu sou vida eu não sou morte
* Um credor da Fazenda Nacional
* As relações naturais
* Hoje sou um; e amanhã sou outro
* Um assovio
* Um parto
* Hóspede atrevido ou O brilhante escondido
* A impossibilidade da santificação ou A santificação transformada
* Dois irmãos
* A separação de dois esposos
* La
* Lanterna de fogo
* Marinheiro escritor
* Marido extremoso
* Mateus e Mateusa
* Elias e sua loucura bíblica

Sobre a Obra

Foram necessários quase cem anos, a partir da publicação original dos textos de autor gaúcho do século XIX, José Joaquim de Campos Leão, nome ao qual o próprio autor acrescentou a alcunha de Qorpo-Santo (QS), para que sua obra conquistasse reconhecimento devido aos esforço de muitos intelectuais que assim o quiseram e para tal trabalharam, na década de 1960.

Alguns críticos datando desta republicação, destacando-se o editor de seu teatro completo, Guilhermino César, buscaram situá-lo como precursor de modernas tendências da arte teatral, a princípio o teatro do absurdo -na época, pretendendo atribuir-lhe a paternidade desta moderna corrente teatral- e mais tarde querendo situa-lo como antecessor movimento surrealista.

Flávio Aguiar descreve a época do relançamento das obras, muito bem recebido, com análise profunda, ao seu Os homens precários -ainda na década de 1970, bem como a tendencia dos intelectuais de glorifica-lo como um criador do tão famoso e moderno teatro do absurdo. Enquanto Eudinyr Fraga, em trabalho datado aos anos 80, defende que QS seja enquadrado como autor surrealista, por fazer uso constante em seu texto do chamado "automatismo psíquico", que caracterizaria aquela corrente estética: "Suas personagens são sempre projeção dele próprio, e com ele muitas vezes se confundem, como observamos pelo conhecimento de sua biografia. Inclusive, deixam a categoria de personagens e assumem um tom discursivo, lamentando as infelicidades e as injustiças sofridas pelo criador. Por outro lado, não tem preocupações estéticas. Suas lamúrias estão sempre a um nível existencial, ou melhor, individual. Sua obra visa satisfazer uma necessidade interior que a expressão determina”.

Hoje, QS é visto como um indivíduo criativo e fora de seu tempo, não se propõe mais sua suposta intenção como inovador da estética, mas como um artista envolvido e dedicado intimamente à sua obra, tanto que, por vezes, sua mente invade os personagens liberando seu discurso como uma colagem desconexa da lógica da personagem.

Aguiar analisa em detalhe o teatro de QS, e seus argumentos fogem à discussão sobre ser QS o precursor não reconhecido de modernas tendências do teatro moderno. Para Aguiar, QS constrói um teatro da paralisia, em que o pano de fundo da moralidade vigente é antagonizado pelo desenrolar dos acontecimentos, em atropelo da possível lógica de seus enredos, nas peças de QS o ritmo do tempo se mostra caótico demais para que dele possa nascer, ‘espontaneamente’, qualquer conclusão lógica.

Cabe ressaltar que, à exceção destes dois autores citados acima, é perceptível a ausência de uma reflexão sobre a questão da loucura, a qual foi julgado em vida pelo juridico de Porto Alegre, sobre os limites da normalidade psíquica, no universo textual deste autor. E, no entanto, a falta de razão se faz presente no cerne de seus escritos, nas nervuras de seu texto.

Fontes:
http://pt.wikipedia.org 
http://veja.abril.com.br 
www2.correioweb.com.br 

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18.12.2009

A cidade era outra. Pequena, habitantes escassos. Uma igrejinha só. Duas praças, a lagoa sinuosa e o casarão dos políticos. Não havia cadeia, que o povo era manso. Briga de desonra se resolvia entre famílias; com o boato fervilhando, tudo se ajeitava de pronto. Os crimes de faca nunca aconteciam antes da Serra Branca, fronteira a mais de légua.

Ele chegou; apeou-se. Janelas abriram-se, curiosas, a ver quem surgia de onde e para quê neste fim de mundo. As informações saíam lentas, cheias de reticências, com gosto de pergunta:

- Olhe... hotel aqui... O senhor só acha a pensão da Malvina. Naquela esquina, sabe? Pode ir que tem vaga. Quase ninguém aparece visitando este canto... Sabe?

Ele saiu no rumo indicado. Admiravam-lhe o cavalo de pêlo marrom. Algumas mocinhas vieram à calçada, desfazendo tranças.

De manhã, D. Malvina a custo conseguiu atravessar a rua. A cidade inteira parecia rodeá-la, com vozes atabalhoadas de anseio. Quase gritou:

- Mas já disse que não sei de nada! O homem veio, trancou-se no quarto, jantou por lá mesmo. E acorda agorinha, se vocês não me param com esta zoeira!

Um mulato arriscou, por detrás de umas senhoras:

- E a mala? Um malão daquele tamanho! Ele disse o que tem dentro?

D. Malvina ia aborrecer-se; hesitou. A multidão eriçava com a pergunta. Mais um pouco e os ânimos subiriam à rebeldia.

- Disse que era coisa para vender. – E completou rapidamente: - Não faço idéia do que seja.

Alguns se dispersaram, satisfeitos com a dúvida. A maioria ainda quis acompanhar por uns metros a dona da pensão. O prefeito apareceu, voz grossa sob o farto bigode. Ordem geral: todos para seus afazeres e ele próprio para casa, indagar da esposa se ela adivinhava os detalhes do que já se fazia mistério.

O desconhecido continuou a provocar assunto, suscitar apostas. A hora do almoço no bar do Rufino era o momento mais esperado, tanto pelos homens, que lá iam tentar o fio da prosa com o forasteiro, como pelas jovens casadoiras, que arrastavam olhares e vestidos do lado de fora.

Ao fim de três dias, a notícia, dada pelo dito-cujo, ele mesmo, frente a várias testemunhas:

- Sou vendedor. Fabrico judas. É trabalho de ano inteiro. Antes de chegar a Páscoa, saio vendendo o estoque por esse interior. Cada boneco, uma cidade.

Decepção. Aquilo já era conhecido: a festa da queima do apóstolo traidor. Há décadas o velho Aníbal costurava uns espantalhos forrados de palha e os doava, simplesmente, para serem amarrados nas árvores. Agora teriam de comprar judas? Melhor não haver festa; Judas nunca valeu tostão furado.

O desconhecido parecia esperar aquela reação. Pediu que o acompanhassem ao hotel (assim ele chamava a pensão) para mostrar o produto de seus dons artísticos; obra-prima sempre destruída, no final das contas.

Maravilharam-se. O boneco era perfeito, de feições nítidas, esculpidas na madeira clara. Olhos e sobrancelhas eram pintados; o cabelo vinha em peruca, sem falha ou emenda. O judas se vestia com um paletozinho cáqui muito jeitoso, flor de plástico na lapela. Até sapatos tinha.

Daquele jeito, haveria de custar fortuna. O forasteiro explicou que fazia os bonecos em série – e mostrou outros dois, igualmente trabalhados –, o que barateava a compra de matéria-prima. Além disso, utilizava madeira oca e freqüentemente apodrecida, com revestimento de pano. Tudo na aparência belo, mas, em verdade, feito para acabar numa só noite.

E mais um tanto de palavreado. O quarto sufocante; uma dúzia de homens. Quando o preço foi mencionado, não causou grande espanto. Pediriam fundos à prefeitura; afinal, era uma festa popular, para todo mundo. Devia ser bem comemorada.

O Sábado de Aleluia amanheceu em alvoroço. Grupos de mulheres congestionavam a praça, examinando o judas dependurado no cajueiro. Os homens repetiam as explicações do vendedor, gesticulando muito. Apareceu o velho Aníbal, cara fechada, acompanhando o prefeito. Deu umas apalpadelas no ventre do boneco. Comentou, na estranheza:

- Não está certo.

O prefeito assentiu, nariz torcido sobre o bigode.

- Também acho. Desperdício comprar um troço desses, tão bem-feito, justo para a fogueira.

Aníbal nem escutou. Cheirava a roupa do judas, batia-lhe com os nós dos dedos no corpo de madeira clara. Sacudiu o boneco; o galho ameaçou se quebrar. Alguns protestaram:

- Ó velho, cuidado! Desse jeito estraga o serviço.

Não adiantou tentar explicações. Em pouco tempo, todos levantaram a voz ao antigo vendedor, que este ano guardara os judas, rejeitados, de palha. Praticamente o expulsaram da praça:

- Vá, seu despeitado!

Aníbal desertou, olhos baixos. Ruminava para si, para seus pés cobertos de poeira:

- Não está certo... Não.

E, após o Ite missa est, quando todos corriam de tochas acesas, o velho foi o único a ver, perto da Serra Branca, a minúscula figura do homem montado num cavalo marrom. Ia embora, à procura de outra cidade, que esta – ouvia-se pelo estrondo – explodia em nuvens de pólvora, guardadas no ventre de um boneco traidor.

Fonte:
MACIEL, Nilto. In Literatura sem fronteiras.


Tércia Montenegro (1976)

TÉRCIA MONTENEGRO nasceu em Fortaleza, Ceará, em 1976. Tem graduação em Letras, mestrado em Literatura Brasileira e doutorado em Lingüística pela Universidade Federal do Ceará.

Publicou os livros de contos O Vendedor de Judas (Fortaleza: Edições UFC, 1998; 2 ed, Fortaleza: Demócrito Rocha, 2003), que recebeu o prêmio Funarte, e Linha Férrea (São Paulo: Lemos Editorial, 2001), que recebeu a Bolsa para Escritores Brasileiros da Biblioteca Nacional e venceu o Prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira, promovido pela Revista Cult, em 2000.

Escreveu ainda o ensaio biográfico Oliveira Paiva (Fortaleza: Demócrito Rocha, 2003) e participou das antologias 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira (Rio de Janeiro: Record, 2004), Contos Cruéis (São Paulo: Geração Editorial, 2006) e Quartas Histórias – contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa (São Paulo: Garamond, 2006).

Seu livro de contos O resto de teu corpo no aquário (Fortaleza: Secult, 2005), recebeu o Prêmio Secretaria da Cultura do Estado do Ceará em 2004.

Em 2005, recebeu os prêmios Osmundo Pontes e Fran Martins, pela Academia Cearense de Letras. Tem dois livros infantis, Um pequeno gesto (Fortaleza: Demócrito Rocha/ APDMCE, 2006) e O gosto dos nomes (Fortaleza: Seduc, 2006).

Fonte:
http://contosbrasileiros.blogspot.com/

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17.12.2009

– Sentada estou. É aqui que me vêem todas as tardes e me imaginam a esperar a noite. O que mais esperaria além da passagem da claridade? A hora em que me trancarei no meu quarto à espreita de um visitante que rondará a casa e que nem sei se é real ou se urdido pela minha fatigada solidão? Meu marido é incerto no vir, e todos o sabem. Pressentem que anoiteço e, se passam à minha porta, me perguntam: “Esperando a noitinha, dona Eufrásia?”. Mas o que me trará a noite além de um vento frio e de um silêncio fundo? O cheiro de carne apodrecida do gado morto neste ano de seca, um bater de portas que se fecham, o balido de ovelhas se aconchegando, o fungar das vacas prenhes, o estalar das brasas que se apagam no fogão.

Meu filho dorme ao lado, numa rede alva e cheirosa. Ouço o seu respirar leve e tenho a certeza de que está vivo. Habitamos este universo de ausências: ele dormindo, eu acordada. Atrás de nós, uma casa nos ata ao mundo. É imensa, caiada de branco, com portas e janelas ocupando o cansaço de um dia em abri-las e fechá-las. Fechada, a casa lacra a alegria dos seus antigos donos, seus retratos nas paredes, selas gastas, metais azinhavrados, telhado alto que a pucumã vestiu. Ela julga e condena os nossos atos, pela antiga moral de seus senhores, de quem meu marido é herdeiro. Assim, se penso no casual nome de outro, o estrangeiro que me olhou com mansidão, ela me escuta pensar e depois, nos meus sonhos, grita-me com todas as suas vozes. Sou escrava destas paredes, prisioneira de pessoas mortas há anos que, agora, se nutrem de mim. Abarcada pelo calçadão alto, onde me sento e olho a eterna paisagem: o curral, as lajes do riacho, a curta estrada, a capoeira, os roçados, as casas dos moradores. Envolvendo tudo, um silêncio e um céu azul sem nuvens, que o vento nem toca. E longe, onde não enxergo, a terra de onde vim.

Já é quase noite. Meu marido e seus vaqueiros tangeram o gado até o curral e voltaram a campear reses desgarradas. Trouxeram as ovelhas, com seus chocalhinhos tinindo e uma nuvem mansa de lã e poeira. Os animais estão magros e famintos. Também os homens. O sol queima e requeima as doze horas do dia e, à noite, um vento morno e cortante bebe a última gota d’água do nosso corpo. Já somos garranchos secos, quebradiços, inflamáveis. Basta que nos olhem para ardermos numa chama brilhante e fugaz, que logo é cinza.

Minhas veias guardam um resto de vida, alimento do meu marido. Ele deita sobre mim, funga, rosna, machuca-me sem me olhar no rosto. Depois cai para o lado. Contemplo o telhado e toco, com as pontas dos dedos, o sêmen morno que molha o lençol.

Não sei como escapar. São tantos os anos e há este filho doce, que repousa na rede. De tardezinha, nos debruçamos na janela e vemos o gado que chega. As vacas mugem, os touros andam lentos. O sol se avermelha, morrendo. É tudo tão triste que choramos, eu e ele. Ensino-lhe o pranto e a saudade. O pai ensina-lhe a dureza e a coragem. Quero este filho só para mim. Fazê-lo ao meu modo é a maior vingança contra meu marido, que me trouxe para cá, terras de Sulidão, onde o galo só canta uma vez a cada madrugada.

É verdade que vim com as minhas pernas, que não fui forçada. Deixei o verde Paraí da minha mãe, onde meu pai descansa morto. Se fecho os olhos agora, vejo os canaviais ondulando e sinto o cheiro da rapadura. Nem sei como os meus pés despregaram de lá. Não consigo recompor o passo, na ligeireza que foi tudo. Um tio me levou para ser professora no Cameçá, a dez léguas de onde nasci. Ficaria por uns tempos na casa dos Meneses, que antes habitavam o Sulidão. Chegados há pouco na nova propriedade, o contato de pessoas civilizadas tinha-lhes imposto a necessidade de conhecer as letras. Meus alunos seriam os filhos: cinco mulheres e nove homens. Os velhos não se dariam a tais vexames.

Uma revoada de aves de arribação me acorda das lembranças. A África acolherá esses pássaros que abandonam o sertão. Se ficam aqui, morrem de fome e de sede. Voam num comprido manto, estendido no céu. Nós ficaremos, chupando a última gota d’água das pedras, lendo no sol, todos os dias, nossa sentença.

Um vaqueiro passa. Um galho de aroeira rasgou-lhe o couro do gibão e do braço. Vão à procura de mastruço para acalmar a ferida. A fome enerva o gado e os homens não conseguiram juntar os garrotes e os touros. Ouço-o dizer que o meu marido está nervoso e ameaçou de morte um chamado João Menandro, o de outras paragens. Desentendera-se. Meu marido, afeito ao mando, quer passar por cima de quem lhe esbarra na frente. Ou terá pressentido o que nenhum gesto meu jamais revelou? Tremo e mostro ao homem um canto do quintal onde poderá achar a sua meizinha. Ele me agradece, parece querer dizer outra coisa, porém cala e me olha com pena. Todos me olham assim. Se passam na minha porta, tiram o chapéu, desejam-me boa-hora e seguem em frente. Apesar dos anos passados, vêem-me como estrangeira. É difícil o caminho que leva aos seus corações. Gostarão de mim, tão silenciosa e distante? Suspeitarão dos meus ocultos sentimentos? Procuro a resposta no vaqueiro e, quando vai embora, se despede num brusco balançar de cabeça.

No começo tentei amar esta terra e sua gente. Trazia a minha fresca alegria, banhada de novo nas fontes do Paraí. Mas aqui o sol queima forte e somos bebidos até a última gota. Seca, deixei de bater às portas e me recolhi ao labirinto da casa, onde continuo esperando. Os homens são o sol abrasante, vistos de dia, ocultos de noite. Na casa dos Meneses, fiquei o tempo de me apaixonar por Davi, meu futuro marido, e de ensinar aos alunos as primeiras letras. Fui tratada a açúcar, enquanto os outros comiam rapadura. Tempo de corredores escuros. Conheci a força dos abraços do meu marido, o ímpeto do seu desejo, e cedi. E aqueci minha alma de mulher e nem perguntei pelo amor. Só ardia. Deixei-lhe a mão solta, o membro sem freios. Cavalgada, retornei à casa da minha mãe e esperei o dia do casamento. Dançamos os três dias de festa, viemos para este seco Sulidão. Esta casa fora abandonada por seus antigos donos, mas aguardava o peso cruel das suas presenças. Coube-nos perpetuar neste sertão uma herança de estirpe, sólida como as pedras do calçadão alto.

Meu filho, mexendo-se na rede, traz-me de volta à casa. Está tudo escuro e terei de acender os candeeiros. Numa noite como esta, passou correndo um lobo-guará. Meu marido deu tiros, mas não o acertou. Falou-se sobre o lobo por muitos dias. São os acontecimentos desta terra. Vivo de silêncio e de lembranças. Às vezes, quando não quero sonhar, penso em nomes de pássaros, retardando a hora em que terei de me trancar a ferrolhos. Procuro esquecer um tropel que ronda a minha janela, todas as noites em que me deito só. É a hora de decidir? Ouço um respirar que não é o meu. A noite é um lençol que cobre a fadiga dos homens. Dominada pelo cansaço, adio mais uma vez a minha escolha. A realidade de uma lâmina de faca, guardada sob o travesseiro, lembra-me o instante em que poderei cortar o sono e cavar a vida.

Um vaqueiro vem me avisar que meu marido não retornará esta noite. Celebram uma festa perto daqui. Vieram músicos e mulheres de longe. Na madrugada, ainda se ouvirão os gritos de prazer e as notas perdidas de uma música que não conseguirei identificar. O homem me oferece a companhia de uma filha sua e eu agradeço. Diz-me que a briga entre meu marido e o que veio de longe deixou no ar uma sentença de morte. A noite poderá trazer surpresas e eu devo me recolher cedo. Estou só. Não há pai, nem há mãe, nem sorriso de irmãos. Só a casa espreita, querendo me tragar.

João Menandro é um nome que se confunde com o meu sonho. Haverá mesmo, lá fora na noite, alguém que me aguarda, ou o meu desejo inventou esse ser? A noite interminável me cansa e penso em apressar o desfecho de tudo. Não há tempo para contemplar passiva o mundo morrendo em volta. A mão se endurece ao toque da lâmina que o travesseiro esconde. Meu marido retornará sonolento. O outro virá até minha janela. Eu me olharei num espelho. Chegará sim, a madrugada. Aquela que poderá ser a última, ou a primeira.

(Extraído de Faca)

Fontes: - MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: d’a Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza: Imprence, 2008.
- Imagem = http://rossi.blog.uol.com.br 

Ronaldo Correia de Brito (1950)

Ronaldo Correia de Brito (Saboeiro, Ceará, 1950) aos cinco anos mudou-se para o Crato e aos dezoito para Recife, onde estudou medicina. Teatrólogo e ficcionista.

Escreveu teatro para crianças: O Baile do Menino Deus, Bandeira de São João, O Pavão Misterioso e Arlequim; teatro para adultos: O Reino Desejado, Retratos de Mãe, Malassombro, Auto das Portas do Céu e Os Desencantos do Diabo.

Também roteiros de documentários e filmes para televisão e cinema: Lua Cambará (longa metragem para a TV Cultura), Caboclinhos (documentário para a TV Universitária), Brincadeira de Mateus (documentário para a TV Universitária), Cavaleiro Reisado e Brincadeira de Reisado (documentários para cinema), Maracatus (documentário para a TV BBC); além dos livros de contos: Três Histórias na Noite (Prêmio Governo do Estado de Pernambuco de 1989), As Noites e os Dias (Recife: Ed. Bagaço, 1996), Faca (São Paulo: Ed. Cosac & Naif, 2003) e O Livro dos Homens (São Paulo: Ed. Cosac & Naif, 2005).

Fonte:
http://contosbrasileiros.blogspot.com/

postado por Magister, às 07:00

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16.12.2009

LEMBRANÇA QUASE CHINESA

Nos dias felizes, quando eu caminhava com Chofu-sa, as arrobas levadas ao mercado pareciam leves.
Eu pensava:”Com meu amor crio asas”.
Então, Chofu-sa foi embora e descobri que eram pedras as plumas da minha imaginação…

SABEDORIA QUASE CHINESA

se alguém não te alimenta
inventa
uma manhã de sol
fruta fresca
chá de hortelã
pra despertar a alma
com calma
porque o dia apenas começa
e o amor não combina com pressa

SEGUNDO VOO

este silêncio que atravessa o dia
parece uma borboleta muda
as dúvidas são delicadas...

Fonte:
http://sensiveldesafio.zip.ne
t

postado por Magister, às 17:22

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03.12.2009


A União Brasileira de Escritores (UBE-RJ) dá prosseguimento ao seu projeto iniciado há mais de cinquenta anos e promove novo CONCURSO literário de caráter internacional.

UNIÃO BRASILEIRA DE ESCRITORES (UBE/RJ)
Integrante da Federação Latinoamericana de Sociedades de Escritores
20021-350 Rua Teixeira de Freitas, 5 s/303 – Centro. Rio de Janeiro, RJ – Brasil.
Fundada em 27 de agosto de 1958.

CONCURSO INTERNACIONAL DE LITERATURA PARA 2010.

R E G U L A M E N T O

I - DOS PRÊMIOS

Art. 1.° - Ainda com a ressonância do JUBILEU DE OURO recém-comemorado (1958/2008), a União Brasileira de Escritores (UBE-RJ) concederá, no próximo ano (2010), os seguintes prêmios literários para livros editados em 2009:

– Contos - PRÊMIO CLARICE LISPECTOR;
– Crônicas - PRÊMIO PAULO MENDES CAMPOS;
– Ensaio - PRÊMIO AMELIA SPARANO;
– Literatura Infantil e Juvenil - PRÊMIO VIRIATO CORRÊA;
– Poesia – PRÊMIO ADALGISA NERY;
– Romance - PRÊMIO LÚCIO CARDOSO;
– Teatro - PRÊMIO MARTINS PENA.

Parágrafo único - Para livro de contos, será concedida também a MEDALHA HARRY LAUS, apenas para o primeiro colocado.

Art. 2° - A critério das Comissões Julgadoras poderão ser concedidas às obras concorrentes a qualquer dos prêmios uma menção especial e uma menção honrosa, exceto a Medalha Harry Laus que terá somente um ganhador.

II - DA APRESENTAÇÃO DAS OBRAS CONCORRENTES

Art. 3° - Poderão concorrer autores de quaisquer nacionalidades, desde que se expressem em língua portuguesa e tenham sido editados no ano de 2009. Enviar três exemplares da obra concorrente.

§ 1° - O autor deverá anexar envelope contendo: título da obra, nome e endereço completo do autor, telefone, e-mail (se houver) e sucinto curriculum vitae.

§ 2° - Não haverá devolução de livros concorrentes.

III - DAS INSCRIÇÕES E DOS PRAZOS

Art. 4° - Não há limitação quanto ao número de livros por autor, observadas as disposições do Art. 3.° e seus parágrafos.

Art. 5° - Os trabalhos deverão ser enviados entre os dias 4 de janeiro a 15 de maio de 2010, considerando-se, no caso de remessa pelo correio, a respectiva data da postagem.

Art. 6° - Os livros concorrentes a prêmios devem ser remetidos, em separado por categoria, para o seguinte endereço: Rua Teixeira de Freitas, 5, Sala 303 - Lapa, CEP 20021-350 - Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Solicita-se colocar no envelope ou embalagem o nome do prêmio a que se destina(m) a(s) obra(s).

Art. 7° - É vedada a participação de membros da Diretoria da UBE-RJ.

IV - DAS COMISSÕES JULGADORAS E ACEITAÇÃO DOS CONCORRENTES

Art. 8° - As comissões julgadoras serão constituídas, cada uma, por três escritores indicados pela Diretoria da União Brasileira de Escritores (UBE-RJ), sendo irrecorríveis as decisões desses Colegiados.

Art. 9° - A participação no concurso implica a aceitação, por parte do concorrente, de todas as exigências regulamentares, resultando em desclassificação o não-cumprimento de quaisquer destas.

Art. 10° - O resultado do concurso será tornado público até 90 (noventa) dias após o encerramento das inscrições, devendo a entrega dos prêmios ser em data e local previamente anunciados.

Art. 11 - Qualquer informação ou correspondência, enviar para a Secretária da UBE-RJ Margarida Finkel - Rua Malvino Ferreira de Andrade, 69, Aleixo - CEP 25900-000 – Magé, RJ, Brasil. E-mail:
margafinkel@hotmail.com

Art. 12 - Os casos omissos no presente Regulamento serão resolvidos pela Diretoria da UBE-RJ.

Rio de Janeiro, RJ, 30 de outubro de 2009.
EDIR MEIRELLES
Presidente da UBE-RJ


Fonte:
Colaboração de Neida Rocha

postado por Magister, às 08:29

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01.12.2009



Rodrigo Garcia Lopes nasceu em Londrina (Paraná, Brasil), a 2 de outubro de 1965. Formado em Jornalismo, em 1984-85 viajou pela Europa e, na volta, publicou a página literária "Leitura" e as revistas "Hã".

Trabalhou em jornais e veículos literários em São Paulo ("Ilustrada") e Curitiba ("Nicolau").

De 1990 a 1992 viveu nos Estados Unidos, onde realizou mestrado em Humanidades Interdisciplinares na Arizona State University com tese sobre os romances de William S. Burroughs. Neste período, também reuniu material para seu livro de 19 entrevistas com escritores e artistas (como John Ashbery, William Burroughs, Marjorie Perloff, Allen Ginsberg, Nam June Paik, Charles Bernstein and John Cage).

Doutor em Letras pela Universidade Federal de Santa Catarina, com tese sobre a poeta e filósofa modernista norte-americana Laura Riding.

O livro, "Vozes & Visões: Panorama da Arte e Cultura Norte-Americanas Hoje" foi publicado pela Iluminuras em 1996. Em seu retorno, lançou "Solarium", que reúne sua produção poética desde 1984.

Em 1996 publicou a tradução das "Illuminations" de Rimbaud (também pela editora Iluminuras). No ano passado lançou seu segundo livro de poemas, "visibilia" (Rio de Janeiro: Sette Letras).

Ao longo destes anos traduziu, entre outros, a poesia de Ezra Pound, Sylvia Plath, William Carlos Williams, Robert Creeley, Gertrude Stein, Laura Riding, Gary Snyder, Charles Bukowski, John Ashbery, Jim Morrison, e Samuel Beckett.

Em 1998 foi curador da exposição "Olhares", do fotógrafo nipo-brasileiro Haruo Ohara, que participou da Bienal Internacional de Fotografia, em Curitiba. Realiza performances de poesia & música pelo Brasil.

Seu livro Solarium foi incluído na lista das mais importantes publicações de poesia brasileira dos anos 90, e em 2004 ele foi escolhido pelo governo francês para o Programa de Ajuda Especial em Favor da Literatura Brasileira.

Vive na ilha de Florianópolis.

Bibliografia
– Nômada.
– Polivox. Poemas 1997-2000
– Poemas Selecionados (1984-2001)
– visibilia.
– Solarium.

Fontes:
Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais
Jornal de Poesia.

postado por Magister, às 08:28

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01.12.2009



SOMOS PESSOAS ESTRANHAS

somos
pessoas
estranhas
nem sabemos
que sonhos
que somos

esses
olhos
poucos

essas
folhas
secas?

esqueçam
fiquem
calados

somos
estranhos
no entanto

esta noite
dormiremos
lado a lado
================

PEÔNIAS NEGRAS SERENAS

peônias negras
serenas
quase secas
pombos se aquecem
num resto
de sol

uma planta
luta para
romper a fenda

formigas dragam
uma abelha
ainda viva

o inverno
furta a flor
a cor da fruta

(gestos & acenos
de sombras
não consolam)

a tarde passa
arrasta e deixa
um rastro prata
====================

SEU CORPO É UMA PRAIA DESERTA

Seu corpo é uma praia deserta
onde uma música desperta
numa onda esperta e a deserda:
espumas a ferem como pétalas.

Desterra, em tradução infinita,
pérolas na orla do olhar, ilha
que ainda está por ser escrita.
==========================

A TEMPESTADE

Canibal, palavra latina,
à maneira de canis, animal
de fidelidade canina.
Nas Bermudas, sublime ironia,
será um vento do cão
e vai se chamar hurracán

E quando o mar de lã
de repente apontar terra à vista
Então será Caliban
======================

LÁ VEM VOCÊ

Lá vem você
Se passando por vento
Como se ninguém te visse
Lá vem você dublando pensamento
Como praia que sentisse
Pra perto do riso, do risco, do início
Das ondas das dunas do espanto,

Lá onde o calar fala mais alto
E onde o momento comemora
Com um minuto de silêncio.
=======================

TALVEZ SEJA ISSO

De repente você nota, em certa noite de chuva,
que ninguém se importa mais.
Noite em vigília. A ipoméia se abriu
Enquanto você dormia.
A imagem iluminada desgastou
depois que a duração virou mercadoria. O "eu lírico"
não subsiste num mundo de fluxos e superfícies vazias
que o olho mal consegue acompanhar
enquanto a verdadeira face da vida começa a dar as caras.
Evaporaram-se os dados precisos e algo mágicos que a poesia exibia.
Perdemos toda inocência, talvez nossa última chance,
e agora tudo o que você disser
pode ser
Usado contra você. Transformamos o real não num mito fugidio, performance discreta ou fluxo de uma gravura, mas numa incoerência
algo eufórica, cheia de comentários sobre outras
pessoas e paisagens, pois aquilo
que se chamava vida
eram fábulas do momento presente,
o recriar incessante no castelo de areia, onde ondas eram adivinhas, brincando de desaparecer. Não investigações vazias
sobre a temporalidade ou algo assim, muito menos
a idéia da palavra em si mas que pára ali,
cara a cara com sua onipotência, e
de como a sensação agora
é de uma velocidade que de repente não muda muito as coisas.
Pelo menos em essência. Isto não existe. Mas o que é essência,
e por que perdemos
nossos instantes preciosos
e o sonho de qualquer elegância
escrevendo ao vento ou então dispersos
nesses gestos inúteis e sublimes
tentando entender
alguém no outro lado da linha.

-----
Fonte:
Jornal de Poesia

postado por Magister, às 08:26

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30.11.2009


Desde sempre o homem vem sido seduzido pelas narrativas, sejam elas de ordem simbólica ou realista, que diretamente ou indiretamente falam da vida, relacionando-as com deuses ou com os próprios homens . Uma possível explicação para esse fascínio estaria no fato de que provavelmente, desde a origem dos tempos o homem vem sentindo a presença de poderes maiores que a sua vontade, e de mistérios que sua mente não consegue explicar ou compreender . Na tentativa de amenizar essa ânsia permanente de saber e de domínio sobre a vida, surgem as narrativas populares, formando uma heterogênea matéria narrativa . Todas essas formas de narrar nasceram entre os povos antigos, foram transformadas, acrescentadas confundidas e assim espalharam-se por toda parte e estão vivas até hoje, seja nos livros, na memória nas rodas de história etc...

Duas dessas narrativas destacam-se, pois conseguiram grandes divulgações e atravessaram séculos, são os Contos de Fadas e os Contos Maravilhosos . É importante diferença-las, pois ambas nasceram de fontes diferentes e tem enfoques distintos .

O Conto de fadas expressa uma atitude humana que refere-se a luta do eu , ou seja, a nível do existencial, onde tudo gira em torno do casamento homem x mulher .

Por sua vez os Contos maravilhosos tratam das realizações no plano material, profissional, de realizações externas, ao nível social .

Vale lembrar que uma não anula a outra, as duas se completam em uma realização integral .

Também chamados de Contos da Carochinha, os Contos de fadas surgiram no Brasil e em Portugal no final do século XIX , e nem sempre tem a real presença de fadas como diz o nome. São desenvolvidos dentro da magia feérica (reis , rainhas, príncipes, bruxas, gigantes anões, animais, objetos mágicos, tempo e espaço fora da realidade conhecida etc.) . Tem como eixo gerador uma problemática existencial, a realização do herói ou da heroína alcançando seus objetivos, essa realização intimamente ligada à união homem mulher .

A estrutura básica de um conto de fadas é uma narrativa curta, dotada de tempo, espaço, clímax, enredo e o número reduzido de personagens.

Na literatura infantil a linguagem deve ser usada como instrumento de criação, revelação e direção. Dizemos linguagem para nos referir-se não só a forma com que ela se apresenta, mas também para a intenção total da obra, seus arranjos e seus objetivos .

No conto Dona Baratinha percebemos que o seu léxico é adequado à literatura infantil, não contendo rebuscamento de termos ou emprego de palavras grosseiras, possuindo clareza e simplicidade de estilo .

A linguagem do conto é repleta de onomatopéias e diálogos, o que desperta o interesse das crianças . Veja algumas falas abaixo :

"–Gato! Como é que fazes de noite ?"

"- Faço miau! miau !"

"-Cachorro ! Como é a tua fala a noite ?"

"-Uau ! Uau !"

Outro aspecto que não deve ser ignorado é que o conto Dona Baratinha não possui gírias, o que o torna ainda mais fácil de ser compreendido e lhe garante ser atual . Como a maioria dos contos sempre se volta para palavras mágicas ou mesmo frases que se repetem ao longo do texto, Dona baratinha não poderia ser diferente, durante toda a história notamos a forte presença da pergunta que a protagonista faz a todo candidato a noivo :

"-Queres casar comigo ?" (o que funcionaria como um "abre-te sésamo", ou "Rapunzel jogue as tranças") .

Outro tipo de linguagem contida na fábula é a das ilustrações, uma linguagem não verbal, mas tão expressivo quanto .

No início da história percebe-se um cenário todo colorido, arborizado e com casinhas, mostrando um local calmo, tranqüilo e pacato, nota-se também que essas ilustrações não são tecnicamente perfeitas, pois são desproporcionais ao tamanho da protagonista, além disso os traços das figuras se assemelham aos desenhos feitos por crianças . Essas características servem como recursos para atrair o pequeno leitor, entrando assim no seu vasto mundo imaginário . Ao longo da fábula nota-se que as cores que antes eram claras, passam a ficar mais fortes e mais escuras, preparando o leitor para algum acontecimento importante, esse acontecimento chama-se clímax, na verdade essas cores que se tornam fortes funcionam como um " Parananam!!!!!!!! " dos filmes e novelas .

Pode-se dividir um conto de fadas em partes :

Enredo: É o conjunto de fatos que se subdivide em :

Introdução : Coincide geralmente com o começo da história onde são apresentados os fatos iniciais e os personagens. Enfim é à parte em que se situa o leitor diante do que irá ler .

Complicação: É a parte do enredo na qual se desenvolve o conflito .

Clímax – Como já foi citado assim é o momento culminante da história . Ele é o ponto de referência para as outras partes do enredo, que existem em função dele.

Desfecho- É a solução dos conflitos, boa ou má, com final feliz ou não .

Tempo- Constitui o pano de fundo para o enredo . A época da história nem sempre coincide com o tempo real em que foi publicada ou escrita . Os contos de um modo geral apresentam uma duração curta em relação aos romances. Algumas narrativas dão dicas da época que estão retratando através de frases do tipo: "Era no tempo dos reis" ou "No tempo em que os bichos falavam".

Espaço- É o lugar onde se passa a ação de uma narrativa .O termo espaço só dá conta do lugar físico onde ocorrem os fatos da história .

Ambiente- É o espaço carregado de características socio econômicas, morais, psicológicas, em que vivem os personagens .

Narrador- É o elemento estruturador da história, pode estar em terceira pessoa, que se divide em onisciente e onipresente . O primeiro sabe tudo da história e o segundo está presente em todos os lugares da narrativa. Outro tipo de narrador é o primeira pessoa, a qual participa diretamente do enredo como personagem .

Vamos analisar melhor essas estruturas situando-as no conto da Dona Baratinha:

Enredo

Exposição – O começo da história da Baratinha, onde ela está em sua casa e é apresentada como a protagonista do conto.

Complicação – Dom Ratão em seu apartamento começa a sentir o cheiro de Toucinho .

Clímax – É quando Dom Ratão cai na panela de Feijoada e se suja todo .

Desfecho – dona Baratinha não pode se casar e volta para a janela a espera de um novo noivo .

Personagens

Personagens: Principais
; Baratinha , João Ratão .

Secundários: Cão , Boi e Gato .

A história da Baratinha apresenta como personagens principais ; a Baratinha e João Ratão , e como figuras secundárias ; o Boi , o Cão e o Gato . As personagens do conto encarnam virtudes ou defeitos , que são exaltados no mais alto grau . Essas qualidades estão sempre em oposição e , esse conflito empresta ao conto um colorido vivo e intenso . As qualidades são físicas e espirituais . As físicas são a grande e a pequena estatura , a força e a fraqueza , o formato e a maneira de agir . As espirituais são a bondade e a maldade , a obediência e a desobediência , a modéstia e o orgulho, coragem e o medo , a curiosidade , a sedução , a sexualidade, a esperteza e a sensibilidade .

A personagem Baratinha representa a sexualidade , a fragilidade, a esperteza , e a sensibilidade da mulher :

A sexualidade feminina é representada pelo formato e cheiro da barata que apresentam características da mulher .

A fragilidade feminina é representada pelo fato da barata ser um animal muito pequenino , que vive se escondendo nos buracos com medo de ser capturada.

A esperteza feminina é representada pelos movimentos rápidos da barata , reza a lenda que ela ver os humanos em câmera lenta .

A Baratinha queria se casar , simbolizando com esse ato a busca feminina , porque aos olhos da sociedade de antigamente toda mulher precisava se casar , se não ficaria para titia (solteirona) , o que era o grande medo das mulheres .

O cheiro da barata é a sedução que as mulheres exercem sobre os homens , através dessa sedução , as mulheres se sentem poderosas , espertas e muito mais .

Quanto ao personagem João Ratão , representa a sexualidade masculina , que está visceralmente ligada à união , homem , mulher , deve-se ao fato de os ratos viverem procurando os buracos para se esconder , enfatizando dessa maneira a necessidade básica do homem , o sexo , a procura de sua parceira , representada na história pela barata.

O nome João Ratão representa o poder que o homem exerce sobre a mulher perante a sociedade , referindo-se ao fato de que , quando um homem se casava com uma mulher , esta era obrigada a utilizar o sobrenome do homem . (atualmente por lei não é mais obrigatório) .

O fato de João Ratão ter morrido desastradamente dentro de uma panela quente , refere-se a fragilidade , a curiosidade do homem que está oculta, ele se sente seduzido pelo cheiro da mulher , representada na história pelo cheiro da panela , ou seja através da sedução a mulher pode dominar o homem.

Os personagens secundários da história representam os homens desajeitados , que não conseguem conquistar as mulheres , em vista disso ficam sozinhos .

Tempo

Na fábula o tempo cronológico da história é fictício, pois não pode ser localizado no calendário Cristão .

Espaço

A narrativa se divide em três espaços: casa de Dona baratinha a floresta em que passam os candidatos a noivos e a janela da casa. O começo da história tudo gira em torno de sua casa, ao passarem os candidatos nota-se a divisão entre a janela e a floresta, e por fim a igreja em que todos esperam o noivo guloso.

Ambiente

A casa de Dona Baratinha é um ambiente que caracteriza um personagem de classe econômica baixa, pois é uma casinha bem simples, porém muito arrumada, mostrando o quão caprichada é a protagonista . O outro espaço que é mostrado é a floresta que se assemelha com uma comunidade onde só animais fazem parte . essa floresta é bem cuidada, colorida e toda enfeitada para o acontecimento mais esperado, o casamento.

Narrador

O narrador de a dona Baratinha está em terceira pessoa e é onisciente, pois ele não apenas narra o que se passa com os personagens, mas também o que sentem, em outras palavras ele sabe mais que os personagens.

Todo conto traz a sua mensagem, uma espécie de lição para a vida toda. O que pode ser aproveitado como exemplo no conto da Baratinha é a importância do dinheiro na sociedade em que vivemos . Em algumas versões da história a protagonista precisa pagar pelos serviços do Jabuti com todas as suas economias e mais um cacho de bananas. Essa passagem do texto nos permite fazer uma crítica com a realidade em que vivemos, onde tudo é pago e ainda assim sempre fica faltando alguma coisa .

Outra importante lição tirada da narrativa é que não existe esse alguém tão perfeito conforme imaginamos, de modo que deve-se saber que todos possuem defeitos e que apenas com a convivência é possível conhecer as inúmeras qualidades das pessoas .

Ao encontrar nesses personagens mensagens construtivas, os jovens e as crianças paulatinamente adquirir conceitos positivos para suas vidas . Por isso a importância dos contos, a fim de se formar jovens mais críticos e mais éticos

Mini-conto

É uma narrativa muito curta que pode abordar qualquer tipo de tema. Sua estrutura básica é formada pelos seguintes componentes:
Personagens
Narrador
Espaço
Tempo
Símbolos

A análise desses componentes se dará a seguir:

A narrativa
Proustiano nos conta as peripécias de um adolescente que ao espiar uma biblioteca sente-se atraído por ela e despercebidamente a penetra .

Em uma hora morta do dia em que as mulheres estão atarefadas demais para notá-lo, e os homens descansando, o menino que era proibido pelo tio de visitar a biblioteca não resiste a curiosidade e começa a espiá-la e quando se dá conta já está lá dentro . Embora ali só houvesse livros para adultos o menino aleatoriamente escolhe um e começa a ler. A medida que ia lendo era tomado de uma sensação de bem estar avassaladora e inexplicável, foi quando lembrou que quando bem pequeno ele sentia esta mesma sensação, só que quando salvava mariposas de serem seduzidas pelo reflexo da água .

Temos aqui um narrador em terceira pessoa, que não participa da história mas que sabe exatamente o que se passa na cabeça de seu personagem.

Ao analisarmos o mini-conto percebemos que ele possui um reduzido número de personagens, que aparecem sob a forma de pessoas . Temos o protagonista que é intitulado pelo narrador como "menino", já mostrando o seu desprezo para com ele. Temos os personagens secundários que pode-se dizer que são as outras crianças que moravam na casa também o tio, que queria mantê-las longe de sua sedutora biblioteca .

Ao falar da narrativa ,se pode citar que ao início do mini-conto é apresentado o conflito , e que todos os acontecimentos presentes no texto irão girar em torno deste conflito . Este já o é senão a proibição da entrada na tentadora biblioteca, e o doce sabor de nela penetra e se deliciar com o sabor da leitura.

Pode- se fazer uma ponte entre o conto analisado e o livro de Roland Barthes O prazer do texto, pois os dois textos falam do prazer da descoberta pela leitura, cada um do seu jeito e dentro da sua expectativa.

Em relação ao espaço em que se passa a narrativa, nota-se que ele não se divide, tudo começa dentro da biblioteca e lá se desenvolvem todos os outros acontecimentos . Embora nosso protagonista se lembre de alguns fatos que aconteceram há alguns anos, isso não interfere no espaço em que se desenvolve a história .

É possível notar que o tempo em que se passa a narrativa não é muito atual, isso é percebido quando o narrador descreve a concepção do tio em relação ao menino, chamando-o de criança e o proibindo de entrar na biblioteca. Atualmente a idade que o menino estava,14 anos, ele já não seria mais considerado como uma criança, e sim como um adolescente que está na escola e que certamente estaria acostumado com os livros. Por isso a prática de se chamar de criança um menino de 14 anos não é atual . Assim como a maioria dos mini-contos, até mesmo por não disporem de muito espaço, o Proustiano não toca na passagem do tempo, o autor escolhe um período da vida do personagem para comentar e descrever, mesmo que sejam feitas menções a épocas passadas, elas servem apenas para ilustra a narrativa e não para de fato mostrar a passagem do tempo.

É proposto ainda a utilização de alguns símbolos na narrativa. Temos a biblioteca que remete a idéia de sabedoria e conhecimento, encontrados nos livros . temos também a tentativa adotada pelo menino, salvar mariposas, transparecendo assim na esfera simbólica toda a pureza, inocência e fantasticidade de uma criança . Pode se dizer mais, que através do cheiro que é emanado dos livros se faça uma ponte com o livro o Banquete de Platão, onde tem-se no texto a metáfora de liberdade, metaforizada no conto pelo cheiro que é percebido pelo menino.

Temos embutida, na narrativa a questão da verossimilhança, que é a lógica interna do enredo, tornando-o ou não verdadeiro para o leitor . Os fatos contidos em um mini-conto não precisam ser verdadeiros, no sentido de corresponderem exatamente a fatos ocorridos no universo exterior ao texto, mas devem ser verossímeis, isto quer dizer que mesmo sendo inventados, o leitor deve acreditar no que lê . Esta credibilidade advêm da organização lógica dos fatos dos fatos dentro do enredo .

A nível de análise de narrativas são esses os aspecto que devem ser ressaltados, a fim de se compreender e explorar um mini-conto dentro de suas possibilidades.

Fonte:
http://www.colaweb.com.br

postado por Magister, às 08:23

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29.11.2009


Antes era o verbo!
hoje a verba.
antes eram os desenhos
hoje as palavras.
palavra:
idéias e significados de dicionário.
A palavra
lavra
a folha do papel
e cria céus e infernos
animando o social.
Ah! Palavra falada e cantada
na gama dos conhecimentos.
A palavra-ônibus é a seqüência de idéias
na categoria das coisas;
pa
la
vra,
lavra
os saberes
na cartilha da vida:
A pata nada,
nada, na;
na silabação a versificação
tamborilada do poeta,
no lavor da literatura
à luz da gramática.
do mundo moderno
anda bem quando há homens de palavra:
verbo –palavra ação
palavrão - falta de educação.
palavreado –astúcia
palavra – fonemas com significação
palavra é tudo;
sonho nas primeiras letras
e movimento no correr da vida
Palavra é poder:
tempestade e calmaria
é pesadelo e sonho
é luz que faz a poesia
pintada em estrelas de sonho.
Ah! Palavra falada e cantada
sonho nas primeiras letras
e luz no correr da vida

––––––––––––-
Fonte:
Colaboração do autor

postado por Magister, às 08:22

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10.11.2009

Livro tem pai e avô, como todo mundo. Nenhum autor importante, desses que deixam marca, escreve a partir do nada. Ninguém que vá morrer consegue inventar, sem base, algo que preste. O truque dos gênios é participar de uma linhagem, sem precisar dar sempre o crédito (isso fica a cargo dos estudiosos, os apaixonados dispersos no tempo). Artistas africanos anônimos e ancestrais foram apropriados por Pablo Picasso. MacBeth e Hamlet já tinham sido escritos, mas Shakespeare fez muito melhor. Os Irmãos Grimm, todos sabem: colheram as histórias do povo e colocaram em papel impresso. Cervantes usou os romances da cavalaria para talhar seu antídoto.

Picasso falava em roubar, mas era seu jeito debochado de abordar coisas sérias. Não acredito nessa definição. Existe o plágio, o clone, mas isso é outra coisa. Está cheio de ladrão por aí, mas os mestres são de outra estirpe. Trabalhar uma história e elaborá-la de tal forma que cruze os séculos é entender que literatura, como toda arte, é matriz, tem antepassados e gera seres vivos. Chamam de livros, mas podem ser páginas virtuais em telas luminosas, espalhadas em inúmeras fontes. Por um tempo foram manuscritos perdidos, obra de copistas, papiros, tábuas, argila. Não importa a forma, mas a elaboração que identifique a obra.

O papel impresso, por existir há muito tempo, parece ter se transformado na natureza do livro, mas esse é um erro de percepção. É imbatível como objeto a ser levado para a varanda, o quarto, o banco da praça, do ônibus. Mas acredito que hoje existe um exagero de livros não reconhecidos como tal espalhados pela rede, assim como temos livros perdidos, mofados, jamais reeditados e que fazem parte de um acervo de maravilhas ocultas, como os tesouros das lendas, essas que eram transmitidas pela voz por gerações e só depois pousaram, modificadas, em volumes que ocuparam estantes.

A essência do livro, da literatura, é habitar o espírito. Vejam bem que não usei missão, função, “papel” no sentido de incorporar um personagem. Porque é dentro de nós que uma história, uma teoria, uma lenda, uma parábola, um texto, um poema, uma obra habita. Não vamos procurar lá na sala encerada, na biblioteca opressiva, nas prateleiras convulsas, nos armários fechados a glória de existir da literatura. Também não vamos procurar apenas nas conversas eruditas, embora estas possam nos levar pela mão até onde nem imaginávamos com nossa precária leitura. Não se trata de fazer pouco do acúmulo ou das análises, pois tudo tem lugar nos livros.

O fato é que os antigos tinham mais sabedoria, pois não era preciso o livro para que a literatura habitasse as gentes. Bastava um narrador em praça pública, um poeta popular, um arauto, um aventureiro e suas memórias ditas em cima de um caixote, uma gávea. Não havia intermediários, a não ser o autor da saga, que assim se transmitia diretamente para o coração do povo. O livro no fim aprisionou o talento a sete chaves e ficou cada vez mais custoso abri-lo para ler, à medida que as atrações da vida se multiplicaram e se tornaram mais acessíveis.

Quantos livros deixei pela metade? Quantos dormiram na minha estante, às vezes por vinte anos, para enfim eu poder ser capturado por eles? Ler tudo é impossível, devemos ler só o necessário e cada um sabe sua cota. Ao mesmo tempo me pergunto: e se eu não os tivesse à mão, o que seria de mim? Brutalizado pelo exílio, eu amargaria a pena de viver tentando imaginar o impossível. Seria uma bruma de possibilidades e talvez eu quisesse, a certa altura, escrever algo para poder ter o que ler. Esse é o segredo dos diários: todos os dias colocamos a vida nele para um dia podermos ler o que passou por nós como um comboio. É nossa obra favorita.

Chegará esse tempo em que verei a paisagem do que escrevi. Mas isso vai se desenrolar lá fora do trem. Dentro, sobre uma poltrona amigável, eu continuarei a abrir os grandes autores, os que jamais devem se distanciar de nós. Porque se algo fica na terra, é a literatura, semente de obras ao infinito.

Fonte:
http://consciencia.org/neiduclos/
Fotomontagem = José Feldman

postado por Magister, às 03:25

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09.11.2009


EVOCAÇÃO DO CANTO

Descerra essa violação, afasta essa solidão
Venha me encontrar na última carruagem
Pegue o trem, pilote o avião, pouse em Marte
Retorne com as palavras perdidas no porão
Venha, rouxinol, cante que é tarde

VOLTA, RIO

Na origem, o Rio é uma paisagem-monumento
na essência, um urbanismo clássico
na História, uma soma nacional
na música, uma tarde de sol.

REVANCHE

Sou avô, mas jamais fui neto
Por destino desenhei uma linhagem
Da nação sem lei sou a estiagem
E reponho a bandeira no meu teto

FICO

Nenhuma palavra brota do silêncio
Voltado para o canto escuto o vento

Nenhuma conversa opera no silêncio
Dobrado no quarto enxergo o tempo

FLAGRANTE

Não peço desculpas pelo atraso
Nem pelo caldo, folia de Reis
na serra do Espinhaço, turismo
de sal na areia depois das seis

TRAPÉZIO

Tempo não ocupa espaço
Desanda quando acontece

Rastro de sombra, penhasco
Com os minutos em queda

PÁSSARO

É breve o pássaro
que ofusca a treva

Obscura flor
da ante-manhã

AVESSO

Agora que a face do sol sem
brilho acorda a face oculta
de deus virado pelo avesso

TRÉGUA

Quem fala em amor numa noite dessas
quando o tempo morre no horizonte

Quem fala em amor que te apedreje
porque a pedra afagou antes da mágoa

MARTE

Levantou
porque não havia mais espaço
Suspirou
porque a manhã não abre

VERANICO

maio se despede com o tempo em brasa
último aceno do verão, tardia praia

prenúncio do frio temido pela alma
(exílio juvenil de sombrias memórias)

É TEMPO DE PERDÃO

É tempo de perdão pelo tempo perdido

É a perda de tempo que nos mantém cativos

Não o tempo sem valor ou a chance fria

Mas o tempo do coração em queda livre
-----

Mais poesias do autor, cronicas, contos, artigos, resenha de seus livros, etc. Podem ser encontrados no site do autor, abaixo

Fonte:
http://consciencia.org/neiduclos

postado por Magister, às 02:58

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08.11.2009

Guarda-me anjo da guarda
como sempre me guardou...
guardando aquela lembrança
dos meus tempos de criança
que já se foi... mas ficou.

Guarda todos os sentimentos,
a candura de menino;
guarda todo o meu destino,
minha fé, ternura e paz,
guarda também a saudade
que por pirraça ou maldade
não vai me deixar jamais.

Guarda meus sonhos perdidos
que nunca foram alcançados;
guarda aqueles meus pecados
tão ingênuos de menino,
pecados tão pequeninos
por certo já perdoados.

Guarda, afinal, a certeza
de ter trilhado o caminho
do bem, razão e pureza;
guarda também a riqueza
do meu pobre coração,
guarda, meu Anjo da Guarda,
minha vida em tuas mãos.
-----
Fonte:
Colaboração do autor.

postado por Magister, às 03:07

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07.11.2009

O caminhão-basculante veio arrastando o mato, a poeira embaçando a grama, o barulho potente do motor importado assustando os camaleões e lagartos, espantando os tizius, coleiras, sabiás e sanhaços.

De repente, o baque!

Dois bezerros foram colhidos em cheio; outros saltaram a cerca de arame farpado, ferindo-se atabalhoadamente

A caminhonete vermelha foi parar no barranco.

O vaqueiro chicoteou a égua baia, chegou perto, gritou para o motorista:

- Eh, cumpadre, ocê matou dois bezerro !
- Matei !? – respondeu o outro perguntando.
- Matou !
- Pois aqui não é lugar de bezerro pastar !
- É, mas ocê podia pelo menos diminuir a marcha, não carecia de correr tanto...
- Meta-se com a sua vida, seu... Eu corro onde quiser !
- Correr ocê inté pode, só num pode é matar os bicho...
- Se matei, tá matado, que se dane !
- Que se dane não, moço... Ocê tem que pagar os bicho morto, no preço justo !
- Pagar uma ova ! Quero ver quem é o macho que vai me cobrar – ameaçou.
- Pois daqui o senhor não sai. Bezerro custa caro.
- Não saio ? Vamos ver se não saio !

O homem foi atrás do banco do carro, pegou uma barra de ferro e desceu disposto a tudo, avançando ameaçadoramente para o outro.

O vaqueiro não se intimidou. Meteu a mão numa garrucha e disparou.

Os dois únicos tiros que a arma suportava, pegaram numa das pernas do motorista.

Cambaleante, ele arrastou-se até o carro, ligou o motor estabanadamente, manobrou o carro e arremessou-o contra o vaqueiro - que se desviou com precisão - e saiu como um relâmpago.

O roceiro apeou, caminhou até os dois animais ensanguentados. Uma difícil lágrima rolava-lhe discreta na face cabocla...

- Desgraçado ! - Choramingou.

Um dos bezerros estertorava, o outro nem se movia.

- Malvado ! Nem pra andar devagar... Por que correr daquele jeito ?
De repente, as sirenes. A viatura policial deslizava ao longe, levantando a poeira amarela da estradinha que circundava o pasto.

O triste homem levantou-se, afagou os animais mortos, montou na égua e sumiu no meio do capinzal.

Véi Mundim consertava a cerca que circundava a casa de madeira. Um prego na boca, outro entre os dedos, o martelo na mão.

De repente, o rumor de cascos no barro,

A sirene acordando o pasto, os tiros pipocando no silêncio vivo do capinzal.
O vaqueiro vinha feito uma bala riscando o tempo, arriado sobre a cela, a égua avançando ligeira.

Quando divisou a porteira, o animal entrou apertado no pequeno vão. O carro da polícia passou direto, estilhaçando a madeira.

O velho estava boquiaberto; o prego semi-enterrado na primeira martelada...
Do que jeito que vinha, o boiadeiro desmontou num salto, a bota afundou no charco, a égua foi parar logo adiante.

- Que foi, homem ? – indagou o velho.

- Depois eu conto, agora é fincar pé no mato!

E sumiu no meio do capim-navalha.

A viatura deu marcha a ré e dela saltaram um tenente, dois soldados e o motorista do caminhão-basculante, capengando.

Os homens foram entrando cocheira-adentro, o pé do oficial arrebentou a taramela.

Véi Mundim olhava-os de soslaio, por trás de uma das lentes dos óculos rachados, o cigarro de palha torto num dos cantos da boca. O martelo firme numa das mãos.

- Onde está o bandido ? – perguntou o tenente.

O velho bateu o segundo prego, sem responder; as pupilas azuis como um céu aberto sobre o vale.

O tenente aborreceu-se.

- Como é que é, meu senhor? Onde está o marginal ?

O velho nada respondia. O soldado tentou segurá-lo. O martelo tornou-se um machado.

- Se chegar mais perto, eu abro sua cabeça, sordado !

E abria mesmo, não fosse a intervenção do tenente.

- Calma, rapaz, deixe o moço. – chegou-se para o velho demonstrando atitude pacífica.
- Amigo... aquele homem que entrou aqui correndo, baleou este moço aqui – apontou para o irritado motorista que massageava a perna atingida.
- Agora já se pode começar uma conversa... – disse o velho. De primeiro, ocê preguntô por um bandido... Que se saiba, aquele moço num é nenhum bandido...
- Bem, meu senhor...ele baleou um motorista....
- Adispois, - continuou o velho – vosmicê quis sabê de um marginá... se se refere àquele moço que sumiu no mato, também num se trata dele...
- Meu senhor, ele fez uma vítima...

O velho não se abalou:

- Adispois ainda, o sordado raso aí tentou botar a mão ni mim... Como é que ocê ainda tem o descaramento de fazer pregunta a uma pessoa que nunca viu mais gorda ? Seja mais educado, homem ! Cadê os estudo ? Cumpra o seu dever, mas num martrata as pessoa di bem.

O tenente coçava a cabeça, os soldados franziam a testa, o baleado enrijecia os músculos faciais e não se conteve:

- Aquele safado me deu dois tiros !
- Eu conheço ocê de algum lugar ? – indagou o velho sem se abalar...
Além do mais, se levou dois tiro, à toa é que num foi... nessas banda, ninguém leva tiro a troco de nada...
- Ora, seu... – o motorista avançou para o velho, que muniu-se de um pedaço de madeira da cerca.
- Eu acho que ocê num tá satisfeito com os dois tiro. Se me provocar, vai ter dois buraco na perna e um taio na cabeça. Vem procê vê !
- Calma, gente, vamos conversar – interrompeu o tenente.
- O que nós queremos é saber onde foi aquele moço que estava montado nesta égua aqui, o senhor poderia nos ajudar ?
- Que eu visse, se embrenhou no mato.
- Onde ?
- Ué ! É só oiá pro mato e procurá.
- Bem, o senhor vai nos mostrar onde ele está!
- Quando ele chegou aqui, eu tava pregando as tábua da minha cerquinha. Tava ainda no primeiro prego, quando ouvi toda a barulheira que ocês fizeru.
- Tudo bem, tudo bem, gritou um dos soldados! E pra onde ele foi? O senhor já está deixando a gente nervoso!
- Vem cá, me diz uma coisa... Quem é o comandante desse pelotâo? É ocê? É aquele cidadão capenga ou é o outro sordado?
- Soldado, cale-se !
- Mas eu...
- Cale-se ! Eu faço as perguntas! O tenente estava irritado.
– Meu senhor, aquele homem é um criminoso e nós vamos pegá-lo!
- Que nós ? Eu e ocês ? Eu num güento nem carregar um molho de agrião, quanto mais correr atrás de alguém. Ocês é que se vire!
- Mas nós temos que alcançá-lo !
- Ué, e por que não arcançaru ainda? Ocês num tão de carro? Ele tá a pé. Qual o pobrema?
- O problema é que... Ora, meu senhor...

De repente, um grito no capinzal:

- Eu tô aqui, seus trouxa ! Pára de conversa-fiada e vem me buscar !

Estupefatos, todos saíram voando na direção do grito. O tenente, os soldados e o capenga.

O velho balançava a cabeça reprovando:

- São uns bando de maluco...

As botas pisavam fundo as barrentas poças de lama amassando capinzal; concomitantemente, frangos-d’água, galinhas-d’angola e gaviões acordaram o vale num estrondoso farfalhar de asas, pios, chiados e gritos...

- Vêm me pegá, seus bunda-suja ! – gargalhava o peão dentro da capoeira – Cês num intendi de genti, vai intendê di mato ?

Dois filas, um doberman, um rotweiller e um pitbull que guardavam a casa grande despertaram do seu sono rural e, curiosos, empinaram ouvidos e narinas na direção do vento que trazia rumores e cheiros urbanos e partiram para cima dos barulhentos forasteiros.

Paralelamente a esse fatídico acontecimento inesperado, as entonações já não mostravam tanta gana em pegar o fugitivo. Os sons eram outros:

- Um cobra ! – berrou um dos soldados, a jararacuçu grudada na sua bota.

O velho continuava a martelar sua cerca, um riso capenga atravessando o vazio entre os dois caninos cariados, enquanto completava: - São uns bunda-suja mermo.

- Socorro ! – era outro gritando, agora o que levara o tiro. No seu encalço, um touro preto enorme – um pedaço de cueca vermelha num dos chifres do boi babão.

Bruscamente, o desfecho da perseguição:

- Cuidado ! Areia movediça !!!!

E todos estavam chafurdados naquele monte de lama misturado com gravetos, animais mortos, frutas podres e folhas secas...

À margem da capoeira, o touro bufando, os cães rosnando e o fugitivo mordendo um galhinho de murubu.

- Ocês sabia que aí tem jacaré do papo amarelo daqueles grandão ?
–––––––––––––––––––––-
Fontes:
Portal CEN.
Imagem = http://temdetudo.spaceblog.com.br

postado por Magister, às 04:02

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06.11.2009

A NOITE

A noite se me afigura uma fada,
De mistério fascinante tecida,
E encontro nela comprovada,
Uma das grandes delícias da vida.

Na noite me refaço e transformo,
Encontro motivo de deleite,
Até com a tristeza me conformo
E não existe embate que a rejeite.

Quando a noite chega me encanto,
Sua escuridão enigmática atrai,
E a fascinação logo em mim recai.

É essa escuridão como um manto,
Que me envolve em deslumbramento
E traz ao prazer seu complemento.
==================

O SOL

Quando o sol desponta eu me levanto,
Sem entender a tristeza do meu coração,
Ouvindo aquele brado, longe, inconstante
Nas minhas ternas lembranças que se vão.

Quando o sol brilha, ofuscante, tão luminoso,
E nele encontro a fonte de minha energia,
Sonho em delírio com aquele vulto garboso
Que todo o dia fascinante me aparecia.

O sol me liberta e eu encontro fortaleza,
Seus raios me ofuscam naquele doce calor,
Que liderou meus dias recentes de amor.

Quando o sol desponta sinto sua beleza,
Absorvo em cada instante o movimento
Das verdes folhas no balanço do vento.
==================

TEU OLHAR

Vejo em teu olhar aquela luz,
Sinto em teu olhar a ternura,
Que espalhas e que reluz,
Transbordante de ventura.

Contemplo teu olhar profundo,
Com negro brilho de esperança,
Como a espalhar pelo mundo,
a generosidade que de ti se alcança.

Admiro teu olhar e me transporto,
Na beleza que inspira com suavidade,
O sentimento expresso em liberdade.

Aprecio teu olhar e curiosa me volto,
Sempre a aprender esplêndida lição,
E a ela me integro com paixão.
==================

SONETO DE NATAL

A doçura do amor simboliza natal,
Criança e salvação prestes a nascerem,
Vida se equilibrando sem o mal,
Bondade e discernimento a crescerem.

Beleza e olhar profundo era Jesus,
A esperança da humanidade com amor,
Nem a descrença por um minuto reduz
O brilhante filósofo também salvador.

No lugar escolhido imperava pobreza,
Maria ali estava encarnando a bondade,
E o filho aguardava com serenidade.

Jesus ao nascer não conheceu a riqueza,
Na simplicidade repousava na manjedoura
E a fé dos que cercavam era acolhedora.
==================

MOMENTO FELIZ

Esse é meu momento de felicidade,
Em que entrevejo o mundo com amor,
Transbordante de imensa ternura e amizade,
Que meus olhos se umedecem no ardor.

Diviso o sol, a lua, as estrelas em seu fulgor,
E me extasio no reflexo dessa potente beleza,
Sinto então que meu coração vibra de calor,
E concluo que é o meu momento, com certeza.

Nesse momento quero sentir essa sensação,
Poderosa, verdadeira, leal e fascinante,
Que toma conta de mim sorrindo atraente.

Quero entoar com carinho a linda canção
Que me embalou nas legítimas alegrias
E já retorna com a recordação desses dias.
------------

postado por Magister, às 04:00

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05.11.2009



Faz mais ou menos dois anos que estou morando num apartamento. A vida nos obriga a tantas reviravoltas, que acabamos nos acostumando a tudo.

A princípio, pensei que não me acostumaria fechada em quatro paredes, 'engaiolada', como disse um dia meu marido. Mas, aqui estamos e, para bem da verdade, acabei adorando nosso pequeno cantinho.

Já escrevi sobre minha casa. Grande, corredor largo, sala enorme, quartos imensos... Pra quê?
Só para juntar velharias, acumular 'coisas' sem nenhuma importância, talvez para ocupar espaços que estão sobrando.

Quando vejo os cristais, ainda intactos, perfeitos, e que foram presentes de casamento de meus avós, (ainda os conservo com carinho), penso que, na realidade, não deveriam importar para mim. Afinal, meus avós é que importavam. Sua presença amiga, seus conselhos, que na ocasião, via com desdém, seu sorriso, sua sabedoria, seu amor imenso e profundo como o mar. Os cristais, ora os cristais! Na sua fragilidade, permaneceram. As pessoas, não. Que ironia! Foram-se, como nuvens que passam. Deixaram, no entanto, uma mensagem forte, que não se diluiu com a ausência, nem se perdeu com o passar dos anos. E uma doce, suave e enorme saudade.
Mas... voltando ao apartamento, outro dia, descobri uma coisa maravilhosa. Estava eu preocupada com uma reunião importante que aconteceria naquele dia quando, ao olhar pela janela da cozinha (eram umas seis horas da manhã), vi o espetáculo maravilhoso do amanhecer.

Momento inesquecível!

O sol, ainda menino, deixava-se descobrir no horizonte, tímido, róseo, para alguns minutos, após, aparecer redondo, belo, imponente e dourado como um rei, anunciando que o dia chegava, claro e belo, tal qual a esperança e a certeza de que tudo estaria bem e que Deus, em seu imenso AMOR, me respondia a questões e esclarecia as dúvidas.

Lembrei-me, então, que todas as tardes; quando o céu está limpo, se quiser sentar-me em minha cadeira de balanço diante da janela da sala, tenho o espetáculo maravilhoso do entardecer ao meu dispor.

O sol se põe para mim, extasiando-me com a beleza desses momentos que são quase eternos. Saint Éxupery, através de seu Pequeno Príncipe, nos diz: 'Assim eu comecei a compreender, pouco a pouco, meu pequeno principezinho, a tua vidinha melancólica. Muito tempo não tivesse outra distração que a doçura do pôr-do-sol. Aprendi esse novo detalhe quando me disseste, na manhã do quarto dia:

- Gosto muito de pôr-do-sol. Vamos ver um...
- Mas é preciso esperar...
- Esperar o quê?
- Esperar que o sol se ponha.

Tu fizeste um ar de surpresa e, logo depois, riste de ti mesmo. Disseste-me:

- Eu imagino sempre estar em casa!
... no teu pequeno planeta, bastava apenas recuar um pouco a cadeira. E contemplavas o crepúsculo todas as vezes que desejavas...
- Um dia, eu vi o sol se pôr quarenta e três vezes!

E um pouco mais tarde acrescentasse:

- Quando a gente está triste demais, gosta do pôr de sol...
- Estavas tão triste assim no dia dos quarenta e três?'

Pois é. De repente, descubro que posso assistir num mesmo dia à alvorada e ao pôr de sol. Descobri, também, que o apartamento, se eu quiser, pode se transformar em meu pequeno mundo, como o planeta do Pequeno Príncipe.

Afinal, considero-me privilegiada. Deus não me deixa nunca sem respostas. Está sempre a me tratar com carinho de Pai. E suas respostas estão aqui. Ao meu lado para que O sinta bem pertinho de mim.

Mesmo nesta época de tantas controvérsias, de tão avançada tecnologia e tanto progresso, em que a humanidade se vê esmagada por incompreensões, lutas de classes, violências desnecessárias, seqüestros, ganâncias desmedidas, apego ao dinheiro e ao poder, sufocada por suspeitas e ameaças de 'vazamentos de substâncias químicas', ainda não se pode parar para assistir a um espetáculo grandioso e gratuito como a aurora e o crepúsculo

Fontes:
Douglas Lara. http://www.sorocaba.com.br/acontece 
Imagem = http://www.melhorpapeldeparede.com

postado por Magister, às 04:01

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04.11.2009
Imagem por Douglas Dickel
Nossa história começa em São José dos Ausentes, RS, na trilha que leva ao Cânion do Pico do Monte Negro (o ponto mais alto do estado – 1403 metros), onde seguiam duas mulheres, aparentando entre setenta a oitenta anos. Uma loira, outra morena; cor distinta na pele, uma vez que, a prata dos cabelos, era igual.

– Querida amiga, sabe que não existe nada mais agradável neste mundo, do que, açoitada pelo vento, subir ao Pico do Monte, em nublada tarde de agosto, curtindo o ar campestre, fatores climáticos que levam qualquer ser humano a um universo poético, arrastando isto aqui – falou a morena apontando para algo que trazia preso às costas. A velhinha loura sorriu e replicou:

– E você percebe que esse prazer aumenta quando, mesmo na falta de Maria Madalena para nos limpar o suor do rosto, encaramos a caminhada, numa boa, em “Papo Família”?

– Qual é, Bárbara, nesta altura do campeonato, família se reduz a filhos, ironizou a morena acrescentando – “Filhos, melhor não tê-los...”

– Mas, “se não tê-los como sabê-los?” perguntou a velhinha marfim, lembrando um número quatro perdido no tempo. Curvando-se um pouco mais, ao peso do fardo que trazia às costas, tropeçou, numa pedra, engoliu um grito de dor, e “fazendo uma careta, cantou:
– “No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho”.

E olhando de soslaio para a companheira:

– Canta comigo Jandira, assim a viagem fica mais alegre.

Morena Jandira, apertando os olhos, face à dor causada pela coroa de espinhos rodeando a cabeça: – prefiro declamar minha alegria gritando ao vento:
– “Poeta é um fingidor.
Finge tão perfeitamente...
Finge até a dor que deveras sente.”

E falando com seus botões, lembrou dia e hora de cada espinho... Viagens, suas roupas jogadas ao léu, as noites passadas em claro, inúteis discussões, que não levavam a nada, seu PC ...um safanão bastou para destruí-lo. Quanto dinheiro gasto, para arrumá-lo.

Diferente de pessoas, máquinas a gente sempre arruma, deixa novinha em folha. Entusiasmada , ergueu a cabeça e repetiu:

– “Finge até a dor que deveras sente...”

A custo, aproximando-se de Bárbara:

– Como vai se portando tua coroa?

Arquejante, a velhinha movendo a cabeça com dificuldade, forçou um sorriso, respondeu:

– Muito bem obrigada, cada espinho no seu devido lugar.

E como não havia de ser ...espinho desilusão, espinho solidão, espinho abandono, espinho sonho destruído. Bem feito. Afinal, velha metida, se fazendo, querendo sonhar... Tentou sacudir a cabeça. Impossível, curvou um pouco o pescoço, na face esboçou um esgar na máscara.

Trocar de casa, uma novinha, ensolarada, piso novo, móveis novos. Logo ela, uma velha, pra que isso? Gastar dinheiro em bobagem? Já não tinha a espera, outra no João XXIII? Cupins? Aprender a conviver com eles, ora bolas. O melhor, amorcegar àquela casa e fim de papo. Soltando uma sonora gargalhada:

– “Quanta gente que ri talvez existe
cuja única ventura consiste
em parecer aos outros venturosa” .

E assim, perdidas em seus pensamentos, ambas continuaram a subida íngreme, em direção ao topo. Caíram algumas vezes, ergueram-se, em determinado momento; uma troca de olhares marota selou algum acordo, pois, apoiando-se mutuamente, cantaram:

Mal Secreto
“Se a cólera que espuma, a dor que mora
N'alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;
Se se pudesse o espírito que chora,
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!
Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!
Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!”


E assim, alcançaram o topo do Monte Negro, e assim, para sua surpresa, foram recepcionadas por Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa e Raimundo Correa. Depressa, jogaram ao chão, a cruz e a coroa de espinhos, que nossas heroínas portavam.

Comovidos e felizes, comentavam que, durante a árdua jornada, Bárbara e Jandira aludiram a seus poemas, o tempo todo. O mais entusiasta, dando um passo à frente, falou:

– Oh, sinto-me envaidecido, pois da tríade parnasiana – Alberto de Oliveira, Olavo Bilac e eu, Raimundo Correia, foi um poema meu o escolhido para fechar este trabalho.

Caros leitores, curtam a sonoridade de minhas palavras e de meus versos. Seria decepcionante, para o meu ego, se o poema aqui transcrito, integralmente, fosse "Os Sapos", de Manuel Bandeira.

As duas velhinhas, uma loura outra morena, de São José dos Ausentes? Frio... Vento... muito vento, brincando com as cabeleiras cinza azuladas, subindo, subindo, jogando-as de um lado para o outro entre brancas nuvens cercadas da tão almejada Paz, finalmente alcançada.

Fontes:
Portal CEN
Imagem = http://douglasdickel.blogspot.com

postado por Magister, às 02:23

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03.11.2009

Donzília Martins
PELA METADE

Por detrás do tempo
Em vidraças partidas
Olham vazias o entardecer
E pela metade deixam a vida por cumprir.

Olhares apagados
Silhuetas de sombras
Em línguas de fogo afiadas
Perscrutam madrugadas no poente.

Desfeitas pelo pó dos caminhos
Roseiras sem rosas, com espinhos,
Esvaídas no pólen inflorido
Olham o vazio deitado na alma.

Tiveram alma? Ventre? Terão tido vida?
No vácuo do caminho andado
Sentem-se nada de nada, de ninguém.

Nem o ventre lhes pariu
Nem o seu jardim floriu!
São pétalas secas, mirradas,
Vagueando nos silêncios do desdém.

Hoje choram a flor cardida que fechou
O leito frio que ninguém ocupou
A ternura que não deram
Aos braços dos meninos de sua mãe.
=====================

Maria Nascimento Santos Carvalho
CHUVA MIÚDA


A chuva fina molhou o meu mundo ...
O mundo que eu ergo, orgulhosamente,
embora deformado agora pelos excessos.

A chuva molhou meus pés;
pés antigamente delicados,
de solas aveludadas.

A chuva molhou minhas pernas
que foram torneadas
e hoje estão visivelmente volumosas,
meio disformes
e marcadas pela vaidade das depilações.

A chuva molhou meu tronco,
que, com o passar do tempo se alargou,
se desenvolveu em todas as dimensões,
sofrendo não ainda a deterioração do tempo,
mas obedecendo as inflações da idade;
tomou o porte das prestações a longo prazo:
expandiu-se, degenerou-se,
multiplicando as carnes, antes em desfalque.

A chuva molhou a minha cabeça,
que, feita para pensar,
pensa que não sabe o que pensar,
o que deseja pensar do mundo,
das coisas, das pessoas,
da vida ...

A chuva continuou pingando ...
Pingando ... pingando ... pingando ...
R e s p i n g a n d o...
e inocentemente molhando o meu mundo,
o meu eu ...
========================

Vânia Maria de Souza Ennes
ALGUMAS TROVAS

Eu não mudo de país,
nem de cidade ou estado,
porque aqui sou bem feliz...
exatamente... ao seu lado!!!

Romântico e apaixonado,
meu pensamento flutua,
vai ao céu... volta zoado:
Vive no mundo da lua!

Acalmar gesto impulsivo
num conflito sem razão:
Medicinal... curativo...
é a humildade e o perdão!

Reconheço que a razão
me exerce extremo fascínio,
mas, se acerta o coração...
perco o rumo e o raciocínio!

Mãos que orientam crianças,
seja na escrita ou leitura,
mostram sinais de alianças
de nobreza e de ventura!

Educação e cultura,
seriedade e competência
é alvo certo de ventura
que aguardamos com urgência!

Quero um planeta perfeito,
sem guerra, sem corrupção.
Povo justo e satisfeito,
respeitando seu irmão!
=============================

Gonçalves Viana
PAPELÃO

Eu cato ilusão
Daquelas perdidas
Que ninguém quer mais não,
Projetos de vidas, abortados ou não;
Pedaços de corações, frustradas orações,
Que anjo algum ouve não.

Eu cato ilusão
Sou um marginal à margem da vida
Sempre na contramão.
Cansado da lida, que nunca dá pé,
Remando contra a maré
Na mais completa solidão.

Eu cato ilusão
Notícias de amores
Que outros viveram... mas eu não!
Fantasias... que penso em vão,
Sonhos... que se ouso tê-los
Tornam-se pesadelos.

Eu cato ilusão
Neste velho carrinho
Que, trôpego arrasto pelo chão;
Cheio de quinquilharias,
Lixo, sucata, velharias...
Pranto, fome, cansaço, decepção,

Eu cato ilusão
Amargura, desengano,
Entra ano, sai ano,
E eu não percebo não
Que tudo isso, apenas são
Cacos do meu próprio coração.
====================

Edson Carlos Contar
PRESENÇA

O mistério de te saber tão longe,
Tão distante... E eu amar-te tão perto,
Induz-me a crer que a felicidade
Vem cá de dentro, de um cantinho certo
Inda que longe, é amor presente,
E tua imagem está aqui, decerto!

E onde estejas, eu sou só saudade
Do teu sorrir, do teu beijar, enfim...
Sonho apertar-te e, no sonho, me abraço
O teu calor eu sinto e me desfaço,
No abrir o peito e te encontrar em mim!
==================

Eron Vidal Freitas
TALVEZ

Talvez eu não seja o alvo, a meta pretendida,
como sua mente desenhou pra ter um grande amor...
Mas, se não sou pleno, que seja a fração que em sua vida
em algum momento a aqueceu com seu calor!

Talvez... é palavra que não tem força de "sim", de "não",
tem uma porta estreita chamada "Porta da Esperança",
diante da qual deposito toda a minha confiança
de ser agraciado com um "sim" meu pobre coração !

O dito popular me diz que "quem espera alcança",
por isso me planto diante da "Porta da Esperança",
desafiando no combate as armas dos cansaços!

Aguardo... que chegue a hora deste acontecimento,
Para que ponha fim à espera do feliz momento,
em que possa tê-la finalmente nos meus braços...
==================

Heralda Víctor
DEVANEIOS

Se eu fosse medir em versos
Meus sonhos e fantasias
Daria uma longa distância,
Uma estrada imensa.
Seriam dias...

Pedaços de momentos que vivi
Juras de amor que recebi
Carícias, beijos que dei
Em pensamentos,
Tantos que nem sei...

Ah, Como eu queria
Flertar com teu destino
Agarrar esta alegria
Oferecer meus doces sentimentos
Realizar teus desejos de menino
Aconchegar-me vagarosamente
Descobrir e mostrar tudo...
Silenciosamente.

Na verdade adoraria tão-somente
Acreditar que temos esperança
Para correr, pular, brincar feito criança
Sair livre, sem rumo estrada afora,
Crescer junto contigo sem demora
Viver amando sendo amada

Simplesmente...
=======================

José Luiz Grando
MOMENTO

Em um momento... só para si
A mente descansa na lembrança
mais viva de toda cultura de gueto.
Em cada verso de rebeldia
Em cada movimento...
...de resposta a todo preconceito.
A frente de seus olhos,
Um eclipse entre a fé !
E um rompante de violência...
Em um momento só para si...
...medita em torno de sua vida.
O homem precisa ser realista.
Falar sobre tudo que discorda...
...contra tudo o que o e massacra.
======================

Ermindo Gomes Rocio
NÓS E A NOSTALGIA

De tua boca eu guardo o sabor,
de teu riso guardo só a alegria,
de teus lábios eu guardo a cor,
de nosso amor tenho nostalgia.

Do sabor uma doce lembrança,
da alegria daquela juventude,
na cor do poente só confiança,
que nostalgia era uma ilicitude.

Tempos de tempestade enfim,
nuvens negras povoando o céu,
vi mares empolados e ao alfim,
palavras toscas jogadas ao léu.

Hoje, amor tatuado pela nostalgia,
como um vergão que não se apaga,
de nosso amor acabou aquela magia,
no peito trago cravado tua adaga.
============================

Luciana Tannus
QUE SE ABRAM AS CORTINAS SOFIA!

Botão de rosa
Criança onírica
Menina mulher

Provida de anseios
Desponta para a vida
Repleta de dúvidas e devaneios

Canta, sorri, chora, disfarça...

A natureza indicia
A mudança é iminente
Não cabe recurso

Está virando mulher

O conflito é eterno
A inocência insiste
A biologia impõe

Limiar de um novo caminho, pleno
De descobertas
Curvas
Apelos e
Desejos
===========================

Milton Roza Junior
VIVA!!!

Viver é a primeira maravilha do mundo,
pois tudo advém deste mandado divino
podemos ver o mar em cima de nossas cabeças
e flutuarmos para mergulhar, nossa sina
Quando há Primavera
vejo mais a face de Vera
algo se altera na matéria
sua palavra parece ser mais sincera
Ouvir os seus passos à uma distância anos-luz
não é mais utopia para mim
é apenas mais uma forma de ouvir "I am the walrus"
Beatles e suas músicas enfim
O que mais posso implorar a Deus
talvez as palavras não estejam concatenadas
talvez erradas
ou enfim, caladas.
Sorria!!!
não mutila
não definha
não expira
só enaltece
o que apetece
meu realce
nosso enlace.
======================
Fonte:
Gruta da Poesia. Ano V. Outubro de 2009
in
Portal CEN. http://www.iaramelo.com

postado por Magister, às 04:02

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02.11.2009

Os livros estavam devidamente enfileirados nas estantes. Poucos centímetros de distância um do outro. Nenhum torto, fora de foco. As orelhas desamassadas, passadas com chapa de ferro morno. O cuidado era devidamente dado para cada um, sem discriminação. O cheiro da sala, papel. O lugar pouco iluminado, embora o requeresse. Na mesa, ao fundo, uma figura vergada e escondida na pilha de livros para carimbar. Idade avançada. Cabelos cor de prata. Rugas rasgavam ponta a ponta o rosto descorado. Uma vida inteira de cultura, diversão, viagens, um pouco de tudo mostrado pelas palavras imprensas nas páginas dos livros.

Clarice estava pouco a aposentar. A preocupação acometia seus últimos dias com a idéia. Quem iria cuidar deles? Os sonhos lhe roubavam o sono; os olhos mais fundos. Os livros, sua vida, arremessados no lixão da cidade. Livros velhos? Antigos e restaurados; relíquias. Nas manhãs a cabeça queria explodir e quase Clarice perdera a hora de trabalhar. A biblioteca da escola não funcionava sem ela. Não abriam. Ninguém sabia mexer com carinho nos livros. Não encontravam a essência da pesquisa. Também só ela dera conta até hoje de livro por livro. As capas que fazia para os que estragavam tiravam exclamações de incredulidade. Ficavam perplexos. Era muito especial. Qualquer pesquisa Clarice dava conta. Ia sempre além, explicava com precisão todos os detalhes. Sabia um pouco de tudo. Com a sacola pesada de livros restaurados entrava diariamente na biblioteca cruzando a mão direita no rosto, rezava pai-nosso e ave-maria. Uma vida dedicada somente ao trabalho e nada mais.

Clarice morava três quarteirões da escola. Casa modesta, herdada. A outra única coisa que fizera foi cuidar de sua mãe – morta havia uma década. Cuidado devido de filha exemplar, solteirona e única. Dividia parte de suas horas ora com a mãe, ora com os livros. Dona Gertrudes morrera numa manhã cinzenta de sexta-feira treze. Clarice tinha pavor destes dias, mesmo sabendo que era lenda. O sossego, a paz e o sorriso meigo que sempre faziam parte do seu perfil ficavam tensos. Mas ninguém percebia. A bibliotecária, pessoa muito estimada, querida por todos. Falavam que nem pecado tinha. Nunca arrumara um namoro. Era santa. Diziam que quando a boa dona donzela morresse iria direto para o céu. Em quase trinta anos, Clarice nunca dera uma má resposta, uma palavra feia, nenhum olhar meio torto. Mas o sonho mexia com sua rotina. Seria aviso de morte repentina? Os dias estavam findando para ela? Livros no lixão da cidade! No livro de sonhos consistia informação de algo novo na vida.

Para Clarice, novo seria o fim. Deus dar cabo na vida atribulada e solitária. Ponto final. Tudo investido em quatro paredes infestadas de livros. Histórias, informações, um mundo, o segredo da vida impressos nas páginas. A sensação, a mesma de ter vivido com emoção detalhes, aventuras, desventuras... As paixões atingiam um mundo desconhecido para ela. Não abria estas páginas. As mãos iam vez ou outra em contramão com a cabeça. Rezava vários padre-nossos e pedia logo perdão. Mesmo com os livros não recomendados, tinha obrigação de conservá-los. Não discriminava nenhum. Apenas deixava-os de lado. Um outro gosto que não combinava com uma vida afastada dos desejos e maldades da carne. Mundo desconhecido. Um fim de expediente como outro qualquer. Um dia cinzento. Frio. Clarice limpou o último livro. Fechara com cuidado as janelas pesadas de madeira. Antes de sair, mais uma olhada. Uma olhada demorada, apaixonada, precisa. Os livros estavam cada um no seu lugar. Limpos, conservados. Devidamente enfileirados. Alguns estavam sobre a mesa. Estragados, mal conservados. Daria um jeito.

Clarice dirigiu-se à mesa. Pensou em juntá-los e levá-los para casa. Antes de dormir teria tempo para arrumar uns três. Pela primeira vez o cansaço venceu. Estava ficando mesmo velha. Tinha que aposentar. Uma dor de cabeça, corpo ruim. Com a idade, a gripe costumava visitá-la mais vezes no ano. E este frio piorava tudo. Em casa tomaria um chá quente. O resfriado iria embora.

Ainda com os olhos sobre a mesa de livros, Clarice pensava. Não viu quando um rapaz chegou e ficou olhando para ela. Alheia ao tempo e tudo. Voltou quando escutou um pigarro. Pela primeira vez, corou. Será que o rapaz pensaria que estava esclerosada? Falava sozinha? De vez em quando fazia isto. Costume de vida solitária. Ela, só na sua companhia. Mas, daí? Nunca importava. Não ligava. Ajeitou a postura, prontificou-se. O rapaz, viajante. Hoje iria demorar. O mal estar ficaria para depois. Certamente ele mostraria catálogos e mais catálogos de livros. Compra de livros.

Esquecera por completo.

O rapaz da editora sentou. Com os olhos puxados e enigmáticos abriu os catálogos. Mãos grandes e unhas bem aparadas. As mãos do rapaz. Clarice imaginou como seria o toque delas. Chegou a esbarrar sua mão. Desconfiou estar com febre. O danado do resfriado desestruturou tudo. O rapaz falava. Voz macia. Dentes brancos. Lábios bem desenhados. Clarice não escutava. Olhava para o rosto dele. Enfeitiçada. Como seria beijar aqueles lábios? O viajante perguntou algo, não respondeu. Não o ouvira. As mãos dele falavam. Tudo que queria era sentir o toque macio das mãos no rosto pálido. Aquelas mãos esquentariam a pele até torná-la corada, sadia. Uma vontade quase incontrolável.

Clarice pensou aterrorizada ter pedido ao viajante para acariciar-lhe o rosto. Um toque apenas, por favor. Fechou os olhos. Sentiu o calor das mãos do rapaz. Aquecida. Estava mesmo carente. Esqueceu de oferecer um chá para o viajante. A bibliotecária educada, contida, estava ficando lerda. Velha. O rapaz novamente perguntou. Voz grave, hálito cheiroso. Cheiro de menta. Um sorriso separou seus lábios. Clarice despertou dos pensamentos. Pediu desculpas. A explicação, pouco convincente, o cansaço, a gripe prestes a sair do corpo. O viajante sorriu. Os olhos também sorriram. Separou catálogos. Entregou um a um. Roçou as mãos. Olhou profundamente para ela. Chegou próximo. Mais alto que parecia. Mais bonito. Muito próximo. Clarice chegou a pensar que o viajante iria beijá-la. Fechou os olhos imaginando a cena. Nunca sentira um roçar de lábios e o gosto de uma boca que não fosse a sua.

Delicadamente as mãos do viajante passaram pelo rosto dela. Uma fração de segundos. Uma vida inteira, só. Um dia, um desejo. Toque como imaginara: suave, quente, delicado, gostoso... Uma última olhada apaixonada nos livros e com a chave passou a tranca na porta da biblioteca.
–––––––––––––––––––-
Obs: Este conto foi escrito em um parágrafo. Contudo, para não tornar a leitura cansativa em uma tela do computador, tomei a liberdade de parti-lo em alguns parágrafos. O texto permanece o mesmo, sem ser alterada a sequência.

Fonte:
Jornal Aldrava Cultural. http://www.jornalaldrava.com.br/

postado por Magister, às 04:02

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01.11.2009

Albatroz: mensageiro de tormenta.
Dela nunca se afasta; nem mesmo tenta…
Paira sereno sobre os espasmos úmidos do mar.

Altas vagas explodem desconexas
espargindo espumas brancas de água e sal complexas.
O vento desafina tons de ópera funesta
mas o mantém na rota e não contesta
o roteiro alado que teima percorrer.

Como fugir,
se o clarão da tempestade não se esconde?
Para onde ir,
se o rugir dos cbs se ouve ao longe?
Onde ficar,
se a segurança não é vista no horizonte ?
Por que temer,
se males vêm e vão
e depois da fúria fica em paz o coração?

O amassado da superfície
deixa escapar grunhidos de profundezas frias.
O negrume baixo do céu congestionado,
por riscos de luz pulsa, iluminado:
espetáculo de força magistral.
Explosão da natureza temperamental!

Exemplo e alento vêm, ave marinha,
ensina a coragem para o embate.
Reforça-nos o bico, prepara o bom combate.
Dá-nos força para vencer o caos que se avizinha!

Sobre a procela flutua o albatroz!
Na certeza que vencerá este momento;
nunca faz do mau tempo seu algoz.
Firme, contra ou a favor do vento,
paira seguro aproveitando o tempo
enquanto voa livre, feliz, veloz!
-----------

Fonte:
Academia de Letras de Maringá
Imagem = http://www.achetudoeregiao.com.br/

postado por Magister, às 04:02

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31.10.2009
Monte H, em Piúma (ES). Tela da
Escola Municipal de Educação Fundamental
Álvaro de Castro Mattos
ÁBNER DE FREITAS COUTINHO

Ábner de Freitas Coutinho, que também usa o pseudônimo de Percy Guido, é advogado e economista. Natural do Santo Antônio, Estado do Mato Grosso, onde nasceu no dia 15 de dezembro de 1926. Reside há mais de duas décadas no Espírito Santo. É professor e integra diversas instituições culturais.
Caravelas portuguesas,
mensageiras da História
foram, levando incertezas,
voltaram cheias de glórias...

Se poupança a gente encara,
logo descobre a verdade:
nossa metade mais cara
é nossa cara metade..

Meu pai, figura esquecida,
eterno semblante mudo,
o que fiz em minha vida
só a ti eu devo tudo...

Se pensar no seu irmão,
um instante, por favor,
sentirá no coração,
renascer fraterno amor!
ALBERTO ISAÍAS RAMIRES

Alberto Isaías Ramires é capixaba de Vila Velha, onde nasceu em 8 de setembro de 1924. Um dos mais representativos trovadores do Espírito Santo. Há vários anos residente no Rio de Janeiro. Militar (Capitão Rh do Exército). Autor de diversas obras e membro de várias instituições culturais do país. Ganhador de vários concursos literários.
Quando eu morrer, por favor
coloquem na minha cova
um epitáfio de amor
escrito em forma de trova!

Da vida, pelos caminhos,
uma coisa aprendi bem:
a roseira dá espinhos,
mas nos dá rosas, também...

Por nascer pobre, o Divino
num gesto compensador,
despertou, em meu destino,
a lira de trovador...

Não entendes meu desgosto,
mas aprende esta lição:
nem sempre pomos no rosto
as mágoas do coração.

Via-a rezando, contrita,
com os olhos fitos no céu.
Quanto pecado escondido
debaixo de um fino véu!...

Falar mal da vida alheia
é coisa que não convém;
quem tem telhado de vidro
não fustiga o de ninguém...

Lá se foi a meninice,
meu barquinho do papel,
minha ingênua peraltice,
meu doce Papai Noel...
ALYDIO C. DA SILVA

Alydio de Carvalho e Silva pertence a diversas entidades culturais do país. É natural de Santa Cruz, Espírito Santo, onde nasceu em 11 de abril de 1917. Industriário aposentado, reside há quase 30 anos, fora de seu estado natal. Além de poeta é romancista. Autor de centenas de trovas e outros poemas. Tem vários livros inéditos e participou de diversas antologias.
Vi num jornal estampado
o perigo que há no beijo.
Antes ser contaminado
do que morrer de desejo.

Quando passei pela estrada
e ouvi teu canto distante,
senti que a mágoa passada
reviveu naquele instante.

Carnaval, fraternidade
transitória e resumida,
onde se esconde a verdade
dos sofrimentos da vida.

Se passas muito apressada,
fugindo à minha atenção,
eu sinto a tua pisada
esmagar meu coração.

É doce morrer no mar...
Cayme receita a dose.
Só Cristo pra transformar
tanta salmoura em glicose.
AMAURY DE AZEVEDO

Também usando o pseudônimo de Yruama, Amaury de Azevedo, capixaba de Alegre, onde veio à luz em 1º de agosto de 1935, é comerciante e reside em Campos, no Rio de Janeiro. Mesmo afastado de sua terra natal, há mais de 27 anos, Amaury continua mantendo intercâmbio com poetas do Espírito Santo.
O capixaba não nega
O que lhe pedem com jeito.
Também não foge do pega,
Estufando logo o peito.

Quando toda a Cristandade
Vê passar mais um Natal,
Surgem novas esperanças
De uma paz universal.
ANDRADE SUCUPIRA

José de Andrade Sucupira é sergipano de Pacatuba. Há mais de 35 anos reside no Espírito Santo, onde militou na imprensa e foi funcionário público. Hoje está aposentado e reside em Vila Velha. Desde os anos 30 faz trovas, divulgando-as pelas páginas dos vários jornais em que trabalhou. É um dos Príncipes da Trova Capixaba, escolhidos pelo CTC. Nasceu em 22 de junho de 1909.
Meu espelho mostra a cara
sem vergonha, encarquilhada,
no corpo setenta anos,
muita canseira, mais nada.

Pela tapera da vida
O homem nasce lutando.
Luta, luta, lida, lida
e morre... sempre esperando.

No Brasil, coisa mais feia,
e coisa que mais consome...
Poucos de barriga cheia
e a maioria com fome.

Esses seus olhos traquinos
e vivos, vivos de mais,
têm nossos céus nordestinos
no verde dos coqueirais.

Sempre amar. Eis a verdade
do berço de qualquer vida.
Se o amor não tem idade...
Venha aos meus braços, querida!

Saudade... doce ternura,
espinho que se bendiz,
flor que fere com doçura
e deixa a gente feliz.
ANSELMO GONÇALVES

Pertencendo a diversas entidades culturais e por sua prática em favor da trova, Anselmo Gonçalves, capixaba de Vitória, onde nasceu em 21 de abril de 1929, é um dos mais atuantes trovadores do Espírito Santo. É funcionário público estadual e colabora na imprensa de sua terra natal.
Meu coração bate, insiste,
vai sacudindo, batendo.
A tudo ele bem resiste,
mas continua doendo.

Vela branca passa ao largo
Lá fora, longe, no mar.
Sua vida, sem embargo,
morre distante do lar.

Uma vida! Nosso amor
degringolou de repente.
Caiu da planta uma flor
resta a lembrança somente!

Toda tua indiferença
não consegue me vencer.
Sou todo amor e sou crença,
sou vida, e sou bem-querer!
ANTONIO TAVARES SUCUPIRA

Nascido em Vitória, no dia 12 de outubro do 1956, Antonio Tavares Sucupira é filho do trovador Andrade Sucupira. É, no campo profissional, engenheiro civil, formado pela Universidade Federal do Espírito Santo.
Saudades dela? Talvez?
Se se pudesse voltar
Eu nasceria outra vez
Com a mesma mãe para amar.

E um certo amigo dizia
À sua cara-metade:
Já fui preso, que ironia!
Por querer a liberdade.

Seria o mundo feliz
E só haveria glória
Se todo o povo da terra
Nascesse aqui em Vitória.
ASSUMPÇÃO BOTTI

Manoel Assumpção Botti nasceu em Vitória no dia 15 de agosto do 1916. É advogado. Autor de muitos poemas e trovas.
Que não me empolgue a subida,
Que a humildade viva em mim,
Que eu suba sempre na vida
Sem me esquecer de onde vim.

Se pintor eu pintaria
A vida com duas cores:
Um pingo azul de alegria
Num fundo roxo de dores.

Quantos contrastes abriga
Minha existência bizarra:
Obrigado a ser formiga,
Eu que nasci pra ser cigarra.

Os meus tristes olhos baços
Do que sou dão a medida:
Um coração em pedaços
Num corpo quase sem vida.
-----

postado por Magister, às 13:40

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15.10.2009
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O lançamento da 2ª edição do Rodamundinho será realizado na Biblioteca Municipal de Sorocaba, durante a Expo-Literária, no próximo sábado, dia 24 de outubro, às 11h.

Em maio, os organizadores receberam inscrições de Sorocaba e região e até mesmo crianças da cidade de Serafina Corrêa, do Rio Grande do Sul, inscreveram-se por intermédio de sua professora.

Com iniciativa de Douglas Lara e Alexandre Latuf, o Rodamundinho 2009 tem uma característica interessante: Matheus Dantas, o coordenador deste ano participou o ano passado com textos de sua autoria. Como Matheus ultrapassou a idade para participar e envolveu-se bastante com o projeto, foi convidado pelos organizadores a coordenar o projeto. Foi ele que manteve contato com as crianças e reuniu os textos que serão apreciados a partir do próximo sábado.

A capa deste ano ficou a cargo de Maria do Carmo Coelho Gozzano, a Maiá, que sempre colabora com o Cruzeirinho, com ilustrações para as historinhas e datas comemorativas.

Este ano os participantes do Rodamundinho são: Amanda Kalil Soares Leite, Ana Paula Rodrigues, Anna Laura Rodrigues Alba, Carla Marli Comin, Carolina Arakaki de Camargo, Elaine de Quadro, Ellen Cristina Garcia de Andrade, Evelyn Dias Jorge, Evelyn Jessica Marques Campanholi, Fabiana do Nascimento Gonçalves Trindade, Felipe Calegare Carranza, Fernanda Freire Reche, Gabriela Olsen Federige, Gabrieli Cristina Conceição Camargo, Gulherme Brancalhome de Andrade, José Estevão Pinto de Oliveira, Júlia Bonventi Nunes, Júlia Cepellos Moreno Romeiro, Júlia de Oliveira Marchetti, Julia Mira dos Santos, Larissa da Silva Vendrami, Larissa Miranda de Oliveira, Laura de Oliveira Marchetti, Maria Eduarda de Moura Paschoal, Maria Giulia Jacção Alves, Maria Luisa Alexandrino Dias, Maria Luiza Levy Lemes, Marília Birochi Saragoça, Matheus Balbino Ghiraldi, Natã Vicente da Silva, Paulo Cesar dos Santos Silva, Pedro de Almeida Pecora, Raul Cabral, Rejane Maieri Pedroso, Stefanie Gomes Gonçalves, Talhia Portella Maia , Vitória Amorim, Yasmin Ampese Maté, Whintina Talita dos Santos Almeida Rocha.

Livro escrito por 39 jovens de até 15 anos, 96 páginas de prosa e verso para leitores de todas as idades.

A Biblioteca Municipal fica na rua Ministro Coqueijo Costa, 180, no Alto da Boa Vista, ao lado da Prefeitura.

Outras informações:
Sorocaba dia e noite
http://www.vejosaojose.com.br/sorocabadiaenoite.htm
douglara@uol.com.br - fone (15) 3227-2305

postado por Magister, às 15:08

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Sonhos

A noite chegou, e com ela as estrelas,
Com as estrelas o luar...
E, com o luar, a certeza
De que vale a penha sonhar!

Júlia Mira dos Santos - 11 anos de idade - Sorocaba/SP
MORAES, Cintian e LARA, Douglas (orgs). Rodamundinho 2008. Itu/SP: Ottoni.

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