São 15 anos de saudades. São 15 anos que minhas manhãs de domingo não são mais as mesmas. São frias, geladas. Não são mais tão alegres quanto eram na época em que eu era um menino, que acordava cedo simplesmente para ficar à frente da TV.
Na época, não tinha dimensão do que me atraia para fazer aquilo. Hoje, pensando bem, até tenho certa noção. Assistir às corridas alimentava minha esperança. Lá, havia um brasileiro – o maior deles. Um brasileiro que chegou ao topo, passando as dificuldades de se chegar lá. Um brasileiro, como eu, que tinha obstinação por ser o melhor e dizia que qualquer um poderia chegar onde ele estava. Bastava querer.
Acho que era aquilo que me fazia acordar cedo. Acordava todos os dias em busca de ser o melhor.
A maior lembrança que tenho de Ayrton Senna foi uma carta que ele me enviou, respondendo a uma que enviei a ele. Contei a ele que tinha um sonho. Ele disse que meu sonho iria se realizar, bastava eu querer. Sonhar e ir atrás. É o que eu faço todos os dias, até hoje. Mesmo 15 anos depois.
O Senna alcançou seus sonhos. Chegou ao nirvana. Foi o maior de todos. Ele surpreendeu o mundo, mas nunca ele mesmo. Ele sabia que chegaria lá.
Como chegou na vitória do GP Brasil de 1991. Eu era um garoto de 6 anos e assistia a corrida com meu pai, no antigo apartamento na Miguel Estéfano. Chovia em São Paulo, muito forte. Senna, com apenas uma marcha, estava à frente. Só que a Williams vinha atrás, inteira, completa, mais rápida.
Meu pai dizia que não daria, que era impossível alguém correr com apenas uma marcha, quanto mais ganhar.
O papo do meu pai me deixava triste. “Será que ele não sabe que estamos falando do Senna?”. Eu acreditava naquilo que ele me falou, que era difícil alguém correr com apenas uma marcha. Mas não estávamos falando de alguém. Estávamos falando dele, de Senna. Um brasileiro que tinha o sonho de ganhar o GP do Brasil pela primeira vez. Que bateu na trave por sete vezes. Não seria na aquele 24 de março, dias após seu aniversário, que ele deixaria de realizar seu sonho.
Apesar de tudo, eu tinha a certeza de que ele ia ganhar. Nunca duvidei. Ele disse antes da corrida que ia com tudo atrás da vitória, que era um sonho para ele. Ayrton foi a pessoa mais próxima de personificar a vitória.
E ele conseguiu. Contra tudo e contra todos. Mal conseguia ficar em pé após tanto esforço.
Cada gota de suor valia mais que um pote de ouro naquele instante. Cada gota de suor fez com que ele realizasse um sonho. Ouro você pode comprar, mas todos os sonhos você pode realizar?
São 15 anos de muitas saudades. Até então, aquele 1º de maio de 1994 foi o primeiro dia mais triste da minha vida. Um dia que começou com uma noite mal dormida, muito estranha, e que terminou da pior forma possível.
Ainda hoje, custo a acreditar que aquilo foi verdade. Sinto Ayrton Senna muito presente, vivo no meu coração. Como, simplesmente, um acidente tirou a vida de uma pessoa que me ensinou que querer é poder e que os sonhos podem se tornar realidade?
Aquele dia, muitas vezes, parece que foi ontem. Aquele silêncio das ruas, diferente da euforia de quando Ayrton ganhava, me ensurdeceu.
A notícia da morte de Senna foi a única que, por triste coincidência, acompanhei. Minha família inteira na sala, enquanto eu rezava no meu quarto, frente a um adesivo comemorativo do seu tricampeonato mundial para que ele ficasse bem. Minha fé diz que Ayrton Senna está muito bem neste momento.
Os dias seguintes foram tristes. Não conseguia estudar, não conseguia comer. Só assistia vídeos de corridas, imaginando que elas, um dia, pudessem ocorrer ao vivo novamente.
Revendo uma matéria que a Globo fez comigo, há 15 anos, eu dizia: “O Senna eu vejo do meu lado. É uma pessoa que nunca vai morrer, para mim”. É meu sentimento até hoje.
Se choro, é de saudades. Peço desculpas. Eu só tenho que agradecer ao Ayrton pelas corridas que assisti – sou afortunado de ter visto uma pessoalmente –, mas, principalmente, por tudo que ele deixou, todo o seu ensinamento.
Sonhar é preciso. E sei que posso realizar meus sonhos e os venho realizando a cada dia.
Obrigado, Ayrton. Descanse em paz, meu eterno amigo.