A Band passou ontem 23 Anos em 7 segundos. O título do documentário remete ao tempo que a bola alçada por Zé Maria levou para entrar no gol da Ponte Preta em 13 de Outubro de 1977, arrematada por Basílio e acabando com 22 anos de tormento. 22 pois a partida final do último título alvinegro havia sido jogada em 6 de Fevereiro de 1955, como bem lembra Juca Kfouri. Este jogo marca a minha conversão ao corintianismo, ainda que, menino que nem para a escola ia ainda, eu não entendesse nada do que se passava naquela noite em que São Paulo parou.
Mas a festa me conquistou, e, mais que isso, a minha figura paterna, que, aos olhos de uma criança, é invencível. Eu não tinha a dimensão de que meu pai carregava a fila nas costas e para mim apenas o vencedor se sobressaía, fazendo parte daquela massa que, ensandecida, gritava, buzinava, parava o trânsito, noite adentro. Naquele dia tudo foi diferente. Fui dormir tarde, pulei, festejei, tive meu pai o mais próximo que pude, dividimos a mesma bandeira.
Falando do filme, é, para corintianos, emocionante. Para não-corintianos, lança luz sobre vários aspectos do ser que é, sem dúvida, diferenciado. Como diz Hortência, um dos vários entrevistados bem escolhidos, que torcida é essa que aumenta depois de duas décadas sem vitórias?
Eu, durante muito tempo, desconfiei mesmo que Rui Rei estivesse na manga. Um cara que, em uma decisão, 15 minutos, consegue levar um cartão vermelho em uma jogada sem importância ao insultar um juiz como Dulcídio era, deixando seu time com um a menos só podia estar mal-intencionado. E ainda ser contratado pelo Corinthians, logo depois. Mas José Teixeira, que era preparador físico e depois assumiu o cargo de Oswaldo Brandão, replica que, de forma premeditada, os defensores do Corinthians entraram em campo dispostos a provocar o jovem atacante da Ponte. E revendo o lance, se percebe que a alteração do jovem 9 da Macaca é tão grande que seria muito difícil encenar tal esquete.
Outro personagem é Carlos. Tecnicamente perfeito, desastradamente azarado, era o goleiro da Ponte que rebateu a bola no nariz de Palhinha, marcando o gol que daria a vitória ao Timão no primeiro jogo. E foi aquele que, em 1986, foi o único que vi colocar um pênalti em Copa do Mundo para dentro ao jogar contra a França. Como dizia Nelson Rodrigues, havia séculos que estava escrito que seria assim. O time que perdia para si mesmo anos a fio só poderia ganhar se encontrasse outro na mesma situação, ainda que muito superior tecnicamente. E tinha que ser assim. Sofrido, renhido, chorado, difícil. Corintiano.