
By: Duda
A música foi nosso cupido. Mais precisamente a "Canção para um grande amor" de Isabella Taviani. Gostávamos de assistí-la transformando o show em uma verdadeira peça teatral, ela não cantava apenas, ela mostrava o verdadeiro sentido da palavra interpretação, vivia a canção. Eu aproveitava sua voz serena, de tom baixo, pra me aproximar cada vez mais e me paralisar com aqueles olhos castanhos. Por diversas vezes, tentei decifrar o enigma que se escondia por trás daquele brilho. E tudo começou quando coloquei uma foto minha tocando violão no orkut, foi o que faltava para o começo dessa história:
- Olá! Você gosta de música?
- Ô! ( Achei que um simples "sim" ou "muito", não seria o bastante.)
- Pois é, Nietzsche estava certo quando disse que " Sem a música a vida seria um erro".
- Nietzsche acertou em muitos pontos.
- Também gosto quando ele diz que: "Se Deus me quisesse de outra forma, Ele teria me feito de outra forma"
- Ué... Achei que essa fosse de Goethe.
-Que tal terminamos essa conversa pelo Messenger?
- Boa idéia!
Nos encontramos algumas vezes, e não dava outro assunto: MÚSICA! Falávamos de tudo que envolvesse música, da MPB dos anos 70 à Nova MPB, Tropicália, Jovem Guarda, Bossa, Clube da Esquina, sempre tivemos bom gosto, e se a música fosse boa, nós ouvíamos e depois discutíamos sobre a mesma. Fomos à shows, bares, festivais. Seguíamos alguns compositores com fidelidade, e onde estivesse Isabella, Ana, Bethânia, Vercilo, Marisa, Djavan, lá estávamos nós. Adorávamos as letras de Chico Buarque, contudo, não gostávamos da sua voz.
Sempre concordamos que o paulista, nasceu pra compor, não cantar. Nosso laço de amizade parecia crescer ao mesmo tempo em que surgiam novos cantores. O assunto nunca morria.
Tínhamos uma afinidade que ultrapassava a paixão musical. Gostávamos do que era bom, do que dava prazer. Coincidentemente sempre acabava em música.
O tempo passou, mais canções surgiram, as obrigações e relacionamentos distanciaram as conversas, os encontros, as críticas, opiniões.
Dia desses o celular tocou, a mesma voz baixa, calma, daquelas que se compreende sílaba por sílaba, parecia triste, inconsolada:
- Oi? Liguei o rádio e acabei de ouvir "Canção para um grande amor", lembrei de você.
- Ah foi? E se não tivesses escutado, jamais lembrarias?
- Não se engane! Essa música não sai da minha cabeça...
A mesma canção que legendava a foto com o violão naquele dia, agora se encarregava de nos reaproximar.
Como se algo tivese faltando , como se quisesse nos lembrar que ainda havia assunto a ser discutido...