Em um determinado momento, no passado remoto, Wiracocha, o Deus supremo, decidiu criar o mundo. Antes de criar a luz, criou mares, terras, plantas e animais – dando a um grupo de gigantes a incumbência de se multiplicar e de trabalhar o planeta a seu favor.
Incapazes de executar a tarefa, os gigantes decepcionaram Wiracocha que, logo em seguida, os transformou em pedra, apagando a espécie inteira da esfera existencial. (Curiosamente, grandes estátuas de pedra podem ser encontradas, hoje, no norte da Bolívia.)
Tomando um rumo diferente, Wiracocha fez emergir do Lago Titicaca o Sol e a Lua. Originalmente, aliás, a Lua era mais brilhante do que o Sol – até que este, invejoso, lançou nela as suas chamas e apagou a sua luz.
Depois do Sol e da Lua, Wiracocha criou homens de menor estatura – os humanos – e os espalhou pelos quarto cantos do mundo.
De uma caverna, ele fez emergir 8 irmãos e irmãs, dando a eles a incumbência de localizar o lugar ideal para fundar o maior império da Terra.
Caminhando pelo mundo, uma das irmãs – Pachamama – achou um vale e, lá, fincou o seu cajado e declarou que este seria o lugar mais fértil do planeta.

Um outro irmão, andando pelos arredores do vale, agachou-se e transformou-se em pedra – não sem antes declarar que ali era o centro do mundo (ou Tahuantisuyu), ponto a partir do qual o grande império deveria surgir.
Finalmente, coube a um outro irmão – Manco Capac – efetivamente expulsar os que então habitavam o local e criar a capital do império.
O vale fértil é conhecido, hoje, como Vale Sagrado; Pachamama é a Deusa da Terra, até hoje venerada por boa parte do povo peruano; Manco Capac, parente do Sol e da Lua, um dos filhos diretos de Wiracocha, o Deus Supremo, foi o primeiro imperador Inca; e a cidade que ele fundou foi Cusco, um dos centros mais míticos do planeta.

Esta é, hoje, a única história existente sobre o começo dos Incas. Visitar o Peru – destacando, claro, Cusco e Machu Picchu – é o mesmo que sair do mundo moderno, científico, e mergulhar em um tempo em que o tempo não existia; em que os mitos eram a explicação mais lógica de todas; em contextos que misturam o real à fantasia sem que uma fronteira clara entre ambos seja sequer rascunhada.
Os Incas não tinham nenhuma tradição escrita – toda a sua história era contada de forma oral, facilitando o surgimento de mitos e lendas. A única coisa que eles tinham de diferente das vozes era o Quipu – um complicado instrumento feito por cordas coloridas e nós que, quando interpretado, conseguia “contar” pequenas histórias e guardar números (como dívidas, por exemplo).

Eles também não tinham o conceito de dinheiro. Os súditos pagavam ao império de forma direta, em mão de obra. Para manter as suas terras, por exemplo, um agricultor destinava algo como um mês inteiro de colheita ao império.
Ainda assim, mesmo sem dois dos mais básicos elementos sociais – a escrita e a moeda – os Incas conseguiram crescer e dominar cerca de 1,8 millhão de quilômetros quadrados e submeter ao império uma população de mais de 12 milhões de pessoas, de Quito, no Ecuador, aos arredores de Santiago, no Chile.
Isso tudo em um espaço curtíssimo de tempo. De Manco Capac, primeiro imperador Inca, até Atahualpa, líder sequestrado e executado por Francisco Pizarro, transcorreram-se apenas 13 ou 14 gerações e cerca de 200 anos.
Aliás, verdade seja dita, a expansão Inca começou, de fato, apenas com o nono imperador – Pachacutec, o mais venerado de todos. Foi este quem mandou reconstruir Cusco, dando à cidade ares mais soberbos e dignos de um império; que reformou o Templo do Sol (Qoricancha, atualmente no centro de Cusco), transformando-o em um gigantesco centro religioso – maior que as maiores catedrais européias; quem mandou construir Saqsayhuaman, uma fortaleza militar sem precedentes, que vigiava a cidade e tinha a missão de defendê-la de eventuais invasores; e que mandou construir, como uma espécie de vila particular, a lendária Machu Picchu.
Enquanto o império Inca se desenvolvia, eles foram dominando técnicas para se trabalhar ouro (que consideravam o suor do Sol) e prata (as lágrimas da lua).

Em paralelo, desenvolveram uma técnica de se trabalhar pedras de forma impressionante e com uma sofisticação sem precedentes. Em uma região tão sujeita a terremotos, alias, a solidez das construções era fundamental para a sobrevivência.
Assim, os Incas faziam palácios, templos e casas com pedras que chegavam a pesar mais de 350 toneladas – mas que se encaixavam com uma perfeição absoluta. Segundo os espanhóis, nem mesmo a mais afiada das facas conseguia entrar mais que alguns parcos milímetros no “espaço” entre uma pedra e outra.

Rivalizando com a qualidade dos engenheiros, os astrônomos conseguiam prever, com exatidão, fenômenos naturais e os momentos mais adequados para se plantar e se colher. Em Machu Picchu, por exemplo, o Templo do Sol conta com janelas posicionadas de forma exata para permitir a entrada da luz nos solstícios de inverno e de verão.
Os cientistas, por outro lado, dominavam técnicas de plantio baseadas no conceito de micro-climas. Ou seja: ao transformar as encostas de montanhas em pequenos campos em forma de escada, eles sabiam exatamente que tipo de semente plantar em que nível, otimizando os resultados.

Com tanta superioridade, foi relativamente fácil para os Incas se expandir por toda a região. Na maior parte das vezes, aliás, eles nem precisavam guerrear e ganhavam pelo medo que impunham aos inimigos. Ou seja: para dominar uma tribo de 5.000 pessoas, eles entravam no seu território com um exército de 20 mil homens armados e bem treinados.
A maior parte dos inimigos simplesmente se rendia sem lançar nem ofensas verbais.
Os que insistiam em se defender, no entanto, eram duramente castigados: as mulheres grávidas tinhas seus fetos arrancados e enfocados pelos cordões umbilicais, os homens estripados e decapitados e muitas tribos eram simplesmente aniquiladas.
Em todos os casos, cada vitória era comemorada de forma exemplar: de volta a Cusco, os nobres derrotados eram deitados de forma enfileirada, cabeça a cabeça. Do fundo, surgia o imperador, que caminhava pisando sobre suas cabeças ao ser ovacionado pela multidão, até chegar ao seu palácio e iniciar as cerimônias. As múmias dos imperadores passados ficavam enfileiradas, como que brindando às vitórias e reforçando a grandiosidade da história Inca e mesclando passado e presente a uma ambiciosa expectativa de futuro.
Para garantir maior controle, as populações eram mudadas de lugar para evitar qualquer tipo de resistência organizada e propiciar o crescimento sustentável. Ou seja: ao dominar um povoado, os Incas espalhavam suas populações para outros territórios. Agricultores iam para locais com mais terras a serem cultivadas; trabalhadores de pedras para cidades que precisavam ser erguidas ou reerguidas; e assim por diante.
Os reis rivais, por outro lado, tinham a humilhação pública pós-derrota seguida por um tratamento nobre. Eles podiam permanecer como líderes em suas tribos – mas precisavam passar pelo menos um quarto do ano em Cusco, onde recebiam uma casa luxuosa e participavam na política. Com bom tratamento e alto status no maior império da região, poucos eram os que se interessavam por se rebelar.
Vale ressaltar também que Cusco era uma espécie de maquete do território Inca – um microcosmo geográfico. Líderes de tribos do nordeste moravam em casas no setor nordeste; de tribos do sul, no setor sul; e assim por diante, sempre seguindo escalas cuidadosamente calculadas.
Com tanta soficticação política, militar e social, é de se admirar como os Incas sucumbiram a um grupo de pouco menos de 200 espanhóis.
As explicações são diversas e complementares. Partem da mesma receita que fez o império funcionar – a dominação social de outros povos mantendo as hierarquias locais. Com a baixa nobreza e o povo descontente, foi relativamente fácil para Pizarro conseguir o apoio dos locais em troca de promessas de liberdade.
Em paralelo, os espanhóis chegaram no mesmo instante em que uma devastadora guerra sucessória pelo trono Inca havia terminado, com o imperador Atahualpa, então situado em Quito, derrotando o seu meio-irmão Huáscar. Com um império destroçado e liderado por um estranho que sequer conhecia Cusco, Pizarro conseguiu capturá-lo no norte do Peru (em Cajamarca) e executá-lo.
Finalmente, como os Incas consideravam o imperador um Deus, o aprisionamento de Atahualpa foi um duro golpe que os deixou completamente perdidos – abrindo caminho para uma completa dominação.
Todavia, os cusquenhos atuais, orgulhosos de sua herança indígena, não se consideram como derrotados. Para eles, a dominação espanhola foi algo passageiro, de menos de 3 séculos e que terminou com a sua expulsão no século XIX – na independência do Peru.
Uma viagem para Cusco e Machu Picchu inclui toda essa jornada – mítica e histórica, passando pela reverência ao poderio de um povo único, singular.
É mais – muito mais – do que ver ruínas perdidas por paisagens paradisíacas.
Conhecer o coração da civilização Inca é mergulhar em uma espécie de conto de fadas, em lendas com ares de fatos históricos, em um mundo diferente e que envolve o seu visitante de forma quase hipnótica.