
Nunca deixamos de notá-lo. Um pouco pela rotina que nos obrigava a passar por ele mas principalmente pela realidade engarrafada de nosso dia-a-dia que nos fazia passar alguns minutos em frente sua “casa”.
Morava na bifurcação entre as avenidas Dr. Arnaldo e Heitor Penteado, em baixo de uma lona azul presa entre a grade e a árvore que limitavam o pequeno gramado esboçando uma cabaninha.
Tantas eram as peculiaridades sobre aquela figura que acabou ganhando espaço em nossas conversas matinais e nos ajudando a desviar a atenção daquela enorme e diária fila de carro a nossa frente, nos convencendo até de que aquele nem era um problema assim tão grande.
Ganhou o apelido de Tiozinho.
“Olha o Tiozinho. Hoje ele tá barbudo.”
“Hoje ele ta atrasado, ainda não acordou.”
Chuva ou sol, dia ou noite, o Tiozinho estava sempre lá debaixo de seu teto azul e acompanhado de seu cachorro preto que tinha até coleira. Ambos dividiam os dois colchões que amenizavam a dureza daquela vida. Muitas vezes o Tiozinho chegava a deixar os colchões para o cachorro e se acomodava numa cadeira de madeira que completava o rascunho de conforto do qual os amigos desfrutavam. Percebíamos que estavam brigados quando o cachorro estava do lado de fora da cabaninha com cara de vítima. Mas durava pouco. Logo estavam grudados de novo.
Tiozinho era grande, meio gordo, cabelos e barba compridos, crespos e grisalhos, rosto vermelho. Usava roupas surradas e invariavelmente estava de chinelos.
“Nossa! Você viu as pernas dele como são inchadas? E parecem cada vez mais roxas!”
“Será que ele anda? Também com aquelas pernas! Pobre Tiozinho.”
“Quem será que cuida dele? Já percebeu que está sempre comendo alguma coisa?”
Observávamos. Formulávamos hipóteses mas nunca conseguimos saber qualquer verdade sobre o Tiozinho. Teria ele consciência da vida que levava? Como teria ido parar ali?
Chegamos a vê-lo de gravata. Um sinal sutil de que aquela não deve ter sido sua única realidade. E o filtro? Um dia apareceu um suporte de galão de água de 20 litros com o galão aberto em cima como que pretendendo armazenar água da chuva. Curioso. E triste. Certamente a presença do “filtro” era mais útil à lembrança, à fantasia do que à verdade... do que a verdade.
Os minutos costumeiramente monótonos enfrentados a 5 km/h entre a Av. Doutor Arnaldo e a Rua Oscar Freire foram menos sofridos graças ao Tiozinho. Nos acostumamos com sua figura trágica e engraçada, criamos um vínculo com sua curiosa e melancólica presença em nossas manhãs. Talvez por isso tenhamos sentido tanto aquele dia em que o Tiozinho não estava lá. Nem ele, nem seu cachorro. Só a cabaninha continuava lá intacta como que esperando seu proprietário voltar. E nada. Os dias foram passando nosso companheiro de manhãs engarrafadas e seu fiel companheiro não voltaram. Elaboramos dezenas de hipóteses sobre o misterioso desaparecimento mas dadas as condições de vida daqueles dois, no fundo, sabíamos o que havia acontecido.
Dias depois tudo desapareceu. A lona azul, os colchões, a cadeira e o “filtro”. E por muitos dias aquela espécie de praça sem graça permaneceu vazia.
A resposta veio após uma ou duas semanas:

Incrível!
No meio desta selva de medo e egoísmo os nossos não eram os únicos olhares que se voltavam para o Tiozinho. Senhor Dejair. Sabíamos até o nome dele agora. E do Kiko, seu cachorro que milagrosamente não havia ganhado um apelido nosso ainda. Pobre Kiko! Tinha perdido o amigo, mas ganhara uma casa. Duvido que teria escolhido esta troca.
Aquela boa alma pelo jeito não estava sozinha “Agradecemos a todos os amigos que tanto ajudaram”. E ainda tomaram o cuidado de nos informar. Nós que assistíamos à vida do Sr. Dejair sem nunca dedicarmos um segundo sequer para tentar ajudá-lo.
Não merecíamos estas respostas.
Mas eles nos deram muito mais do que merecíamos. Talvez para que parássemos de perguntar por ele, para que pudéssemos seguir nossas vidas enfrentando o silêncio dentro do carro ao passarmos em frente ao cantinho do Sr. Dejair, para que voltássemos a encarar o caminho agora muito mais longo até a Oscar Freire.
Para que deixássemos o Sr. Dejair descansar em paz.