São
momentos diferentes. Exposições diferentes. Descobriu estas diferenças assim –
de um golpe só.
A
cidade a encantava. Sempre que podia – viajava até lá. Os amigos achavam
absurdo. Onde já se viu. Gostar de uma confusão daquelas. Trânsito noite e dia.
Multidões a qualquer lugar que se vá. Sem falar nos riscos da urbanidade
caótica. Até da qualidade do ar criticavam. Não faltavam resmungos com um - deixa
disso.
Ela
até se divertia – com tanta advertência.
Não é bem assim. Tentava ao menos convencê-los do excesso da
temeridade. Não é bem assim. Repetia a
cada investida contra. Quando você se familiariza – passa a ser igual a
qualquer cidade. Mas com muitas vantagens. Não faltam ofertas – desde
restaurantes a cinemas e teatros. Sem falar nas livrarias. E nas opções de vida
noturna. Isso sem contar os tantos e tantos parques espalhados pela cidade.
E
a cada oportunidade – lá se ia avião adentro feliz que só ela - para a cidade
escolhida. E - reforçava para causar mais alvoroço – muito bem escolhida. Ria.
Lá
um dia a decisão se fez sozinha.
Atendeu
ao telefone. Uma doce e suave voz de uma possível mocinha - queria uma
confirmação. Uma gentileza de segurança. Estava em dúvida a gentil mocinha da
voz doce e suave. Alertava sobre passagens aéreas. Queria saber se fora ela
mesma a usuária de tantos vôos em tão pouco tempo para a citada cidade. A tal
cidade das vantagens.
Sim.
Procedia. Agradeceu os cuidados da empresa.
Ai
se deu conta – termo adequado este – de que estava vivendo no lá e cá com muita
frequência. E que gostava muito mais do lá do que do cá.
Lembrou
que sempre ficava doente na volta para o cá. E que a saúde era um primor na ida
para o lá. E o principal – e o princípio – eles já estavam morando lá. Tinham
saído do cá para completar a vida curricular – no lá.
Só
- ficara ela.
Entendeu.
Enfim – a decisão. E com a ajuda da doce e suave voz da possível mocinha. Vai
ver era um daqueles avisos que tanto se espera. Conveniente - ficou mística.
Aceitou de imediato.
Era
ir de uma vez para o lá. A saúde ficaria agradecida. Mesmo deixando a empresa
farmacêutica entristecida.
Eles
festejaram. Perfeito. Traçou a linha do pragmático. Quando. Onde. O por que já
sabia. Uma questão a menos.
Da
decisão em diante – foram surgindo aprendizados nunca antes imaginados. Igual a
um descobrimento. Afinal – procedia. Estava indo para uma nova terra. Podia
parecer nada além de um monte de malas e bagagens mudando de endereço. Mas não
é bem assim. E – não foi bem assim.
Primeiro
concluiu o de cá.
Encerrou
a atividade profissional - e tudo o mais que esta frase acarreta. Atitudes em
sequência. Encerrou local. Pagou impostos. Multas. Finalizou contas. Até se
assustou. Não sabia que fechar uma porta era protocolado. Agora já sabia - é.
Em
seguida – o pessoal. Liberou residência. Documentos de venda. De compra.
Comissões. Escolhas. Conferiu cheques. Contra cheques. A favor dos cheques. Nunca
fora tantas vezes aos Bancos. Nem nunca tantos passos percorreram a casa. Enfim
um deles falou- fico aqui. E ela concordou. Retirou os pés dela da casa. Chorou.
Depois
o afetivo. Despedidas dos amigos. Chás e cafés para dar uma formalização ao futuro
vínculo. Endereços eletrônicos e documentais trocados. Algumas poucas lágrimas.
Muitos elogiaram a coragem. Outros negaram a cumplicidade. Raros a entenderam. A
estes raros -agradeceu.
A
cada etapa vencida – uma celebração dos de lá. Os de cá já estavam se
desligando do processo. Algo tipo – se é assim que ela quer – que se vá. Sentiu
isso. A princípio ficou magoada. Depois compreendeu. Na realidade foram precisos
muitos anos para compreender. Mas compreendeu.
Toda
a organização de saída durou ao todo dois meses. Vividos dia a dia. Turno a
turno. Foi uma época de pouco sono. Pouca fome. Até pouco riso. Havia tanto a
resolver e decidir que de sono a riso – tudo ficou tratado como supérfluo. Ou usado
de forma bem econômica. De repente se viu poupando tudo. Estava frágil. Mesmo tendo sido uma deliberação própria –
reconhecia as perdas.
E
como num virar de página – saiu sozinha do cá e sozinha chegou no lá.
Mas
desta vez foi estranho. O olhar sobre a cidade – mudou. Ou a cidade mudou o olhar
sobre ela. Começou a entender e a desentender - na mesma proporção. Não há
confusão maior do que quando esta proporção se faz espelho.
Aí
foi a surpresa. E a conclusão. São
momentos diferentes. Exposições diferentes. Já
não era uma visitante descompromissada. Agora seria uma residente enraizada.
Tirou os óculos escuros. Desceu os vidros do taxi que a levava ao novo endereço.
Colocou os óculos de volta. Fechou os vidros.
Olhou
para frente. Não desviou o olhar para os lados. Seguiu reta nos pensamentos e
no fino tremor nas mãos.
Riu quando o pensamwnto veio. Culpa daquela possível mocinha com aquela voz doce e suave.
Acomodou-se melhor no banco. Dispôs de forma conveniente bolsas e sacolas que
escaparam da transportadora.
E disse algo tipo – vamos lá.
O
motorista que a conduzia traduziu como – anda mais rápido. E respondeu um pouco
sério – não tem como ir mais rápido. O trânsito está difícil – e é assim todos
os dias neste horário.
Era
o que precisava. Um equívoco de um habitante para se sentir chegando. Rapidamente
mudou o tal espelho das proporções. E foi se entendendo – muito mais do que se
desentendendo.
Olhou
em volta das ruas que passavam calmas pelo volante do motorista. Relaxou. Pensou
– cheguei. Estou – no agora cá.
Estava
feita a transferência.