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09.02.2010

Quando a decisão foi formalizada – saiu em busca de uma residência. Assim – minha residência no lá.

E iniciou a busca. A cidade oferecia muitas e muitas possibilidades de escolha. Uma discordância dos antagonistas era desnecessária. A cidade realmente era enorme.

Enfim. Mas teve uma atitude objetiva. Começou a localizar as preferências.

Ai a cidade ficou menor. Achou incrível. Até associou ao ritmo abstrato próprio da Vida. Vai ver é assim. Há um mundo vasto mundo até o instante da objetivação da preferência. Como uma tomada de consciência – pode-se assim até dizer. Aí o mundo encolhe. E as preferências emolduram o espaço de circulação em conjunto com o espaço das escolhas. Adorou.

Só não entendia como não tinha notado isso antes. Foi preciso até uma interdição dos pés e uma voz de uma possível mocinha para que a compreensão se efetivasse.  Diante de um espaço maior – visualizou o menor. Como se um espaço maior precisasse ser requisitado -  para expor o menor.

 Já descobriu outra das vantagens da cidade escolhida. Perfeito.

Mas - uma vez decidido o bairro - iniciou a busca. Tinha apenas uma semana para agilizar todo o processo. E considerou como provável. Viável. Possível. Coerente. Assim – todos estes termos foram associados. E deram o deferimento. Fica mais accessível quando assim se conclui. E assim concluiu. E assim conseguiu.

Ninguém acreditou. Mas justo lá onde todos são desconfiados dos habitantes da parte de cima do mapa. Você tem sorte.

Ria. Não existe sorte – era só o que respondia. E muitas vezes apenas escutava – e calava.

As Alamedas aonde iria se enraizar - eram lindas. Árvores enormes faziam a fronteira entre a calçada e o asfalto. Cumpriam as várias funções de uma árvore. Davam elegância. Colorido. Sombra e limites. Não dispensava nem o leve toque nostálgico de uma folhinha caída ao chão aqui ou ali. Também aprendera isso no instante da primeira olhada.

Os carros circulavam com alguma lentidão – sempre. Banquinhos nas portas das lojas – permitiam algum descanso aos mais afoitos nas compras. Lojas e prédios residenciais conviviam pacificamente.

As cafeterias e as mesinhas nas calçadas – acrescentavam cheiro e sabor às sacolas com nome e sobrenome impressos nos papéis.

Todas as idades circulavam em total e respeitosa democracia. Senhorinhas de bengala caminhavam ainda curiosas - apoiadas em braços contratados. Crianças em carrinhos expunham os pezinhos como forma de anúncio da anatomia recolhida. Jovens adolescentes destacavam a rebeldia nas roupas – mas em harmonia com cores e corpo. Alguns denunciavam a disfarçada solidão cuidando de enfeitados cachorrinhos. Grupos e pares dividiam os espaço por entre calçadas e sacolas.

Agora que a cidade começava a compor a vida dela – olhava despudoradamente.

Conferiu os dados. E lá estava o prédio anunciado. Foi uma decisão em cima da outra decisão. Quero este. É perfeito.   

Por muitos anos lembraria aquela primeira morada. Ou o olhar para aquela primeira morada.

O prédio era em tom vermelho-terra. Achou adequado desde a cor. Terra – firme - era o que mais desejava naquele período. Entrou. O saguão era lindo. Tapetes coloridos destacavam os móveis sofisticados. Sofás de couro marrom contrastavam com o verde intenso das folhagens vivas dispostas em grandes vasos. Belas telas decorativas recobriam as paredes brancas.

Isso sem falar no nome. Quase riu. Ela que sempre gostara de gregos e livros – iria morar num prédio que resumia os dois - nominalmente. Os gregos e os livros. E de cor vermelho-terra.

Continuou mística. Agora talvez menos conveniente e mais confiante. Devia ser o tal aviso que tantos brincavam a respeito.  O importante mesmo é ir juntando os sinais dentro da própria leitura de percurso. Como uma linha numa página interminável. Ou uma página com uma linha interminável.

Riu quando pensou nisso – no interminável. E completou. Tudo bem – enquanto coexistir páginas e linhas. Ou - a caneta ainda contiver tinta.

Da janela do apartamento viam-se árvores e árvores. Passarinhos festejavam a força da voz em contraponto com a estridência de alguma buzina mais temerosa. Alguns prédios comprimiam-se na área delimitada a eles.

Caminhou por quartos e salas. Percorreu os ambientes como uma criança faria - de olhos atentos e curiosos. Desta vez - recuperou os próprios passos por uma casa. Caminhou e se deliciou com o barulhinho dos pés sobre o piso de madeira.

O hiato entre as duas moradas a deixou com os pés em muitos lugares. No cá que virou lá. No lá que virou cá. No piso de avião. Nas calçadas. Nas ruas. Nos restaurantes. Nas lojas. Nas casas de amigos. Nos quartos de hotéis. Mas sem lugar algum que fosse dela mesma. Não era uma situação que a confortasse. Pensava na letra da canção e modificava. Um canto para chamar de seu.

E inegável – sentia falta dos objetos que representavam todo o percurso até ali. E - também como só uma criança faria – sentia piedade dos objetos encaixotados num árido guarda-móveis.

Estava com a sensibilidade recobrindo a pele. Até aquele instante.  Compreendeu o espaço. Fez uma decoração na imaginação. Colocou tudo em seu devido Lugar. Fechou os olhos – e se enxergou. E foi junto ao tal devido Lugar.

Olhou os pés. Deu uma sapateadinha de leve no piso. E feliz avisou – fico aqui. Sorriu.

postado por Lêda, às 14:04

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08.02.2010

São momentos diferentes. Exposições diferentes. Descobriu estas diferenças assim – de um golpe só.

A cidade a encantava. Sempre que podia – viajava até lá. Os amigos achavam absurdo. Onde já se viu. Gostar de uma confusão daquelas. Trânsito noite e dia. Multidões a qualquer lugar que se vá. Sem falar nos riscos da urbanidade caótica. Até da qualidade do ar criticavam. Não faltavam resmungos com um - deixa disso.

Ela até se divertia – com tanta advertência.  Não é bem assim. Tentava ao menos convencê-los do excesso da temeridade.  Não é bem assim. Repetia a cada investida contra. Quando você se familiariza – passa a ser igual a qualquer cidade. Mas com muitas vantagens. Não faltam ofertas – desde restaurantes a cinemas e teatros. Sem falar nas livrarias. E nas opções de vida noturna. Isso sem contar os tantos e tantos parques espalhados pela cidade.

E a cada oportunidade – lá se ia avião adentro feliz que só ela - para a cidade escolhida. E - reforçava para causar mais alvoroço – muito bem escolhida. Ria.

Lá um dia a decisão se fez sozinha.

Atendeu ao telefone. Uma doce e suave voz de uma possível mocinha - queria uma confirmação. Uma gentileza de segurança. Estava em dúvida a gentil mocinha da voz doce e suave. Alertava sobre passagens aéreas. Queria saber se fora ela mesma a usuária de tantos vôos em tão pouco tempo para a citada cidade. A tal cidade das vantagens.

Sim. Procedia. Agradeceu os cuidados da empresa.

Ai se deu conta – termo adequado este – de que estava vivendo no lá e cá com muita frequência. E que gostava muito mais do lá do que do cá.

Lembrou que sempre ficava doente na volta para o cá. E que a saúde era um primor na ida para o lá. E o principal – e o princípio – eles já estavam morando lá. Tinham saído do cá para completar a vida curricular – no lá.

Só - ficara ela.

Entendeu. Enfim – a decisão. E com a ajuda da doce e suave voz da possível mocinha. Vai ver era um daqueles avisos que tanto se espera. Conveniente - ficou mística. Aceitou de imediato.

Era ir de uma vez para o lá. A saúde ficaria agradecida. Mesmo deixando a empresa farmacêutica entristecida.

Eles festejaram. Perfeito. Traçou a linha do pragmático. Quando. Onde. O por que já sabia. Uma questão a menos.  

Da decisão em diante – foram surgindo aprendizados nunca antes imaginados. Igual a um descobrimento. Afinal – procedia. Estava indo para uma nova terra. Podia parecer nada além de um monte de malas e bagagens mudando de endereço. Mas não é bem assim. E – não foi bem assim.

Primeiro concluiu o de cá.

Encerrou a atividade profissional - e tudo o mais que esta frase acarreta. Atitudes em sequência. Encerrou local. Pagou impostos. Multas. Finalizou contas. Até se assustou. Não sabia que fechar uma porta era protocolado. Agora já sabia - é.

Em seguida – o pessoal. Liberou residência. Documentos de venda. De compra. Comissões. Escolhas. Conferiu cheques. Contra cheques. A favor dos cheques. Nunca fora tantas vezes aos Bancos. Nem nunca tantos passos percorreram a casa. Enfim um deles falou- fico aqui. E ela concordou. Retirou os pés dela da casa. Chorou.

Depois o afetivo. Despedidas dos amigos. Chás e cafés para dar uma formalização ao futuro vínculo. Endereços eletrônicos e documentais trocados. Algumas poucas lágrimas. Muitos elogiaram a coragem. Outros negaram a cumplicidade. Raros a entenderam. A estes raros -agradeceu.

A cada etapa vencida – uma celebração dos de lá. Os de cá já estavam se desligando do processo. Algo tipo – se é assim que ela quer – que se vá. Sentiu isso. A princípio ficou magoada. Depois compreendeu. Na realidade foram precisos muitos anos para compreender. Mas compreendeu.

Toda a organização de saída durou ao todo dois meses. Vividos dia a dia. Turno a turno. Foi uma época de pouco sono. Pouca fome. Até pouco riso. Havia tanto a resolver e decidir que de sono a riso – tudo ficou tratado como supérfluo. Ou usado de forma bem econômica. De repente se viu poupando tudo. Estava frágil.  Mesmo tendo sido uma deliberação própria – reconhecia as perdas.

E como num virar de página – saiu sozinha do cá e sozinha chegou no lá.

Mas desta vez foi estranho. O olhar sobre a cidade – mudou. Ou a cidade mudou o olhar sobre ela. Começou a entender e a desentender - na mesma proporção. Não há confusão maior do que quando esta proporção se faz espelho.

Aí foi a surpresa. E a conclusão. São momentos diferentes. Exposições diferentes. Já não era uma visitante descompromissada. Agora seria uma residente enraizada. Tirou os óculos escuros. Desceu os vidros do taxi que a levava ao novo endereço. Colocou os óculos de volta. Fechou os vidros.

Olhou para frente. Não desviou o olhar para os lados. Seguiu reta nos pensamentos e no fino tremor nas mãos.

Riu quando o pensamwnto veio. Culpa daquela possível mocinha com aquela voz doce e suave. Acomodou-se melhor no banco. Dispôs de forma conveniente bolsas e sacolas que escaparam da transportadora.

E disse algo tipo – vamos lá.

O motorista que a conduzia traduziu como – anda mais rápido. E respondeu um pouco sério – não tem como ir mais rápido. O trânsito está difícil – e é assim todos os dias neste horário.

Era o que precisava. Um equívoco de um habitante para se sentir chegando. Rapidamente mudou o tal espelho das proporções. E foi se entendendo – muito mais do que se desentendendo.

Olhou em volta das ruas que passavam calmas pelo volante do motorista. Relaxou. Pensou – cheguei. Estou – no agora cá.

Estava feita a transferência.

postado por Lêda, às 18:00

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06.02.2010
O dia amanheceu azul. Azul. Há tanto tempo não via esta tonalidade.  E assim. Expandida. Envolvente. Coisa mais linda está o céu. O calor arrasta com ele uma brisa quente e adocicada. O branco dos prédios avança e destaca os limites entre o abstrato e o concreto.

Que maravilha. Ainda bem que hoje é o dia dito inútil.

Não faltam planos. Como um plano de teatro. Vou até dividir em atos. Cena um - cena dois. Nem sei bem quantas cenas numerei. Isso sem falar nos atos. Daria gosto até para um inglês.  Ele ficaria encantado.

Enfim. Vamos cuidar de acertar os tempos. Não tem planos sem tempos certos. E o tempo errado tem que ser banido para que os atos se façam fatos. Isso já é quase uma evidência.

Estou adorando esta minha fase coerente. Deve ser este encontro repentino com o azul. Vai ver a cor cinza obstrui a imaginação. Ao menos a minha.

Melhor já por as idéias em prática.

E bem devagar para que ele não se assuste. Nada de gestos bruscos e impensados. Não é de boa valia já amanhecer pedindo desculpas. Imagina num dia de céu azul – já ir cometendo desatinos e causando sustos. Nem pensar.

Cortinas abertas - lá está o terraço. Já fui pulando a retina do piso para a piscina. Estou mesmo inspirada. Até rima estou fazendo. Melhor não rir. Melhor fazer o que tem que ser feito. E com vagar. Pressa já basta a dos dias úteis.

Não acredito. O telefone tinha que se manifestar justo agora.

Sim. Perfeito. Confere. Mas tem ninguém com esse nome aqui. Desculpa – mas não tem. Nunca. Nunca ouvi falar. Sim. Já disse que confere. Mas só o numero – não o nome.

Ainda bem que desligou. Agora deixa-me voltar á minha retina acrobática. Lindo. Está tudo lindo.

Melhor passar para o ato dois. Ou cena dois. Bem – não importa. Deixa a dramaturgia de lado.  Agora é cuidar de me expor ao Sol. Faz tempo que isso não acontece. E dizem que sorrir para o Sol faz bem. Vou gargalhar ao Sol. Deverá fazer ótimo. Excelente.

Tomara que aqueles vizinhos da frente se esqueçam de mim. Afinal se me notarem com os dentes em situação de bronzeamento – podem achar que preciso de ajuda. Nunca se sabe quando alguém resolve ser amigo da comunidade em volta. Vai lá que justo hoje se preocupam com o bem-estar do próximo.

E o próximo poderei ser bem eu mesma e meus dentinhos expostos. Vou ficar num cantinho da parede. É mais recatado. E prudente.

Ainda bem que ele ainda está dormindo. E também que não sabe ler pensamento. Ia se preocupar com esta minha fase operacional.

Enfim. Tive mais uma idéia. Depois da pele e dentes ao sol vou fazer uma rodada fora-de-rotina. Vou caminhar na esteira.

Também há tempos que não faço esta atividade. Lembrei dele. Na época que eu fazia ele ria. Dizia que eu caminhava e suava e não saia do lugar. Nem do Lugar. Naquela época até vendi a tal esteira. Não vendi. Dei de presente a ela. Ela adorou. E disse que preferia assim. Caminhar sem sair do lugar e ficar em forma. Perfeito. Mandei entregar lá no dia seguinte.

E mudei de lugar. E de Lugar.

E agora recebo outra de presente. Incrível. Me lembrou o tal efeito bumerangue. Mas vou caminhar sem sair do lugar. Agora já não preciso mais provar que posso sair. Ou que quero sair. Quando quiser – posso.  Com esteira rolante ou não. Mais ou menos assim. Nada mais de angústias existenciais. Alguma utilidade tem mesmo que ter os anos que passam – além de causar rugas.

Rugas. É verdade. Deve estar já no tempo de sair. Afinal meu rosto já começou a doer. Esta novidade de bronzear dentes é bem desconfortável. Melhor dar a tal caminhadinha na esteira e ver o que ele gostaria de fazer.

Ele está mais calado. Também pudera. Falo mais que o noticiário sobre a chuva. Só faltam imagens. Por que falar – falo mesmo. E depois comento que ele está calado. Até ri agora. Mas ele sempre repete – adoro quando você fala. Daí eu me espalho.

Imagina se ele me visse aqui com os dentes ao Sol. Ia ficar mudo de um golpe só. Melhor entrar e parar com esta bobagem heliofílica. Não falei. Hoje estou mesmo inspirada. E depois do aquecimento cerebral deve melhorar ainda mais. Melhorar. Nem pensei – piorar.

De novo o telefone. Mas justo na hora do meu Sol. E da minha esteira. Mas vamos lá. Senão acaba acordando a ele. Quem quis madrugada ensolarada fui eu. Ele bem que quer dormir bem sossegado.

Sim. Perfeito. Confere. Mas tem ninguém com esse nome aqui. Desculpa – mas não tem. Nunca. Nunca ouvi falar. Sim. Já disse que confere. Mas só o numero – não o nome. Esta já é a segunda vez. Vou começar a cobrar informação.

Nossa. Que nervosa. Tem gente que não sabe mesmo adorar o Sol. E vem incomodar a quem sabe. Pior que não entende de Sol - nem de nomes.

Que bom que acordou. Sim. Um dia lindo. Ótima idéia. Adorei. Vamos sim. Eu estava mesmo com muita vontade de assistir. Depois do sol e céu – é seguir numa terceira dimensão. Nunca imaginei que teria um sábado tão carregado de cores e opções.

Vou descer para me arrumar.

Não sei se faz bem aos dentes – mas acho que o Sol gostou.  Do tanto que sorri para ele. Está fazendo do meu sábado um verdadeiro avatar. Deixa para lá. Não se preocupe – estou bem. Estou ótima. Depois explico.

Vamos logo para não perdermos a sessão por ingressos esgotados.

 

postado por Lêda, às 21:51

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05.02.2010

O dia estava nublado. Uma sensação morna cercava o ambiente. O trânsito não se decidia. Nem parava de uma vez – nem seguia o proposto.

Dentro dos carros um teatro se cumpria. Cada um expunha o estilo e a tensão – ou a emoção. Mesmo sob a proteção da suposta invisibilidade pela penumbra anexada aos vidros – dava-se para compreender um pouco dos anseios e temores de cada um.

Os mais agarrados ao tempo – buzinavam ou gesticulavam dentro dos seus carros. Um ou outro conversava ao telefone – olhando cuidadosos para os lados. Temiam as punições sob forma de multa. Uma moça chorava com alguma discrição. Limpava as lágrimas com suavidade – repetidamente – enquanto ele lhe falava no que parecia em tom alterado – digamos assim. Às lágrimas dela se somavam um bater da mão dele no volante. Um senhor do carro mais atrás tomava o remédio ali mesmo. Com água e comprimidos dava inicio ao que deveria ser um dia já comum.

Na rua muitos se aproveitavam da lentidão para mudar - de um lado para o outro. Mulheres equilibradas em saltos altos atravessavam num ballet em zig-zag - quase lúdico.

Assim estava o dia. Como um começo de dia útil em nada diferia dos dias anteriores. E provavelmente também dos dias posteriores. Era a rotina de uma cidade que obedecia aos comandos da produtividade.

Com o trânsito em definitivo parado – olhei para a calçada.

Eram três. Caminhavam em passinhos mais contidos e todos se tocavam. Como numa filinha.

Ele mais á frente - guiava aos dois.

Ela – uma mulher jovem – ficava logo atrás dele. Com uma mão tocava-lhe o braço. Com a outra obedecia à bengala.  Falava e ria. Parecia tranqüila e adaptada. Como se dentro do que via – tivesse muito a narrar. Estava bem arrumada. Os cabelos longos caiam nas costas com displicência. Magra e alta - usava uma saia com tom festivo e em combinação com a blusa – já mais recatada nas nuances. Caminhava com determinação. Já até se duvidava de quem orientava a quem. E a bengala seguia rápida nas pedrinhas da calçada. Sorria a cada fim de fala – como se o riso fosse uma pontuação.

Ele – um homem também jovem - segurava o ombro dela. As mãos meio que crispadas apertavam a blusa dela e a desalinhava. A bengala parecia trêmula. E ele tinha no rosto uma expressão de muito temor. Estava muito assustado. Os cabelos negros estavam despenteados. O rosto suado aumentava a impressão de angústia. Caminhava inseguro. Com passos muito curtos. O direita e esquerda da bengala se repetiam com rapidez da insegurança. Agia como se numa noite iluminada – de repente faltasse a luz. E não soubesse ainda de cor os caminhos por onde seguir. Era o que parecia. Não falava. Não sorria. Caminhava completamente alheio à conversa dos dois à sua frente. Parecia querer voltar para o lugar de onde saíra.

Ele que guiava aos dois parecia bem experiente na função. Caminhava com um passo ritmado. Nem adiantava – nem atrasava. Olhava para ele de vez em quando. E respondia ao que ela falava. Vez ou outra parecia fazer alguma sinalização de alerta – por que ela parava de falar e controlava a bengala. E ele apertava mais forte a blusa dela – e parecia ficar ainda mais assustado.

Assim seguiam os três. Alheios ao trânsito e ao barulho de buzinas e vozes. Pareciam tão dentro deles – como se a falta das luzes e cores possibilitasse que cada um recriasse seu próprio trânsito.

E os que estavam dentro dos carros – pareciam mais alheios ainda aos que prosseguiam seus percursos pelas calçadas.

Foi num instante. Surgiu uma diferença. Provocou uma emoção. Como um corte no tempo. E em especial no espaço.

Ela veio do lado oposto para onde eles iam. Caminhava com decisão. Pisava forte. Saltos altos. Elegante. Cabelos curtos e bem cuidados. Séria mas com expressão de quem sabe bem aonde vai e por que vai.

Passou por eles. Pelos três. Ele na frente - que guiava. Ela atrás - que falava e ria. E ele com a mão apertando a blusa dela - e mais tenso a cada passo.

Assim. Ela passou. Cega de todos eles.

Ele se virou. Fez uma inspiração forte. Até os ombros se ergueram. E por um momento a blusa dela que sofria apertada – se fez mais solta. E o lá e cá da bengala – se fez mais livre. Seguiu o passar dela pelo perfume. E pelo perfume se virou na direção certa.

Quando retornou ao caminho que antes seguia – pareceu mais calmo. Dava para notar – os ombros ficaram um pouco firmes. Os dedos relaxaram e apenas tocaram o ombro dela. E assim a mão soltou um pouco a blusa. Todo o gestual dele sugeriu um ânimo súbito. Assim. Como se uma magia fosse. O que guiava deve ter percebido algo. Olhou para ele algumas vezes. Mas pareceu não comentar. Vai ver atribuiu ao estilo de guiar - a súbita tranquilidade do guiado.

Ele seguiu com os ombros firmes. Ela com as falas e os risos. Ele com a orientação cuidadosa aos dois. Ela passou com o perfume e saltos altos – e sumiu numa dobra de esquina.

O trânsito acelerou. Todos prosseguiram. O ballet do zig-zag na frente dos carros foi interrompido.

Por certo cada um – dentro de si mesmo – construirá o próprio relato ao final do dia. Com as cores e odores - muito mais internas do que externas.

E entenderão as muitas bengalas - reais e imaginárias - que os ampararam no decorrer do dia.


postado por Lêda, às 13:08

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04.02.2010

Abriu a porta e lá estava ele. Sorrindo. Feliz. Trazia os livros nas mãos. E se apresentou pelas capas do livro dela. Como um privilégio. Um orgulho. Ela sorriu. Sentiu-se imensamente gratificada.  Prometeu a si mesma e exigiu da memória – nunca mais esta cena será esquecida. E combinado é confirmado. Que se resolvam os mistérios da mente – não importa. Importa a obediência a esta ordem.

O dia era uma data especial. Mais uma vez o Universo se fez cúmplice. Juntou o que passou com o que chegou em uma tela só. Uniu o inaugural ao resolvido. E um tempo único entrou em acordo.  Comemorava-se o físico e o espírito resgatados. E ambos sãos e salvos. Até riu.

Um encontro foi agendado – um horário definido. Sobravam bons motivos.  

Uma data importante para ser re - marcada. Esta idéia já fora decidida pela manhã. O dia seguira a rotina – mas com um sabor especial. Como um dia especial.

Pode-se até lembrar as dores e dissabores. Ou os temores e tremores. Pode-se descrever as emoções. Ou as aflições. Procede. Mas é quando as lembranças chegam – que se tem a certeza de que o passado foi se colocar no devido lugar. Se convocado a prestar algum depoimento – cumprida a função narrativa – retira-se. Deixando para o presente a condução da sequência escolhida. Perfeito.

Lembrou do filósofo santo. E santo filósofo. Não há passado nem futuro. Só o presente se faz existir. Nunca entendeu tão bem. Muitas vezes a filosofia vem muito mais nomear e nominar do que explicar. Explicação é o estofo de ordens. Elas sim – carecem sempre de explicação.

As emoções cabem em verbetes. E mesmo que isolados – fazem a tradução perfeita.

Alegria. Este o verbete da noite.

Foi o que todos sentiram no encontro. E cada um falou de si pelas metáforas. Pelas verdades. Até pelos pudores e risos. Como sempre acontece em todas as reuniões onde a familiaridade faz destaque - não importa o estilo. Muito menos a dosagem. Cada um mais sabe do outro do que de si mesmo. Eis porque as trocas se fazem constantes.

Ela feliz percurso coerente que o tempo trouxe - portava o livro publicado como se anatômico fosse. Mais que um apêndice – o livro parecia representar as mãos dela.

Ela falava de horário. De cansaço. Festejava o novo acesso profissional. Mas não escondia todo um processo de tensão associado. Até tentava negar – mas existem as expressões faciais. Vão se opondo sem recato ao texto protocolar.

Ele saboreava o alivio. A dor se fora. As marcas no corpo repetiam o pensamento do poeta indiano. Lembravam a dor - mas principalmente - lembravam a cura. E muito tinha se apagado daquele tempo.

Ele dedicado e solidário – festejava o festejo de todos e guardava para si as preocupações do dia de forte rotina. A imagem ficava em destaque e a timidez de censora.

Desta vez eram os cinco. Ele estava viajando. Ela representava - dois. Sozinha e cúmplice dos festejos – lá também celebrava. Não faltaram chistes ou pequenas provocações. Vai lá saber onde ele está a esta hora. Ria no estilo confiante-de-olhos-bem-abertos.

Entre a vida e a Vida – há este ato maravilhoso de celebrar o passar dos dias.

Enfim. Diante da mesa posta e diante de tanto riso e festa – acaba-se por entender os caminhos que viram atalhos e os atalhos que se integram aos caminhos.

Mas de repente toda a filosofia resumiu-se numa frase fundamental. Um convite – diga-se desta forma. Correto e coerente. Nada mais adequado ao festejo. Um acréscimo importante. Uma decisão de peso. Quase um júri e seu veredicto.

Entre risos e brindes - ela falou em alto e bom som. Do alto do seu lugar representativo de dois. Virou-se para ela que confundia as mãos com o livro publicado. Assim. Ergueu até as sobrancelhas. Um riso sutil enfeitou a expressão. E a voz saiu suave e firme.

Vamos dividir um Bolinho de Estudante de sobremesa. Aqui eles fazem os bolinhos de estudante do mesmo jeito que lá de onde você veio. Bem sequinho e com canela e açúcar.

Estava estabelecido o selo da comemoração. Perfeito. Lembrou o pensamento anterior. Prometeu a si mesma e exigiu da memória – nunca mais esta cena será esquecida. E combinado é confirmado. Que se resolvam os mistérios da mente – não importa. Importa a obediência a esta ordem.

À alegria dos bons resultados – se somaram o sabor delicioso de um Bolinho de Estudante. Qual um banquete.  Delicioso.

Que venha o próximo ano.

 

postado por Lêda, às 13:19

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02.02.2010

Nunca pensou em formalizar esta frase. Justo ela que vive no ritmo do tempo certo. Não gosta de atrasos. Muito menos de adiantamentos desnecessários - se é que existe algum necessário.

Lembrou dele. Riu. Ele sempre faz a pergunta sobre a falsa retórica. Perfeito. Sábio.  O mundo seria bem mais adequado sem as desgastantes falsas retóricas.  

Aprendeu desde cedo a se fazer de algoz do relógio. Controla. Adivinha. E segue o cronometrado. Este talvez o termo mais certo. Cronometrado. A função profissional a auxiliou nesta decisão de vida. Não se pode acelerar. Nem retardar. Crescimento é crescimento. E baseado no tempo certo de cada um.

Mas não neste dia. Neste dia em especial acordou já comemorando o tempo que passou. Celebrando a sensação de ter passado rápido. E passado no sentido duplo que o termo impõe. Passado.

Acordou com este primeiro pensamento. Que bom que o tempo passou rápido.

A memória se fez presente. Tentou resgatar o já há tanto encerrado.

O telefonema no meio da tarde. Escuta o que laudaram em meu exame. O silêncio seguinte. E as mil possibilidades mais inventadas do que aventadas. Fortes na intenção. Frágeis na concepção. Exatamente como acontece em situações como aquela.

Nunca se imaginara tão criativa. Não faltaram risos informativos. Como um noticiário superficial. Algo tipo – chove lá fora. Mas o susto a fez se sentir num deserto. Como se jogada de repente numa paisagem árida. E totalmente solitária. Pediu socorro à fantasia. Imaginou árvores e frutos. Imaginou rios e peixes. Risos e festas. Mas só viu – nada. Naquele instante – assim se sentiu. Cega e diante do nada. Preferia ter ficado surda.

Agendamentos. Indicações. Local acertado. Hora exigida e combinada.

No ano seguinte – na mesma data – lá estavam rindo a caminho do mar. Numa noite onde a chuva se fez verdadeira. Nada mais de desertos. Risos no carro. Não estou enxergando. Melhor voltar. Melhor seguir. Errou a entrada. Melhor depois daquela curva adiante. Já estamos na metade da serra. Mais risos.

O restaurante - num píer mar adentro. Prefiro camarões. Prefiro peixe. Prefiro. Prefiro. E cada um destacava a sua decisão.

Então é assim que funciona. Escolha é sinal de continuidade e sintoma da sanidade. Ambas. Perfeito.

Por isso acordou nesta manhã assim. Pensando. Ainda bem que o tempo passou – rápido. Lá se vão dois anos.

Desceu as escadas rindo. Foi-se arrumar para a rotina. Em total sintonia com os bons resultados

A alegria extrapolou os limites. Ou o Tempo não gosta de piadinhas com ele. Vai lá saber. Foi organizando a saída na ordem habitual. Arrumou os objetos da função profissional. Entrou na cozinha meio que falando sozinha – mas não num deserto.  

Ato contínuo - derrubou o açúcar. Assim. No chão. Que pareceu até aumentar para deixá-lo á vontade. Todo o potinho. Não faltou cantinho sem açúcar. Nem ela foi econômica.  Com pés e pernas açucaradas – nada reclamou. Até desculpou – vai ver algo de doce vai acontecer.

Mas ainda tinha mais – virou-se de uma vez em busca de um paninho. Uma pazinha. Uma qualquer coisa. Quanto mais rápido – melhor.

E foi rápido mesmo. Lá se expôs o leite que estava contido no copo. E junto ao açúcar – fizeram uma parceria rebelde – no chão. Que mais uma vez os acolheu - agora com mais disponibilidade ainda.

Bela cena. Falou alto. E em alto e bom som.

Olhou para o relógio que da parede – tranquilo – cronometrava toda aquela confusão. Parecia tão superior aos acontecimentos. Pensaria com calma sobre isso - depois. O estilo superior de um relógio. Escreveria um texto com esse título. E o rechearia de observações quase científicas.

Por agora – precisava mesmo era correr.

Correu. Entre paninhos e água e rodo e vassouras – fez quase uma dança pagã. Não faltaram gestuais convocados e acrescidos aos já conhecidos.

Enfim – venceu. Procedia. Era justamente o dia que se comemoravam vitórias. Vários caminhos dos trilhos depois – lá estava sentadinha cumprindo o antigo juramento.

Eles telefonaram. Tivemos uma idéia. Ele também vai gostar. O dia de hoje celebra alegria e coragem - dele em especial. Vamos comemorar o naquele restaurante que todos gostamos tanto. Desta vez sem a travessia da serra. Mais perto de casa. Aliás – bem simbólico. Mais perto de casa. E o restaurante organizou o cardápio voltado à Rainha do dia de hoje – ou ao dia de hoje da Rainha. Perfeito. Vamos sim. E escapuliu um – Obá.

Riram. Estava re-marcada a data. Ainda bem.

Lembrou a cena da manhã. Pareceu tão lógica - olhando no logo depois. Não havia outra forma mais adequada para celebração. Como há muito não fazia – recordou o mestre austríaco.

Riu e olhou para o relógio. Continuava tranqüilo.

postado por Lêda, às 13:37

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31.01.2010




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Muitas vezes a emoção se sente em dificuldades. Delimitar os percursos e dentro deles o caminho escolhido – fica tão complicado quanto elaborar a frase adequada ao pensamento.

Assim foi. Assim é.

Durante três meses entrei na casa delas. Escutei as conversas. Fiz parte dos temores e conquistas. Confiei nas promessas e participei das dúvidas. Organizei armários. Separei correspondências.

Acreditei. Desacreditei. Sonhei.

Até me assustei. Quando elas vinham no meio da noite – a Racionalidade vinha junto.  Quando surgiam invasivas no caminho dos trilhos – a Memória se fazia impiedosamente requisitada. Ou em algum momento de lazer - a Ordem se recusava a mudar.

Mas fosse a que hora fosse – se fora do possível - a Paciência se fazia autoritária. Espera o dia amanhecer. Quando amanhecia – agora espera mais um pouco. As tarefas da rotina não podem ser canceladas. E até o momento de me reencontrar com elas e poder expô-las – todo um processo de calma e contenção já estava vivido até a quase exaustão.

Nunca fui tão obediente. Não me lembro de ter sido antes tão cautelosa.

Mas o convívio com elas e a composição de vida delas – assim o exigia. Como a Vida em si ou fora de si – a sabedoria deve estar nas dosagens e nas reservas.

Já me entendia tão familiarizada com a rotina delas que - ao colocar o ponto final – me senti em Estado de Despedida. Como se voltasse depois de uma viagem – para casa.

Elas já não mais precisam de mim. Ficam agora recriadas e recontadas – por outros olhares. E a cada novo olhar, a cada um que escute os segredinhos revelados nas entrelinhas da narrativa – uma roupagem nova as vestirá.

O acesso fica disponível no endereço abaixo. Como uma placa de aviso. Pode entrar. A casa é sua.

Objetivando: Os textos foram revisados e ampliados - inclusive com capítulo inédito. Caso queira encomendar o seu volume - click no link abaixo



Vitral - Compondo a Vida

postado por Lêda, às 14:09

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29.01.2010

Acordou de um pulo só.  Então era verdade. Já tinham se encerrado as férias. Tudo isso pensou enquanto tentava desligar o tal toque do – vamos logo. As mãos ainda se entendendo em férias – demoravam em encontrar o botão certo. E o aviso se repetia – firme em seu propósito.

Então é assim. Até as mãos têm memória.

Enfim conseguiu. Mas fez uma observação. Memória fraca essa das mãos. Pensou sem muito riso nem muita emoção.

Só pensou. O despertador avisava frio e calculista. Com a precisão tão eficiente que até margeava a crueldade. Acabou.  

Passara dez dias caminhando diante do mar. Em direção ao mar. Em volta do mar. Dentro do mar. O mundo ficou reduzido – ao mar.

Ficou surpresa com a fertilidade de idéias.  

Era acordar – e lá se vinham mil idéias. Escreveria sobre tantos assuntos. Os temas se misturavam. Sentia-se como se possuída por um encantamento - de palavras. Foi tão forte que teve que recorrer a um protocolo. E se delimitou. Até aqui sou eu. Daqui para lá são as idéias. Como uma fronteira para que perdidos e achados - não se fizessem sinônimos.

E seguia caminhando em silêncio em direção ao mar.

Perigosas são as caminhadas solitárias e silenciosas. Ficam preenchidas do - posso. Até do - sou. Ricas em espaço e seguras no sem rumo – e embriagadas de si mesmas - mais provocam do que realizam.

Eis o motivo do tal estabelecimento de fronteira. No início imaginou-se dona de tudo. Aos poucos foi se resignando por ter tão pouco. Oscilou até por entre a dúvida inglesa. Lembrou do risco que as idealizações causam. Foi-se desfazendo de imagens e se reconstruindo por limites geométricos – digamos assim.

Não era artista. Não sabia pintar. Não era poeta. Não sabia rimar. Não era atriz. Não sabia interpretar. Não era sequer atleta. Não sabia nadar.

Mas sabia caminhar e imaginar. E fazia isso muito bem – obrigada. Era a escritora e leitora de si mesma. Sem criticas. Sem pontuações. Sem regras ortográficas. Uma beleza.

Sentava diante do mar. Esticava pernas e braços quase desfazendo a lei rigorosa da anatomia. Libertava os cabelos. Sentia o vento úmido fazer a parceria com o corpo. E olhando para o mar – percorria mundos além da tal linha do horizonte.

Criou novas teorias cientificas - o calor faz acelerar as contrações cerebrais. Novas teorias sociais - o calor facilita os aglomerados apagando castas e raças. Novas teorias da inspiração - o calor estimula a sensibilidade pela pele exposta. Sem falar na teoria da sedução - o calor ensandece a circulação.

Até riu. Riu de si mesma e do olhar do outro.

Riu pelo olhar dela.

Numa dessas caminhadas - por ela passou uma senhora recatada e talvez pouco participativa nas teorias. Por cima da roupa – a tal senhora sem teorias - colocara uma blusinha com mangas compridas. Um sapato de salto alardeava a sua vinda nas pedrinhas da calçada. Cabelos presos mostravam alguma urgência na saída.

Era o oposto do dia. Desconsiderava - de uma passada só - o sol e o calor. Foi ai que se deu conta. Quando riu das teorias recém criadas e quase com registro em direitos autorais.

Caminhava e ria – sozinha. Ela a olhara - espantada. Procedia. Teve vontade de explicar – estou de férias diante do mar. Estou sofrendo um encantamento de palavras.

Mas nada falou - achou de pouca cautela. Melhor mesmo seguir o caminho junto com as tais palavras. Vai ver a tal senhora estava sob algum encantamento de atos. São misturas que não funcionam muito bem quando não há alguma intimidade. Melhor deixar cada uma com o próprio encantamento.

Ela passou. Olhou pra trás. Seguiu marcando a calçada com o som dos saltos. Até virar a esquina ainda escutava o caminhar dela.

 Foi como um desencantamento súbito. O contrário da estrelinha. Então já acabou. Sentiu-se igual à senhora do salto alardeante.  Igual a ela – parecia ter virado a esquina. E o som se encerrado.

Desceu as escadas. Retomou de onde tinha deixado.

Entrou no caminho dos trilhos. Lamentou a troca de sons. Nada mais de ondas. Agora só curvas e retas. Acomodou-se o melhor que pode.  Juntou a anatomia conforme originada. Sentiu-se destituída - das teorias. Leu o aglomerado - pelo avesso. Sentiu a pele - pelo encolher de si mesma. De sedução a contenção – e assim a circulação se fez resfriada.

Estava de volta ao tão já antigo combinado. Teve uma dúvida súbita. Assim. Nascida tão rápida quanto as teorias sob o sol. Estaria fechando ou abrindo as cortinas. Não teve tempo de finalizar tão delicada questão.

Ela entrou avisando. Desde cedo estão todos aí. E sentiram sua falta.

Nada mais de cortinas. Muito menos de palcos. Deu uma rápida espiadinha pela janela – chovia forte.  Olhou para ela e concordou.

Que entre então o próximo. Sorriu.  



postado por Lêda, às 11:31

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16.10.2009

O almoço fora programado com antecedência. Os convites distribuídos em tempo dito hábil.  As agendas adequando-se a uma quebra da rotina.

Assim foi durante a semana. A comemoração antecipada visava uma homenagem. Aos que lá trabalham. Cumprindo suas funções. Minimizando dores. Provocando risos. Acalmando angústias. Acolhendo aflições.

 Sejam quais forem as incertezas. Partindo de onde partirem. Há toda uma metodologia para diminuir ou impedir sofrimentos.

 Um almoço comemorativo. Assim ficou acertado. Em tal dia. Em tal hora.

O salão foi aberto pontualmente. Como deve ser. Uma disciplina é sempre requerida. Seja no festejo. Seja no cotidiano. Não importa. Disciplina também é uma das formas de expor respeito. E dispor hierarquia. Enfim. Na hora exata - abriram o salão.

As mesas estavam lindas. Toalhas vermelhas sobre forro branco davam um brilho de alegria. As taças avisavam cores e sabores. Os mais próximos se agrupavam em volta de lugares escolhidos. O riso e o murmurinho lembravam que nem só de pão.

A camerata se postava em frente. E ao suave e doce som dos acordes – foi iniciado o ato festivo. E daqui e de lá se escutavam cumprimentos e confraternizações.

Convidado – ele subiu para o pronunciamento.

Lembrei dos milhares de discursos que já escutei. Das inúmeras falsas analogias e eufemismos que sempre os discursos carregam. E das muitas e muitas delongas que tanto desconfortam.

Mas não desta vez.

Assim começou. Com citação em Latim. Primo non nocere. Primeiro não prejudicar. Primeiro não ferir. A frase atribuída ao primeiro de todos – foi repetida diante de todos nós. Seguidores no juramento e no trabalho.

Foi um belo discurso. Adequado ao fato. Identificado com o ato. Qual um recordatório. Mas sem demandas.

Fiquei pensando na frase de abertura.

Nos que ali estavam. Ocupando e agilizando o próprio Lugar. E nos que já se foram. Mas que de vazio deixaram apenas o espaço. A memória preenche muitas falas. Como disse o poeta. Ressuscitar começa pela palavra – do outro. E ao escutar os nomes dos que se foram – senti uma presença não da matéria. Essa já não importa. Mas do contexto. Do trabalho exercido. Sem a nítida separação de dia e noite. De casa e trabalho. De segunda ou feriado.

Convocados em seus nomes – deixavam a força do seu profissionalismo exposto. Perfeito.   

Enfim. Passeei pelos caminhos das escolhas. Olhei para ela que estava ao meu lado. Vi que – emocionada com a escuta- disfarçava uma lágrima afoita.

As expressões mudavam. Cada um convivendo com o próprio registro.  Com a vocação descoberta sabe-se lá como. Por isso mesmo - misteriosa. Não há resposta satisfatória para quando alguém requer uma explicação objetiva. Um porque.

Não se sabe exatamente a época. Não se entende perfeitamente os motivos. Vai muito além do pragmático. E de repente a decisão surge. E uma elaboração prossegue. E todo um novo equilíbrio se faz necessário. Desde a primeira aula. Desde o primeiro aviso. Desde o primeiro morto que ensina.

E uma vez diante de quem pede alívio – nunca mais se desprende do ato em si.  

Lembrei de um comentário que ele me fez. Há muitos anos. Num daqueles dias de final exaustivo de trabalho que se ameaça um – para mim chega. Ri. Ele me viu organizando um jantar. Um simples jantar.

Olhou para mim. E muito sério falou. Ou, melhor, fez uma observação. Com tom de voz calma. Uma vez pertencente a esta categoria – jamais se libera. Você está arrumando um jantar. Mas não apenas organizando pratos e talheres. Você está organizando como quem cuida. É isso que faz de você – a sua escolha.

Lembro que fiquei em silêncio. Uma espécie de siga a seta. E me senti acalmada. E feliz.

Primeiro não ferir. Primeiro não prejudicar. Seja no que for. Seja da forma que for. Mas é preciso estar em estado de - para entender. Para introjetar. E acatar. Há todo um sentimento não esclarecido. Mas nem por isso menos estabelecido.

Aplaudi a fala do colega que discursou – com batimentos felizes de aurículas e ventrículos. E sinceras sístoles e diástoles.

Voltei na hora certa para cuidar da agenda. Subi rindo as escadas. Foi uma bela comemoração.

postado por Lêda, às 20:14

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12.10.2009

A decisão foi ótima. Sim. Café da manhã ao estilo oriental. Nada do habitual ocidental. Sem horários e sem tarefas. Maravilhoso. Um contraponto à realidade da rotina. Com o passaporte imaginário de turistas. Pelo menos esta a intenção.

Perfeito. Viva a Liberdade. E com a cidade esvaziada. Tudo bem mais fácil e bizarro. Como uma excursão dentro de casa. Mais ou menos assim. Vamos ver os contornos como dificilmente o fazemos. Rimos. A Filosofia realmente é dependente do nada-braçal. Assim ele arrematou o discurso.

Já acordamos comemorando a temperatura. Sem mangas compridas. Sem botas. Sem casacos. Uma verdadeira libertação. Ao menos de braços e pernas. Rimos e saímos.

Já na descida sentimos o ambiente modificado. A ladeira vazia. Só um ou outro passinho provocava eco. Muitas lojinhas abertas. Poucos visitantes lá dentro.

Descemos para o nosso percurso sobre trilhos.

Desta vez não estava lotado. Assentos vazios se dispunham como ofertas simbólicas. Em todos os espaços. Era um final de feriado prolongado. Por certo muitos haviam saído da cidade. Trocas se fizeram. Lotaram as estradas. Os aeroportos. Os caminhos de subida e descida. E deixaram os da rotina esvaziados. Procede.

Tudo se passou com a rapidez de um virar de cabeça. E invejei ferozmente os artistas plásticos. Um mínimo de dom. E poderia repassar toda uma emoção. Por que aquela composição merecia uma tela.  Até um óleo sobre tela.

Ela parecia bem envelhecida. Muito mais que a cronologia. Sentada - diante de si mesma. Uma sacola preta – parecendo pesada - estava aos pés dela. Talvez amparando mais do que amparada. Usava óculos de lentes mais espessas. Os cabelos iam até os ombros. Lisos. Desalinhados. Fios brancos cruzavam através de fios tingidos. Sem maquillage. Não parecia sofrer deste dito grande problema. A mal falada vaidade.

Vez ou outra arrumava a bolsa preta - também envelhecida – no colo. Desconfiada talvez do clima - portava um cachecol. Leve no tecido - mas pesado na cor. Azul escuro. Caia sobre uma blusa branca com botões pretos. A saia preta se unia ao preto gasto dos sapatos. Assim estava ela. Sentada.  

A expressão era misteriosa. Não sei se feliz. Se preocupada. Ou se até ausente em pensamento. Apenas estava sentada. E cuidava dos poucos pertences. Mas também de forma algo displicente. Não parecia cuidadosa. Nem consigo mesma. Nem com os objetos.

Ele estava sentadinho ao lado dela. Deveria ter talvez oito anos. Magrinho. Cabelos castanhos cortado bem curtinhos. Mas que não impedia que uma franjinha de raros fios lhe caísse pela testa. Talvez ainda não conhecesse a prudência da desconfiança. Estava com uma bermudinha vermelha. Uma camisetinha de mangas curtas branca. Um tênis. Meias curtas branquinhas.

Foi um instante especial.

Ele olhava em frente. Caladinho. Mas notei que ergueu um pouco os olhinhos. Como se uma lembrança boa o tivesse visitado. Um possível pensamento surpresa. Naquele especial instante.

Abriu mais os olhos. Acomodou-se melhor no assento. Virou-se para ela. Que continuava olhando para frente. Mesmo que na frente nada pudesse ver. Só uma janelinha que passeava pelo percurso escuro.

Mas ele a olhou. Deu um sorriso leve. Sorriso de criança. Feliz.

Passou o braço por dentro do braço dela. Se amparou um pouco. Fez uma expressão especial. Um sorriso. Um meio sorriso. Não sei. Como se a proteção do mundo estivesse definida. Ali. Com seu pequeno bracinho por entre o braço dela. Com a cabeça encostada nela. Numa diagonal de afeto encontrado.

De repente foi como se o mundo tivesse uma nova rotação. De paz. De tranqüilidade absoluta. De segurança. Impossível descrever em palavras uma emoção. Lembrei até o poeta. Ele estava certo. As verdadeiras emoções ocorrem em um terreno onde uma palavra jamais pisou.

Não sei se a palavra foi antes. Ou se viria depois. Ou se poderia ser dispensada. Nem importa.

Mas não lembro ter visto nada parecido. Com a expressão dele. Com o gesto do abraço lateral. Confiante no ombro certo. Sim. Tudo ali parecia certo. Perfeitamente certo.

E se há uma avaliação isenta de erros – é a avaliação da infância. Ao menos enquanto a infância é infância.

Ela parecia ter voltado. Olhou para ele. Deu um sorriso leve enquanto cedia o braço. E também se aconchegou. Já não dava mais para saber quem se sentia seguro com quem. De onde vinha o amparo.

Nossa parada chegou.  Antes da deles. Mas não resisti. Olhei para trás. Ela parecia rejuvenescida de repente. A atitude descuidada se modificara. Estava agora em parceria. Talvez assim reconhecida.

Sorri para ele. Que me devolveu o riso. Olhou mais uma vez para ela. Apertou mais ainda o braço. Parecia orgulhoso. E ela parecia feliz.

Desci dispensando o tal passaporte imaginário de turista. 

postado por Lêda, às 18:48

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11.10.2009

Ao final do dia - o cheiro invadiu a casa.

Lembrei do livro. O autor - já bem vivido - explicava. O paladar começa pelo nariz. Perfeito. Nunca li nada mais adequado. Nem importam os dados da Fisiologia. Ou da Anatomia. Muito mais vale a Filosofia. Não existe órgão do sentido excludente. Eis uma táctil e aromática verdade.

Já acordei assim. Como guiada pela manufatura. Ou pela ansiedade das mãos.

O dia amanhecera um pouco silencioso. Diante de um frio insistente em ficar. E de uma garoa persistente em desobedecer. Nada de espaço primaveril. Mas as estações devem ter lá um próprio manual de instruções. Que sigam - de acordo. E que nós daqui nos adaptemos – sem acordo.

Enfim esta não é a minha tarefa.

A minha daquele dia já havia sido definida. Há trinta e dois anos. Agora era uma questão apenas operacional.

E desde cedo comecei os preparativos. Mas não sem uma organização. Coloquei música. Em um sequência que surgiu de repente. Nada muito programado. Mas acatado. Como um ritual. Talvez seja assim a arte da manipulação dos alimentos. Muito mais que facas e pratinhos. Um ritual especial - por si só - se estabelece e se confirma. Alheios a nós. E tantas e tantas vezes sequer percebemos.

Desta vez foi especial. Fiz como que compactuando. Ao menos dentro do possível de uma racionalidade.

Corta. Amassa. Desfolha. Enfeita. Acrescenta. Separa. Destaca.

A música se fez sábia. Sim. Nada do que foi será igual ou do jeito que já foi um dia.

As mãos e ingredientes se fizeram um só. Difícil até saber quem comandava quem. Ou o que.

Mas lá fiquei. Entre músicas e memórias. E aí foi impossível não lembrar a minha avó. Ela repetia com muita segurança. Cozinhar e viver - é a arte de saber dosar, menina, cozinhar e viver - é a arte de saber dosar. Procede.

Corta. Amassa. Desfolha. Enfeita. Acrescenta. Separa. Destaca.

Olhei para o colorido dos ingredientes. Para a disposição deles em panelas e pratos. Parecia uma rosa dos ventos. Ri. Vai lá saber de onde saiu esta idéia. Vai ver foi da música que tocava. Amanheceu o espetáculo. Como uma chuva de pétalas. Ri e continuei dando toques e retoques. Afinal – não é só de boa intenção que sobrevive o paladar.

A esta altura já estava misturando mais ingredientes que os da realidade culinária. Tentei me acalmar. Deve ser assim que se cozinha. Uma pitada de história. Uma ponta de saudade. Um ramo de alegria. Uma colher de nostalgia. Uma dose de contradição. E por aí vai. O importante é estar em sincronia com o processo. Um erro em cada parceria – uma pitada que seja – e lá se vai o doce sabor do proposto.

E foi em meio a tantos rituais e conclusões – que ao final do dia - o cheiro invadiu a casa.

Delicado. Independente. Intenso. Surpreendente. Delicioso.

Saiu de dentro dos continenti e se espalhou. Pela cozinha. Pela sala. Por todas as varandas. Subiu as escadas. Passou pelo terraço. Mexeu com os deuses. Sorriu para o Banquete. E voltou – completo - para dentro de onde saíra.

Ao final da tarde – parei. O dia cabia dentro da noite que chegava.

Na cozinha os sinais de guerra estavam já apagados. Tudo parecia composto de magia. E não deixava de ser. Não havia sinal de ato braçal. E sim de ato manual. Pode parecer semelhante – mas não é.

Continuei. Agora caminhando e olhando em volta. Gostei do que vi. A mesa posta em tons suaves. Tudo em azul e branco. Num canto discreto orquídeas cor-de-rosa. Penduradinhas em seus cachos faziam o contraste mais belo. As taças altas pareciam sair de pedestais. A sala se enfeitava com efeitos múltiplos de um festejo conquistado.

A campainha tocou. Eles chegaram. Parecia até nome de filme. Seis à mesa. Ri. Os brindes foram feitos. Votos renovados. Fotos atualizadas.

A música continuou. Parceira simbólica dos gestos e falas. Godiamo, la tazza e il cantico la notte abbella e il riso.

Estava confirmada a comemoração. E já parte da história de todos nós.

postado por Lêda, às 19:47

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08.10.2009

Eis uma lição que não aprendia. Mesmo com a advertência da avó. Sempre tratava a véspera como se o dia marcado já fosse. Enfim – este o estilo dela. E algumas vezes - dava bem certo. Vai ver por isso persistia.

E desta vez não foi diferente. Lógico. Desde a véspera estava em torno do festejo.

Ontem. Tudo acontecera ontem.

Casualmente pudera sair mais cedo da atividade. E lá se foi bem feliz. Animada - até se diria.  Planejara com cuidado o trajeto. O meio para seguir o trajeto. Tudo bem adequado. O objetivo já estava definido.

A temperatura caiu. Estava com ares de primavera. Ela. Mas a temperatura não. O vento do inverno viera sabe-se lá de onde fazer parceria com uma consistente chuva.

Mas não se incomodou. Muitas vezes é bom caminhar no frio. E na chuva. Desdenhou e seguiu. Perfeito.

Lá chegou. Olhou. Virou. Mexeu. Rondou. Escolheu. Ou melhor - confirmou o que já havia escolhido há alguns meses.

Sim. Ele iria adorar. Eis mais uma certeza diante de si. Conhecia bem o jeito dele. Afinal ela o ensinara desde bem pequeno. Conforto em primeiro lugar. Para que os instantes de preguiça sejam bem tratados. São especiais esses instantes. E muitas vezes se esquece de agradá-los com o acolhimento que merecem.

Tudo muito bem. Resolvido. Restava apenas um detalhe. Mínimo. Aliás - de mínimo só o tal detalhe. Por que o presente não. Era grande. Poderia ser medido em cúbicos. E vinha dentro de uma linda – e enorme – sacola vermelha. De uma elegância de dar gosto. Mas este o detalhe mínimo que esquecera. Fora sobre trilhos.

Mas aguarda mais um. O próximo. Depois desse. Só mais uma chance. Algum deverá vir mais vazio. Eu e minhas ideias. Mas enfim. Somos mesmo uma boa dupla. Minhas ideias e eu. E lógico. Agarrada à minha bela sacola vermelha. Já somos quase um trio. Tudo bem que até lembra um trio carnavalesco. Bem que poderiam ter criado uma cor mais discreta. Um volume deste ficaria melhor num tom bege. Café com leite. Ocre. Sei lá. Mas usaram e abusaram da iluminação.

Foi pensando assim. Com muita calma e parcimônia – que deu certo. Conseguiu chegar de volta em casa. Com sua bela sacola vermelha. A esta altura – já do agrado.

Já estava quase acendendo as velinhas e comendo o bolo. Riu.

Sentou-se diante do excesso de rubro. E de repente não estava mais ali. Ela. Lembrou do dia. Daquele dia há trinta e dois anos.

Um dia mágico. Pela primeira vez saberia o que é este sentimento. Lembra de alguém lhe arrumando os cabelos. Pediu que fizessem uma trança. Os cabelos eram longos. Uma voz saltou rápida. Quase um grito. Não. Parem já. Trança não pode. Os índios dizem que não faz bem nesta situação. Não entendeu bem o que os índios faziam ali. Mas nem tentou questionar. Acatou. Acataram. Soltaram o trançado de imediato. E alguém lhe fez algo que deveria ser um-sei-lá-o-que.

E assim foi. Deitada na maca. Assustada. Mas feliz.

Escutou o primeiro tom de comunicação dele com o mundo. Um chorinho surgiu em meio aos movimentos de médicos e enfermeiras. E os fez parar e compartilhar da emoção.

Fixou em todos – sorrisos. Escutou algumas observações. Tudo bem. É perfeito. É lindo. Ele veio - com ele enroladinho. Ainda chorando. Colocou deitadinho sobre o tórax dela.

Olhou. Jamais esqueceria esta imagem. Jamais esqueceu.

Tocou na pele macia. Ainda úmida. Passou a mão pelos cabelinhos. Ele pareceu se aconchegar. E parou o chorinho. Um conhecimento e um reconhecimento se estabeleceram. De imediato. E para sempre.  

E entendeu o amor materno. Neste instante. Diante de alguns. Diante de si mesma. Dentro de uma sala gelada. Tremendo de frio. E de alegria. Uma emoção impossível de se transcrever. Uma emoção que tão-somente se inscreve. E dentro de cada um.

Chorou. Sentiu o coração bater mais forte.

Disse-lhe um bem vindo. Baixinho e emocionado. Eu amo você. De agora em diante não saberei mais o que é Vida sem você.

O telefone. Quase deu um pulo quando escutou o toque. O som a tirou de lá. E a trouxe de volta para cá. Não estava deitada na maca. Mas sentada no sofá da sala. E bem em frente - a sacola vermelha.

Mas sorriu ao escutar a voz. Era ele. Queria contar sobre a surpresa de um presente. Quase caíra de costas. Era o que queria. A cor era azul. E tinha uma lista branca na lateral. Por dentro bege. Bem esperto. Riram. Festejaram. Combinaram como seria o dia seguinte. Este sim. O dia exato.

Quando desligou continuou rindo. Lembrou uma frase muito comum. Mas nem por isso menos verdadeira. Simples e objetiva como toda sabedoria. Quem herda aos seus não degenera.

Lá estava ele comemorando também de véspera.  Perfeito.

postado por Lêda, às 19:54

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07.10.2009

Nunca saíra daquela pequena cidade. Nascera e se tornara adulta no mesmo bairro. Toda a vida circulara diante dos mesmos códigos.

O bairro onde nascera portava uma simbologia. Vinha de um tempo de escravos. Mas se chamava Liberdade. Havia música pelas esquinas. Havia danças. Rituais ecléticos preenchiam de esperanças os corações. A comida era vendida nas ruas – o que dava um cheiro peculiar.

Tudo funcionava como se fora um universo particular. Girando não sei se dentro ou fora – do universo social.

Ali fora alfabetizada. Orientada. Vinha de um núcleo familiar pequeno. Apenas mais uma irmã. Cedo conheceu o parceiro. Cedo casou. Mudaram-se com os poucos pertences e presentes para uma casa pequena. Próxima da família de ambos. E lá ficaram por toda a vida.

Um dia avisou. De um ímpeto só. Escolhera mais um outro futuro. Trabalharia na área da saúde. O marido se surpreendeu. Desde quando. Por que. Para que.  Melhor ficar a fazer o que tem em casa.

As perguntas foram muitas. As insinuações mais ainda. Desconsiderou uma por uma. Continuou apenas informando a composição da decisão.

Vai lá saber o que despertou nela. Nunca soube ao certo a causa. Mas lidou muito bem com as consequências.

Estudou com dificuldade. Precisava trabalhar para completar o curso. Precisava de livros. De roupas brancas. De material próprio. Mas na mesma proporção das dificuldades – encontrou soluções. Não tinha a quem solicitar. Se é assim – concluiu – solicito a mim mesma.  

Trabalhou. Noite e dia. Intercalando livros com cuidados da casa e do filho recém nascido. Amamentou com ele no colo e o livro na mesinha ao lado. Assim estudava. Lavou e passou roupa recitando nomes e técnicas de procedimentos.  

Decorou pequenas fórmulas. Revisou contas.  

Enfim concluiu o curso. Fez um concurso. Público. Aprovada- entrou para o seu primeiro emprego. Feliz. Conseguira.

E lá está há quarenta anos. Quarenta anos. Neste mesmo emprego. Sem faltas. Sem atrasos. Sem queixas. Muitos entraram e saíram. Muitos chefiaram. Muitos outros desistiram. Mas ela continuou. Decisão é parceira da existência. Uma vez conquistada – para sempre priorizada.    

O filho cresceu. O marido mais apressado - se foi numa noite depois de algum sofrimento. Cuidou dele até o final. Chorou. E foi guardando as lembranças nas dobras do lencinho.  

Assim poderia ser contada a vida dela. Desse jeito linear. Mas nem sempre a vida entende que pode assim ser vivida. E surge uma contramão aqui ou ali. Um desvio.

 De tanto cuidar – descuidou de si mesma. E o corpo não perdoa descuidos. Cobra. Aponta. Expõe.

Fez a cirurgia. Chorou quando lembrou o tempo que amamentava. Chorou pelo passado. Pelo presente. E pelas perdas. E duvidou – pela primeira vez - do futuro. E talvez pela primeira vez na vida toda – reclamou. Desaprovou.

Mas sabia fazer rimas. E continuou. Lutou.  

E durante essa poesia que inventou – surgiu uma oportunidade. Única. E para ela. Que nunca de lá saíra. Que nunca atravessara outros mares. Nem terras. Nem sotaques. Para ela o Mundo era muito maior que um globo. Ou um planeta. Era de uma imensidão que assustava. E quando pensava assim – segurava o portão da casa com força.

Mas recebeu um convite. Talvez até uma ordem. Vou mandar lhe buscar. Você ficará um mês aqui. Com todos nós. Desde que saímos daí sonhamos com esse dia.  Agora o dia chegou. Vai passear pela cidade. Vai descansar. Vai conhecer onde moramos. Vai escutar outros sons. Virá de avião. Nada de estrada.

Eis uma imagem inesquecível. Ela sozinha. Com uma roupa branca. Um casaquinho bege sobre os ombros. Uma pequena valise nas mãos. Um sorriso tão feliz que – incontido - saiu dela e iluminou todo o saguão.

Veio. Abraçou um por um que a aguardava. Escaparam lagriminhas emocionadas. E falou. Então é assim. Então estou aqui. E só demoraram duas horas e vinte minutos. Pensei que fosse tão longe.  

E o mês se fez alegre. Trocou de Liberdade. E celebrou também a nova. Fez-se de econômica a consumidora. De curiosa a integrada.

E como na Vida não existe Matemática nem lógica – quando retornou – repetiu os exames. Estava curada. Já não temia. Aprendera sobre distâncias e espaços. Sobre limites e infinitos.

E nunca mais segurou - assustada - o portão da casa com força.


postado por Lêda, às 21:55

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06.10.2009

Já estava pronta para sair. De repente notou uma luzinha vermelha. Piscando. Pela fresta da bolsa. Por certo um recadinho. Resolveu ler de uma vez.

Estava lá. Escrito. Hoje foi suspenso o atendimento. Teve um problema com os computadores. Uma falha técnica mais complicada. Outro com a luz. Não precisa vir. Será feito um re-agendamento parcializado.

Atendimento suspenso. Re-agendamento parcializado.  Achou o máximo. Comparou a uma figura de linguagem. Ou a uma obra literária.

Mas quase pulou. Primeiro de susto. Era a primeira vez na vida que fazia um pedido e acontecia. Literalmente. Inacreditável.

Acordara com sono. Como sempre. Daí pensou. Bem que hoje podia ser cancelado o atendimento.  E eu poderia dormir mais um pouco. Mas imagina. Se me aconteceria uma maravilha desta. Nunca. Acelerou e foi cuidar de obedecer as ordens do relógio. Cruel objeto. Pensou entre os dentes. Mas prosseguiu.

Mal acabou de ler o recadinho - se auto-conferiu.

Checou – estava viva.  Correu para um espelho. Deveria estar iluminada. Não estava. O espelho mostrou o habitual. Optou por reler o recadinho. Vai ver fora uma alucinação. Não foi. Lá estava.

 Que belo recadinho. Que lindíssimo texto. Desdenhou dos poetas. Nenhum faria uma composição tão emocionante quanto aquela. Riu. Riu de novo. Tudo bem. Pediu perdão aos poetas. Por precaução. Vai ver que os deuses que cuidem deles poderia se aborrecer. Não queria mais surpresas. Aquela estava já perfeita.

Pensou. Fosse a Idade Média e já sabia onde iria parar. Mas não era. Pelo menos a da cronologia da Humanidade. Idade Média só a dela. Particular. Riu dessa bobagem também.

Se primeiro quase pulou de susto – de segundo pulou de alegria.

Olhou para a bolsa com o material. Para os papéis. Para a roupa que vestia. Em especial para o relógio no braço. E se despediu. Deles. De todos estes – adereços.

Mas se o pedido foi atendido – a vontade vinculada foi descartada.

Que dormir que nada. O sono foi-se como mágica. Deveria ser isso. Era o Dia da Magia. Ela que não tinha conhecimento. Riu de si mesma de novo. Estava se sentindo já uma humorista. De primeira categoria.

Mas enfim – dormir seria desdenhar do pedido inicial. Jamais faria isso. Poderia ser visto como um menosprezo. Estava com muito zelo em relação aos deuses amigos. Mais uma vez riu.

Despiu-se da proposta inicial e vestiu-se da adquirida. Sim. Iria à praia. Desceria a serra. E iria ver o mar.

Perfeito. Idéia de gênio. Foi mais uma vez se olhar no espelho. Deveria estar iluminada mesmo. Riu para o refletido. Que devolveu à altura.

Quando se compreendeu – já estava lá.

Em pé na areia. Diante do seu tão amado mar. Pontinhos prateados aqui e ali brilhavam na água docemente salgada. Faziam quase um cortejo de pequenas luzes. Lindo.

Algumas mesinhas de cimento ficavam na areia. Com banquinhos em volta. Escolheu um deles e sentou. Para uma alegria tão grande - alguns rituais.

Sentou. Ficou um tempo apenas olhando. Brincava com a chave do carro entre os dedos. Deixou que o sol escolhesse os pontos da pele que iria tocar.

Depois com muita calma foi em direção à água. Estava morna. Pequenas ondinhas deixavam a espuma branquinha na borda. Que sumiam com delicadeza.

Mergulhou. Pulou. Brincou. Jogou água para cima. Para baixo. Riu. Viva o Dia da Magia.

Lembrou o tempo em que seguia as definições do mestre austríaco. Mas desta vez se colocou mais à parte. Nada de passagem ao ato. Como o mestre definia atitudes intempestivas.

Fez o habitual brinde e – rindo - informou. Para o Universo. Que me perdoe o Mestre. Mas este foi Além do Princípio do Prazer. E muito além dos Atos Falhos. Sem Homem dos Lobos.  Sem Totem ou Tabu. E principalmente sem Perturbações Psicogênicas da Visão.

Este foi um verdadeiro Ato de Passagem. Passagem feliz. Até o mar. Diante do mar. Num dia em que um erro da tecnologia cedeu espaço à realização plena de uma fantasia.

Foi a vez do impossível vencer o possível. E mergulhou – mais uma vez.

Voltou no começo da tarde - muito feliz.  Amanhã retomaria a tal agenda parcializada. Perfeito. 

postado por Lêda, às 20:13

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04.10.2009

Não há um só dia que não nos encontremos. Os cumprimentos são rápidos e risonhos. Assim. De forma despretensiosa. E superficial. Ele sempre apressado. Eu sempre apressada. São muitos os horários a serem cumpridos. E muito mais agendas a serem atendidas.

Ele com um caminhar mais pesado. Mas sempre uma expressão alegre. O riso fácil emoldura os fortes traços orientais. Um sotaque marcado ainda denuncia a imigração não muito longínqua. 

Assim nos falávamos. Entre uma subida ou descida de escada. Os elevadores demoram muito. O jeito é caminhar. Ele sempre acrescentava. Faz bem à saúde. Este o máximo de diálogo.

Mas nesse dia falamos mais um pouco. Além das escadas. E dos cumprimentos superficiais.

Surgiu uma oportunidade. Num mesmo percurso. E lá fomos contando um pouco dos pontos biográficos. Ao menos os que pareciam mais destacados.  

Viera de muito longe. De uma travessia quase igual ao sol.

Começou pelo avô. O avô era como um personagem de um livro. Era o sábio da aldeia. Respeitado e reverenciado. Jovens e idosos de todas as idades o consultavam. Indicava poções ou dava conselhos.

Era um velhinho calmo. De olhar tranquilo. Mas de profundo conhecimento dos riscos do corpo mal compreendido – sob o peso da alma mal entendida. Enxergava a possibilidade da cura como uma exclusiva ação de equilíbrio entre os dois.   

Observara o avô - por toda a infância. Morara lá até os doze anos de idade. Um dia o pai o avisara. Vamos nos mudar. Para lá. Será melhor para todos nós. Vou primeiro. Depois mando buscá-los.

Um ano depois estava se despedindo. Do avô. Deu-lhe triste o que seria de fato o último abraço. Dos amigos. Dos hábitos. Dos cheiros. Da terra. Até dos risos.

A mãe embalara o que tinha de importante. Privilegiou fotos e quadrinhos da casa. Entre roupas e sapatos abrigou o mais que pode da própria história. Lembra dela entregando a chave da casa a um novo proprietário. Mas trancando ela mesma a porta – antes de entregar. Notou um tremor discreto das mãos dela.

Ele veio tão assustado que lembra a dor que sentia ao respirar. Nunca escutara falar deste país. Nem sabia em que lado da Geografia deveria olhar. E nem olhou.

Aprendeu logo depois que as distâncias não são bem explicadas nos mapas.   

Nesta parte do relato riu. Um riso triste. No terceiro dia que aqui chegou – estava matriculado e frequentando uma escola pública.

Não sabia o idioma. Não entendia as brincadeiras dos colegas. Não compreendia as ordens dadas. Entrou em uma fase de silêncio profundo. Talvez gestante de si mesmo. Nem em casa falava. E durante esse período teve um aprendizado especial.  Aprendeu a ler as expressões. Podia não entender o que falavam. Ou os chistes em volta dele. Mas já sabia ler muito bem as pequenas maldades e criticas negativas. Pela forma do olhar – sabia o pensamento de cada um.

Até hoje é grato a ela. Talvez o tenha ajudado a nascer de si mesmo. Ficava com ele após as aulas. Todos os dias. Tentava ensinar um pouco mais. Os sons das letras. A forma de melhorar o sotaque. As rotinas da cidade. A compreensão de fusos e latitudes.

Não tinha o avô sábio por perto. Mas tinha uma sábia professora ao lado. Se sentiu mais tranqüilo.

Trinta e cinco anos se passaram. Desde aquele terceiro dia de imigrante. E primeiro dia de aula.

Em meio a esse tempo um diploma lhe foi entregue. Contou-me que escolheu esta especialidade por um motivo simples. A forma de se referir por si só já é bela. Dar a luz. A maioria vai até lá feliz. E de lá sai mais feliz ainda. Até hoje se emociona com os nascimentos. E se encanta diante do tal milagre da vida. Quando dá algum conselho – lembra do avô. E se esforça para ensinar o equilíbrio.

Mas fez uma espécie de aspas na conversa. Contou. Logo que se graduou – fez questão de retornar. Passaria lá um mês. Entre os seus de origem. Reconheceria o que deixara para trás. Apertaria as mãos dos amigos. Resgataria os hábitos. Sentiria os cheiros. Tocaria na terra. Esbanjaria os risos. Reveria os códigos.

Foi assim que aprendeu que as distâncias não são bem explicadas - nos mapas.

Viu-se estrangeiro. De lá. Concluiu com certa nostalgia. Ali não mais pertencia. Era um visitante – em desacordo. Voltou - sete quilos mais magro. Doente e em desequilíbrio - a alma e o corpo.

Entrou em sua casa do lado de cá. Sentou-se na primeira cadeira que encontrou. Deitou as malas no chão. Olhou em volta. Mais do que a captura de si mesmo - estava feito a sua re-integração. Talvez pela primeira vez na vida tenha compreendido as palavras do avô.

Recuperou rápido peso e saúde. E desta vez não esperou o terceiro dia. No dia seguinte já estava exercendo a sua função escolhida. Sorridente. Adequado. Com sotaque ainda marcado - mas com chistes compartilhados.

Nos despedimos com um até breve. Entendi um pouco mais - o amplo milagre da Vida. Desde um avô que nunca conheci aos riscos no mapa - aprendi que uma história se compõe sempre além de si mesma.

Lembrei da frase. E a palavra uma vez lançada voa irrevogável.         

Procede.


postado por Lêda, às 10:44

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"Muito mais triste do que o aparecimento da lágrima é o desaparecimento do riso"

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