LEMBRANÇAS DE UM CARNAVAL
Teve um carnaval que eu e o meu amigo Zóião dormimos na calçada, ambos, totalmente bêbados, acordamos com aquela cara de cachorro de caiu da mudança. Este foi apenas um dos episódios malucos. Os quatro dias de folia, em Promissão, no interior de São Paulo, foram marcantes. Não lembro exatamente em que ano foi. Quando cheguei em casa, lembro que liguei o computador, instalei aquele programa de barulho de máquina de escrever e fiz um texto sobre a viagem. Em seguida mandei para todos os amigos, o pessoal gostou, principalmente o Zóião que diz que até decorou o texto. Então, como recordar é viver, vou postá-lo aqui no meu blog. Hoje, lendo ele novamente, tirando dos arquivos, vejo que é um texto ingênuo, de um cara que quis por meio das palavras eternizar um momento especial com os amigos, só isso. Não escrevi na intenção de publicar um artigo para uma
revista, não teve intenção financeira, como acontece no dia-a-dia
profissional do jornalista. Escrevi como aquela criança que na volta às aulas a professora pede: "Faça uma redação sobre como foi as suas férias". Sinto orgulho de mim quando percebo que a inocência ainda é uma possibilidade na minha vida, me faz bem sentir que sou um cara sensível a escrita, apaixonado ao ato de escrever. Ainda tenho muito que melhorar, muito que aprender, mas sei que a evolução leva tempo, enquanto isto, soretudo, escrever pra mim siginifica: ter esperança, viver, respirar, amar, refletir e seguir em frente. Eis o texto que mandei para o e-amil dos amigos:
Carnaval
em Promissão
Na madrugada cinzenta do
sábado nos lançamos na estrada com destino a Promissão. Nossa trupe de artistas
mambembes desta vez era composta por Niltinho, Lú Canela, Daniela, Jé, Té
Sonêca, Jardel, Zóião Berinjela, Baiano, Renato Godzila, Rê, Zê, Carla e eu, o
escriba da turma que vai tentar contar todos os detalhes possíveis dos nossos
alegres dias desse Feriado Carnavalesco. Como foi um feriadão prolongado vou
ter que abusar dos parágrafos, das virgulas e das descrições. Quem não tiver
paciência para ler tudo não precisa ficar constrangido porque eu não ligo, sei
que textos longos escritos por amadores podem se tornar enfadonhos. O meu
objetivo é apenas deixar registrado mais uma de nossas viagens.
1º Dia
Depois de um dia pra lá de
cansativo, seis horas de viagens, quase ninguém tinha dormido na noite
anterior, o dia todo bebendo, tomando banho no rio, andando de barco, alguns
deslizando nas águas cristalinas do Rio Tietê com uma pranchinha puxada pelo
barco, escutando as merdas do Jé e do Zoião, a maioria não queria ir para
Sabino pular carnaval no sábado à noite, outros não tinham nenhuma condição.
Zê vomitava no quarto, o
mortão do Té dormia no sofá, a Rê alegava cansaço e se estirava no colchão,
Baiano roncava em um dos carros, a Carla só ia se alguma das meninas fosse,
Niltinho e o Lú preferiam pescar um pouquinho na noite e depois descansar.
Só havia cinco pessoas
dispostas a irem para farra logo na primeira noite de folia: Jé, Zoião, Jardel,
Renato e eu, nós estávamos famintos por uma folia, queríamos cair entre
serpentinas sensuais e garotas com rostos infinitamente graciosos, quem sabe
poderia rolar um feito sexual de ejaculações fantásticas pra lá de mirabolantes
com alguma colombina.
Movidos por esse desejo dionisíaco,
decidimos enfrentar 50 km de estrada até Sabino, abastecidos com uma garrafa de
vodka, uma de Coca-Cola e algumas brejas. Demoramos 1 hora para chegar na
folia, deixamos para trás bois, corujas e uma estrada esburacada.
Quando aportamos na entrada
da cidade e avistamos a arena onde rolava o carnaval, Renato parou o carro no
acostamento todos desceram e começaram a pular e gritar. Zoião ajoelhou na
estrada e esbravejou: "Chegamos Caralho!" Jé dava socos no ar e gritava: "Esta noite
vamos quebrar tudo!"
Atiramos nossos copos de
cachaça contra a lua e caímos no meio da massa pulando carnaval. Jé muito,
muito, muito chapado tirou a camisa e a transformou num laço, toda menina que
passava na sua frente jogava a camisa e a trazia para perto, depois de várias
laçadas, acabou se dando mal, laçou não apenas uma garota como também o seu
namorado. Quase arrumou a maior confusão, o cara foi pra cima dele, eu e o Renato
entramos na frente, e na base do “deixa pra lá”, foi sem querer o que o brother
fez, o cara queimou o chão. O prejudicado acabou sendo o Renato que na pequena
confusão acabou levando um cruzado no rosto, mas ainda bem que o murro foi
amortecido por suas bochechas de almôndegas.
Zoião tirava o néctar dos
lábios de uma garota que segundo o Jardel era a cara do Tião Macalé. Se liga
Renato a mina que o Zoião tá beijando, é zoada parece aquele cara da televisão
que falava NOJENTO.
Em certa altura no meio da
folia nos perdemos um dos outros. Eu e o Zoião fomos para um lado, Jardel e
Renato para outro e o Jé sumiu no meio dos confetes dourados.
Zoião e eu entorpecidos de
vodka saímos cambaleando do Carnaval, a rua estava deserta, havia apenas grilos
e urtigas, achamos o carro, ninguém ainda tinha chegado, deitamos na calçada e
dormimos como indigentes do lado do carro esperando os companheiros.
Enquanto isso Jé esbarrou na
saída com Jardel e o Renato e ficou contente em encontrá-los. Seus filhos
da puta pensei que vocês tinham ido embora e me deixado no veneno.
Cadê o Zoião e o Bezerra?
perguntou Jardel.
Devem estar esperando no
carro, disse o Renato
Então vamos embora caralho,
disse o Jé.
Quando nos encontramos
estávamos todos bêbados dando risada um dos outros. Zarpamos de Sabino com a
intenção de chegarmos em Promissão, nos perdemos e fomos parar numa cidade
chamada Lins. O Renato parou o carro e disse. Querem saber de uma coisa não
tenho condições de dirigir, estamos perdidos, vamos parar por aqui quando o dia
clarear nós pegamos o caminho da roça.
2º Dia
Acordamos numa sinistra rua
de Lins, o sol já refletia nos vidros do carro, um cheiro de cachaça perfumava
o nosso ar, estávamos todos de ressaca, o Jardel já havia lavado a calçado com
o seu vomito.
Partimos para Promissão,
quando lá chegamos ninguém lembrava o caminho para chegar até o rancho, à
bateria do celular do Renato tinha acabado, ninguém sabia de cor o telefone do
pessoal que estava no rancho. A única solução era encontrar a casa do Manivela,
pai do Niltinho, e perguntar para ele como fazia pra chegar até o rancho.
Ficamos rondando a cidade por
cerca de três horas, abordávamos todas as pessoas da cidade e
perguntávamos.
Conhece o Manivela, um senhor
baixinho, engraçado que fala pra bastante, usa peruca...
Ninguém o conhecia até que um
senhor careca que aparecia o Buda disse, Eu sei quem é, é só pegar a terceira
Quadra a direita, seguir reto que vocês vão encontrar. Dito e feito, nós ainda
íamos passar reto, de repente o Jardel grita, É Aqui, é aqui. Saltamos do carro
e lá estava o Manivela. Ele fez um mapa todo detalhado, nos levou até o começo
da estrada que vai pro Rancho, e mesmo assim ainda conseguimos nos perder.
Rodamos por mais 2 horas no
meio da estrada de terra, invadimos fazendas pensando que era trechos de
estrada, passamos por intermináveis campos verdejantes, em um certo momento
entramos literalmente no meio do pasto com meia dúzia de bois e o Renato ainda
dizia. “Dá licença!” o Jé nervoso retrucava “Que licença que nada mete a buzina
que ele sai da frente”. Exaustos, com as bundas quadradas, a gasolina por um
fio, paramos na frente de um canavial e pegamos algumas canas.
Quando tudo parecia estar
perdido encontramos um motoqueiro, que explicou direitinho onde estávamos e o
que precisávamos fazer para chegar no rancho.
Finalmente, chegamos lá por
volta do meio-dia, Niltinho tirou um barato da nossa cara, o Lú estava
preocupado. Explicamos para todos o motivo da demora. O importante é que
estávamos de volta e tudo estava normalizado outra vez.
Uma coisa é certa, Jé, Zoião,
Jardel, Renato e eu jamais vamos esquecer essa manhã de domingo na qual
descobrimos que a razão perde a importância quando começa a loucura.