Passada a tormenta, a certeza que fica é de que o Vasco não precisava ter passado pelo drama do rebaixamento para despertar. Mesmo que volte mais forte, a mancha que fica na história é indelével e macula a trajetória de um clube vencedor, de torcida gigantesca e história tão bela quanto ímpar, um exemplo de democracia e de forte ligação com as camadas mais populares.
A comemoração pela volta à Série A é legítima, ainda que a sensação de dever cumprido prevaleça. Mas que não se deixe esvanecer na memória o período em que times fortes conquistaram títulos históricos, mas sangraram os cofres do clube e mantiveram no poder por tempo demais quem pecou por isolar uma instituição tão querida e respeitada ao transformá-la numa ilha de truculência e interesses escusos.
A imensa torcida foi feliz e fez a sua parte com alegria, paz e beleza. O sentimento nunca vai parar no coração de um apaixonado, mas para que ele continue forte, é dever armar time mais forte em 2010, de preferência comandado por Dorival Jr., um dos melhores treinadores do país e que pode repetir o sucesso de Mano Menezes no Corinthians se tiver condições e um elenco qualificado para trabalhar. São necessários pelo menos três reforços que cheguem e assumam a titularidade. Uma contratação de impacto, como foi Ronaldo no alvinegro paulista, também seria ótima sacada para marcar a volta de quem não precisava ter ido tão fundo.
Na partida que decretou oficialmente o fim do pesadelo, o Maracanã lindo e lotado foi o palco de mais uma atuação hesitante de uma equipe que sofreu mais do que deveria para atingir seu principal objetivo no ano. A vantagem na tabela foi bem administrada, mas faltou ao time cruzmaltino triunfos mais convincentes, apresentando um melhor futebol.
O Juventude, de campanha modestíssima na competição, deu trabalho na segunda etapa e sucumbiu apenas no pênalti sobre Adriano, autor do primeiro gol, que terminou com a expulsão do goleiro Juninho, a conseqüente passagem do atacante Mendes para o gol por conta das três substituições efetuadas pelo técnico Ivo Wortmann e a cobrança perfeita de Carlos Alberto, o personagem certo para selar o acesso vascaíno, por ter se reinventado junto com o clube que o acolheu e valorizou.
O aprendizado nos últimos onze meses foi sofrido, mas já deixa frutos, como o departamento de futebol profissionalizado, ações de marketing consistentes, receita crescente e atletas mais comprometidos com as metas estabelecidas. Um trabalho cuidadoso de quem pensa no futuro planejando cada passo da caminhada sem atalhos, sem a megalomania que tira a proporção das coisas e torna tudo maior, tanto o voo quanto a queda.
Mas a melhor notícia para Roberto Dinamite e tantos outros que trabalham na dura reconstrução vascaína é que o astral no Gigante da Colina é outro, muito mais arejado, que aceita o contraditório, fez de São Januário novamente um local receptivo e consegue deixar os rivais menos radicais até satisfeitos com a retomada de uma grandeza que nunca se perdeu e fortalece o futebol carioca e brasileiro.
É nesse ambiente positivo que o Vasco ressurge dos escombros. Que venham mais tardes de festa e ventura, agora entre seus verdadeiros pares, de quem refez a própria rota e agora conduz a nau de forma mais segura e responsável.