No Brasileirão de 2007, Joel Santana sucedeu Ney Franco no Flamengo e, por conta das características dos jogadores disponíveis, armou um esquema repleto de peculiaridades que deu liga e o time rubro-negro conquistou uma improvável vaga na Libertadores e ganhou o Estadual no ano seguinte.
Apesar da despedida traumática com a eliminação na Libertadores para o América do México em noite de Cabañas, o 3-2-3-2 rubro-negro, com Fábio Luciano na sobra, Jaílton como terceiro zagueiro pela direita, os alas Léo Moura e Juan espetados, Ibson na armação das jogadas e Souza como “pivô” no ataque deixou um legado que foi seguido por Caio Jr. e Cuca, com algumas variações por conta de mudanças no elenco.

No 3-2-3-2, o Flamengo de Joel arrancou em 2007.
No Botafogo, o técnico seis vezes campeão estadual assumiu o time na terça-feira após os 6 a 0 para o Vasco, apenas observou na vitória sobre o Tigres por 2 a 1 e começou a dar o seu toque pessoal a partir da sofrida virada sobre o América. Nos 4 a 1 sobre o Madureira e 5 a 2 sobre o Resende, o repaginado alvinegro mostrou um desenho bem parecido com o da última equipe brasileira comandada por seu atual treinador.
Sem um zagueiro com perfil para atuar na sobra, Joel deslocou o contestado Fahel para executar a função. Quando o adversário atua com apenas um atacante, como foi o caso do Resende, Fahel avança e se transforma em volante, fazendo companhia a Leandro Guerreiro, mais à direita, e Eduardo. Lúcio Flávio fica mais solto na armação e os alas Alessandro e Marcelo Cordeiro jogam bem avançados. A mudança tática já era esperada, pela fragilidade de ambos na marcação.
Na frente, Herrera e Caio disputam a posição ao lado de Abreu, a referência no ataque. A superstição de Joel e dos botafoguenses indicam que o argentino deve ser o titular e a jovem revelação fica no banco como “arma secreta”. Ao contrário de Souza no Fla, que caía muito pela esquerda e preparava jogadas para os companheiros, o avante uruguaio é o centroavante na acepção da palavra: atua centralizado, dificilmente dá uma assistência e só toca para quem ataca pelos lados com a esperança de receber os cruzamentos na área.

O Bota nos 4 a 1 sobre o Madureira. Fahel na sobra e alas espetados.
É Abreu a diferença essencial entre os dois times comandados por Joel. O Fla de dois anos atrás colocava a bola no chão e jogava pelos lados, mas em velocidade e sem direcionar os passes para só um jogador. O Bota joga na cadência de Lúcio Flávio e Marcelo Cordeiro e abusa das jogadas aéreas buscando o camisa 13, que já anotou cinco gols em quatro partidas. A estratégia das bolas altas ganha ainda mais sentido quando Abreu perde gols incríveis com a bola nos pés, como no lance em que a pelota pareceu “morder” suas canelas até o goleiro Cléber do Resende sair do gol e defender facilmente.
A fragilidade dos oponentes prejudica qualquer análise. O grande teste do Botafogo será exatamente contra a “ex-criatura” de Joel Santana que hoje está bem diferente sob o comando de Andrade. Para o desafio, é dever arrumar a defesa para enfrentar o “Império do Amor”. Fahel certamente fará a sobra, com os zagueiros vigiando Adriano e Love; alas baterão com os laterais; no meio, Leandro Guerreiro grudará em Petkovic ou Vinicius Pacheco, Eduardo cercará Willians, Lúcio Flávio acompanhará Kléberson e Herrrera voltará com Toró. Pela lógica tática costumeira de Joel, este deve ser o cenário dos duelos no clássico.

Os prováveis duelos da semifinal da Taça GB.
No ataque, os centros para Abreu são ótima pedida. A zaga do Fla não é tão alta e o centroavante gosta de se colocar na segunda trave, entre o zagueiro e o lateral. Os centros de Marcelo Cordeiro para o uruguaio entre Angelim e Juan podem ser letais.
Pela superioridade técnica e a moral elevada por conta do triestadual (sobre o próprio Bota) e o título brasileiro, o Flamengo é o favorito natural na semifinal da Taça GB na quarta-feira de cinzas. Mas até lá, Joel Santana poderá fazer mais testes, inclusive contra o São Raimundo pela Copa do Brasil, e moldar sua equipe para novamente surpreender com um time desacreditado, considerado a “quarta força” do Rio de Janeiro.