Três histórias reais. Pessoas que decidiram não mentir para si mesmo e ecoaram sua verdade com coragem. Pessoas que, alinhadas a seus sentimentos, essências e aspirações, viraram a mesa, pararam de interpretar e começaram a viver, mesmo que no improviso.
Dignas de teatro cheio e aplausos de pé:
Ele, casado e com um filho, resolveu separar-se e gritar aos quatro ventos que era homossexual. Choque familiar. O céu escureceu e choveu tempestade de ciclone durante dias, talvez meses. Mas no fim deu tudo certo porque no fundo todo mundo sempre desconfiou. Ele era diferente, um pouco afeminado. Levantava suspeitas e só não enxergava quem não queria. Ou melhor, quem tapava o sol com a peneira, porque alí o verão era brabo. A verdade estava estampada, bastava encarar sem fantasiar. Daquelas nuas e cruas e, ainda assim, foi uma surpresa para todos. Hoje, passado o tissunami, as enchentes e o período de reconstrução, ele é verdadeiramente feliz. Um gay assumido e orgulhoso. Não deve nada para ninguém e - o mais importante - não deve nada para ele mesmo. Sua ex-mulher refez a vida, casou-se novamente, teve outro filho e se tornou a melhor amiga do ex-marido. Afinal, mulheres simplesmente amam amigos gays! Ele, autêntico, pôde viver na sua verdade e parece que quando você é bem resolvido e se aceita, todos te aceitam. E respeitam. E tudo dá certo.
Ah, e o filho passa bem. Ganhou dois padrastos e vive numa boa. Parece que essa nova geração já vem com um chip programado para compreender e aceitar melhor essas situações. Salve!
Outro também. Agora recente. Terminou o casamento dois meses antes de subir no altar. Dois anos planejando. Convites entregues, festa paga, vestido pronto e ele freiou o carro antes de descer a ladeira na banguela, desgovernado e sem saber o que encontraria lá embaixo. Cancelou, suspendeu, deu marcha ré e voltou na estrada. Sem titubear se encheu de coragem e decidiu que não era isso o que ele queria. Talvez não tivesse a certeza de que era ela a pessoa. Tinha dúvidas. A “saia” estava justa demais para quem está começando uma nova vida e decidiu rasgar o pano. Se libertar, repensar e seguir sozinho. Parece que, quando o assunto é casamento, independente do que acontecerá no futuro, no momento do "sim" a certeza tem que ser plena e vir de dentro. Mesmo que tudo mude lá na frente. Mas, se naquele momento, a certeza não vier do coração, a vida não sustenta. E o que é para ser soma e divisão se torna só subtração e todos perdem. Por incrível que pareça, a noiva, depois de muito choro, percebeu que realmente tinha algo errado na relação. Ficou triste, abalada pela sensação de abandono (nessas condições), mas entendeu e sentiu que possívelmente, ele não estivesse tão equivocado assim. Ela não sabia explicar, mas sentia-se mais leve...
Ela engravidou. Não podia ter o bebê. Não naquele momento. Não era a hora. Seria mãe solteira e jovem demais, não estava pronta. Até queria um filho, mas também queria viver a vida, terminar os estudos, seguir uma carreira, viver a juventude, e sabia que uma criança mudaria tudo. Foi um vacilo, não era para acontecer. Pensou, muito chorou, repensou, teve medo, mas deciciu. Optou por não seguir com a gravidez. Pediu perdão aos Deuses e encarou os fatos com o seu lado mais racional. Ele não assumiria e ela não queria passar por isso sozinha. Foi madura, enfrentou o acontecimento com dor, porque mesmo que não se queira ter um bebê, abortar não parece ser simples como extrair um dente ou retirar uma pinta. Existem outras questões envolvidas, a pressão externa (e interna), o medo, fatores religiosos, a idéia que a humanidade criou de que a mulher que faz isso é uma criminosa e será castigada, etc, etc, etc. Polêmicas à parte, teve a sorte de encontrar um médico atencioso, que andava no paralelo da “moral e dos bons costumes” e pregava que, nesses casos, prosseguir ou recuar é uma decisão exclusiva da mulher. Ninguém mais poderia interferir ou decidir por ela, porque essa decisão mudaria a vida dela para sempre, apenas a dela, a de mais ninguém. Hoje ela sente que tomou a decisão certa. Mesmo tendo sofrido com a difícil escolha, ela sabe que agiu com a sua verdade naquele momento, e agradece não ter sido influenciada pelo “certo e errado” impostos por esse mundo. Feliz, ela está grávida do seu segundo filho, no momento certo, e ao lado de seu companheiro.
Observando e aprendendo a gente percebe que a vida parece exigir um certo compromisso com quem vive. Ela pede fidelidade. Pede - com carinho - para que as pessoas não se traiam. Pede autenticidade. E parece fluir fácil para quem atende seus pedidos. Mesmo em situações de verdadeiros terremotos, a vida sempre dá um jeitinho. Um ajuste daqui, uma coincidência dalí e, para aqueles que seguem a sua cartilha interna, ela faz a sua parte no pacto e tudo fica bem.
Afinal, o que é certo? O que é errado?