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09.08.2009

É o olhar sem piscar que revela
segredos de um desejo antigo
e agora lhe fôra roubado
deixando o sol sem seus raios
apenas lembranças
de corações partidos

Da boca a voz que não fala,
voz que adormece e sonha
e a vida que passa
no vai e vem de um mar de emoção
levando incertezas,
tão certas, quanto absolutas.

Do beijo só resta o gosto
daquilo que vem depois
arfados suspiros tórridos
enrosca e desliza
o enlace feito por dois.

Da música, apenas o refrão
mais uma vez, mais uma vez....
e repete a presença
transformando razão de amor
em poesia e canção de dor.

postado por Cami, às 21:33

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29.07.2009

Não se lembrava com exatidão, mas fôra numa feira há alguns anos atrás, que ele a viu pela primeira vez. Ela, serena, trabalhava com sua equipe em um desses estandes que funcionam como uma vitrine e que possibilitava que ele a observasse de longe, andando para lá e para cá. Ocupado, tentava percorrer uma grande área num curto espaço de tempo quando ela apareceu, entre muitas, e lhe chamou atenção, não por achá-la linda, mas por algo inexplicável. Destes encontros, ou talvez reencontros, que a vida proporciona e algo se reconhece no outro. Ele não sabia explicar, mas foi assim. A moça se fez notar, mesmo sem querer, de longe.

 Em meio à correria de um dia atribulado ele tentava adivinhar se, quem sabe, a moça e seu olhar de não-sabia-definir-de-tão-verdadeiro também o via. Preferiu acreditar que sim e teve a certeza quando então ela se aproximou e, por um breve instante, se olharam e se marcaram com impressões, não de toques digitais, mas impressões de alma, na alma. Naquele momento lhe faltou coragem e lhe sobrou silêncio. A única coisa que ele pôde fazer foi ler o crachá, descobrir o nome da moça e, quieto, ir embora, como era necessário que fosse.

 Alguns anos mais tarde, ele a encontrou. Leu seu nome em algum espaço do mundo virtual e logo o identificou. Lembrou-se do nome, dos cabelos, do olhar e resolveu escrever algumas linhas para deixar registrado que aquele dia existiu. Que um dia, por poucas horas, ele pode pisar nas areias da grande enseada do mundo em que ela vivia e rapidamente voltou para o seu. Mas permitiu que ela soubesse e continuasse a acreditar que existe magia em todo lugar, e que naquele dia ela se fez presente. Leu a carta feliz e sentiu-se lisonjeada com o carinho e a poesia com que fora notada.

 

Obrigada. 

postado por Cami, às 13:33

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04.07.2009
Você busca desculpas
Eu encontro motivos
Você perde a razão
Eu te mostro os caminhos
Tu me pedes o vento
Eu te trago o vulcão
Te procuro em palavras
Você fala em canção
Sim, sou fogo,
tu és ar
Se sou onda,
tu és mar
Não dá mais para seguir assim
Eu não quero me perder de mim
Já não posso fingir que não há dor
Em viver para ignorar esse amor.

postado por Cami, às 19:36

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03.07.2009

Enquanto trabalhava ouvia música. Sempre foi assim. Não conseguia fazer diferente. Em tudo o que fazia ela era presente. A música. Até quando submersa, cantarolava em pensamento. Não poderia ser diferente. Cresceu em ambiente musical, sem formação musical, mas com ouvidos bem formados e lapidados para a boa música. Seu pai, um musicólogo. Sabia tudo, ouvia tudo, lia tudo a respeito. Vai ver era essa a tal ligação e não as áreas médicas, como imaginou outrora, mas deixou passar este pensamento, melhor era não aprofundar. Alguns pensamentos devem simplesmente ser deixados para trás para que sejam levados pelo vento. Às vezes não vale a pena aprisioná-los em buscas incessantes e questionantes, e este era um deles. Deixou fluir. Pensou, notou e largou para que voasse e se desfizesse como fumaça.

Naquele dia trabalhava com pouco entusiasmo. Já não via mais sentido em algumas tarefas. Há pouco havia descoberto suas veias, suas habilidades, sua arte e, quem sabe, sua missão. As tarefas antigas não mais preenchiam aquela incessante e questionante busca. Ela era assim. Foi feita assim. Sua fôrma buscava o prazer e a realização, não apenas o vil metal. Era necessário sentir prazer na atividade que exercesse. Aquele prazer que alimenta a alma e vale mais do que qualquer moeda. Para ela era necessário acreditar, fazer sentido e brilhar os olhos como diriam alguns. O dia estava chato, empurrado. Passeava pelo computador, navegava por coisas e pessoas, pensamentos, letras de música. Ela de novo, a música, sempre presente, sempre trazendo lembranças, levando desejos, pensamentos em acordes, emoções em notas musicais...

De repente uma música a tocou profundamente, um piano que parecia apaixonado, um violão que parecia intimidado (mas presente), criavam atmosfera de declaração de amor. Melodia antiga feito canção de ninar. Melodia que trouxe lembrança, que trouxe saudade de um tempo que passou e não volta mais. Tempo de infância, tempo de família, gente que o tempo leva, memórias que o vento traz. No som.

Emocionada, ouviu atenta. Arriscou cantarolar o refrão. Lembrou-se de quando ele ainda estava vivo, chegava em casa e ligava a vitrola. Naquele tempo não existia computador e a TV não era o eletrodoméstico mais importante da família. Bom mesmo era ter um aparelho de som, com caixas potentes que permitissem um baile. Todos os dias, ao chegar do trabalho, ele criava o seu baile particular. Ligava a vitrola, apagava as luzes, deixando apenas um abajur de canto, criando “um clima”. Nas caixas geralmente os “quatro besouros” zumbiam suas baladas e continuavam a inspirar os apaixonados, ou então, eram “as gotas de chuva que continuavam a cair sobre as cabeças” dos que sorriam e dançavam. Isso sem falar na era do rádio fortemente presente com o cantor das multidões, entre outros...  E assim os dois bailavam pelo chão de tacos encerados. Ela, ainda pequena, observava escondidinha do pé da escada, imaginando, sonhando e absorvendo tudo aquilo como normal e corriqueiro entre casais que se amam. Achava tudo aquilo muito bonito. Às vezes se envergonhava de ver os pais namorando e saia de mansinho, melhor era deixá-los a sós. Hoje ela entende de onde veio a família grande. Muitos bailes, muitos namoros e conseqüentemente, muitos filhos...

E assim, aquela música fez com que ela lembrasse de um tempo que não existe mais, mas que deixou marcas. Trouxe o alívio e a certeza de que quem viveu e assistiu aos “bailes particulares” de seus pais talvez tenham essa referência na memória e podem, quem sabe, um dia reproduzi-los. E era com isso que a menina sonhava, ali, no pé da escada, com o dia em que faria o seu baile particular.

 

postado por Cami, às 12:11

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30.05.2009

Logo que chegou sentou. Estava acompanhado, mas mais parecia sozinho tamanho desconforto social aparente. Sentou de cabeça baixa. Olhar triste. Outros também perceberam, até aqueles que não o conheciam. Costumo dizer que gente triste, mesmo que momentaneamente, tem o olho seco. A felicidade parece ser o melhor colírio da face da terra, deixa o olho úmido e brilhante naturalmente. Mas ele não. Tinha olhos secos. Olho seco é modo de dizer, porque na tristeza o olho deixa de brilhar e perde o viço. A pele também muda,  fica num pálido diferente da falta de sol, um pálido da falta de energia. Ele não estava tão pálido assim, mas parecia não ver o sol há algum tempo. 

De longe ela tentava observar, sem mostrar que olhava. Não conseguiam conversar nem se quer duas palavras. Relação conturbada, relação mal entendida. Mal resolvida. Impedida. Triste. Por mais que quisessem agir naturalmente, era impossível. Olhares temerosos que se cruzavam sem querer, mas que ao mesmo tempo se procuravam para tentar falar, para tentar explicar, ou apenas para se ver. Olho triste é seco, mas tagarela. Ele chora, mas também diz o que tem que dizer. Fala no silêncio. Coisa de olhar. Ao contrario dele, seu olho crescia arregalado. Tenso. A moça falava com o olhar e quando não queria dizer, o melhor a fazer era desviá-lo. O coração disparado. A distância necessária. A lágrima engolida.

O que será que o incomodava ali, naquele momento, onde todos estavam animados e apreciando a noite feliz. Seria a sua presença? Seria a sua distância? Seria a  ausência do que estava ali presente e vivo entre os dois? Só saberia se perguntasse, mas decidira por não fazer.
Ela não podia mais. A estrada havia chegado ao fim. Era game over e os pontos eram quase inexistentes. Doía demais manter-se próxima e invisível. Aproveitou o mal entendido e a semana do estremecimento para se afastar. Chegou a desconfiar que ele estivesse feliz com a sua decisão. Talvez aliviado. Então porque o olho seco? Ele seguia o destino que escolhera, era para o olho brilhar, lacrimejar, umedecer e refletir,  mas não. Ele não parecia feliz.

Lembrei-me de Seu Firmino, um sábio velhinho que dizia que na vida, mais importante do que dizer sim, era saber dizer não. Tem gente que parece dizer sim em função de agradar aos outros e esquece de se agradar. Gente que para não magoar o outro, se mutila sem nem perceber... Que lei será essa? As vezes um solene "não" chega a ser libertador. Seu Firmino dizia ainda que para se fazer escolhas é preciso se perceber. Olhar para dentro e não ao redor... vai ver era isso. É necessario deixar de ser coruja e apenas fechar os olhos.

Não seriam amigos jamais. Isso estava claro. Ela não queria se envolver com todo aquele meio de campo, seria desgastante e dilacerante. Melhor cada um no seu canto. Cada um com sua vida. Cada um com a sua nota. E assim ela seguia. Se esforçando para manter-se no trilho do caminho escolhido por necessidade, não por desejo. Assim ele seguia. Feliz no verbo, mas com o olho seco, pingando colírio a cada três horas...

postado por Cami, às 20:02

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13.05.2009

A vontade era de desaparecer. Sumir. Desintegrar e virar cinzas, ou talvez sair por aí sem dar satisfação a ninguém. Comprar uma passagem para um lugar bem longe e ir embora. Como acontece nos filmes em que a vida parece ser mais prática. Lembrou-se de quando tinha 4 anos e decidiu fugir de casa. Ela tinha 4 anos! Decidiu, arrumou sua mala e foi. Batendo os pés e sem dizer adeus. Aquela menina, tão pequena e tão segura de si. Ficou descontente com alguma injustiça normal no mundo dos adultos e decidiu ir embora, assim, sem pensar em nada.

Sua mãe achou curiosa a decisão da criança, não interferiu e, calada, esperou para ver como sucederia a missão. A menina separou alguns pertences – essenciais para aquela tenra idade - sua boneca predileta, um vestidinho rosa e uma barra de caramelos. Colocou na mochila da escolinha e saiu subindo a rua, pisando firme e sem olhar para trás. Moravam em uma ladeira enorme, daquelas de deixar esportista de língua de fora, e a menina seguiu, fazendo força em seu corpinho mirrado e ganhando distância a cada curto passo dado.

A mãe da menina não fez alarde. Ficou quieta para ver até onde a pequena iria com sua radical decisão. Alguns metros de deslocamento depois e ela olhou para trás. Não viu sua mãe. Não viu ninguém. Ninguém atrás dela, ninguém chamando por ela. Silêncio na rua e se deu conta de que era uma criança, ainda não tinha dinheiro, como poderia fugir? Começou a chorar. Não por estar sozinha, mas por não poder concluir a fuga. Por não poder dar asas a sua liberdade.

Mais velha, mulher feita e com uma conta bancária que permitia uma fugidinha por aí, se viu novamente na mesma situação. A vontade de ser livre de novo. Ir embora. Sair sem destino. Simplesmente ir. Fugir. Desaparecer. Mas sabia que dessa vez não adiantaria. De novo. Fugir não mudaria nada. Dessa vez não era a falta de dinheiro o problema, mas a angustia que lhe acompanhava. A “prisão” era interna e sitiada do lado esquerdo do peito. O corpo livre, mas o coração preso. Prisão poética, com trilha sonora e todo o lirismo pertinente às coisas do amor, mas que havia lhe custado, até aquele momento, alguns meses de reclusão. Decidiu se libertar. Queria mandar o moço pro espaço, talvez pro inferno. Lugar de quem desperdiça sentimentos próprios e alheios. Principalmente os alheios. Inferno: local onde os egos repousam no “post-mortem”. Era para lá que ele ia, pelo menos nas leis da moça disposta a renascer. E ela renascia. Como uma fênix. Bela e colorida sacudiu as cinzas que restavam sobre suas asas e voou rumo à liberdade. A vontade agora era de florescer.

postado por Cami, às 17:32

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24.03.2009

Bastava fechar os olhos e era como se um corpo se materializasse junto dela...
Feito tardes de verão carioca, seu corpo aquecia e derretia por entre suas pernas. Sentia pele com pele mesmo sendo corpo único. Sentia boca com boca, e língua a deslizar na superfície de cada curva, beijando cada pedacinho de mulher formada por átomos em completa excitação.

Dos poros dilatados escorriam gotas de suor que umedeciam os corpos e assim deslizavam em movimentos contínuos no vai e vem do amor. As mãos afoitas percorriam todo espaço possível e cabível, sentindo, agarrando, apertando. Por ora seguravam com força como se não quisessem perder nenhum detalhe ou forma. No escuro, as mãos substituíam os olhos no registrar. O poder de sentir medidas e proporções através do tato, do toque e do físico dispensava qualquer curiosidade visual, ela queria sentir. Visão manual capaz de enxergar texturas, maciez, rigidez e as altas temperaturas.

Era possível sentir o peso do corpo distribuído cuidadosamente sobre o seu e, ao mesmo tempo em que  excitava, esquentava e protegia. Assim ela se entregou. Assim ela amou. Ouvindo o sussurrar do seu homem declarando sacanagens e sentimentos com tara e devoção. Esfregavam- se um no outro com força, como se quisessem ocupar o mesmo espaço, como se quisessem ser um. E, em meio a gemidos ofegantes, os movimentos ganhavam intensidade, velocidade e uma leve perda da consciência naquele breve instante que antecede o êxtase e nada mais tem importância. Juntos, explodiram entre contrações e erupções, feito fogos na baía de Guanabara em noites de réveillon. No ar, pairavam a plenitude e a cumplicidade de amores e amantes com um único objetivo: o prazer.

Minutos depois, ao recuperar noçao de tempo e espaço, abriu os olhos e a realidade: as paredes amareladas, o terrível cheiro de naftalina, as cortinas envelhecidas e o vazio de um quarto de hotel sem estrelas no bairro de Copacabana. Na cama seu corpo espalhado, único e sozinho. Sem peso, medidas ou proporções. Nem pele para deslizar, nem boca para beijar ou mãos que pudessem enxergar.

Respirou fundo e sorriu. Fechou os olhos para que pudesse dormir em paz . Só assim seria possível encostar sua cabeça naquele peito e sentir novamente o calor dos fortes braços. Assim ela imaginou. Assim ela adormeceu.

postado por Cami, às 09:14

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16.03.2009

Três histórias reais. Pessoas que decidiram não mentir para si mesmo e ecoaram sua verdade com coragem. Pessoas que, alinhadas a seus sentimentos, essências e aspirações, viraram a mesa, pararam de interpretar e começaram a viver, mesmo que no improviso.
Dignas de teatro cheio e aplausos de pé:

Ele, casado e com um filho, resolveu separar-se e gritar aos quatro ventos que era homossexual. Choque familiar. O céu escureceu e choveu tempestade de ciclone durante dias, talvez meses. Mas no fim deu tudo certo porque no fundo todo mundo sempre desconfiou. Ele era diferente, um pouco afeminado. Levantava suspeitas e só não enxergava quem não queria. Ou melhor, quem tapava o sol com a peneira, porque alí o verão era brabo. A verdade estava estampada, bastava encarar sem fantasiar. Daquelas nuas e cruas e, ainda assim, foi uma surpresa para todos. Hoje, passado o tissunami, as enchentes e o período de reconstrução, ele é verdadeiramente feliz. Um gay assumido e orgulhoso. Não deve nada para ninguém e - o mais importante - não deve nada para ele mesmo. Sua ex-mulher refez a vida, casou-se novamente, teve outro filho e se tornou a melhor amiga do ex-marido. Afinal, mulheres simplesmente amam amigos gays! Ele, autêntico, pôde viver na sua verdade e parece que quando você é bem resolvido e se aceita, todos te aceitam. E respeitam. E tudo dá certo.
Ah, e o filho passa bem. Ganhou dois padrastos e vive numa boa. Parece que essa nova geração já vem com um chip programado para compreender e aceitar melhor essas situações. Salve!

Outro também. Agora recente. Terminou o casamento dois meses antes de subir no altar. Dois anos planejando. Convites entregues, festa paga, vestido pronto e ele freiou o carro antes de descer a ladeira na banguela, desgovernado e sem saber o que encontraria lá embaixo. Cancelou, suspendeu, deu marcha ré e voltou na estrada. Sem titubear se encheu de coragem e decidiu que não era isso o que ele queria. Talvez não tivesse a certeza de que era ela a pessoa. Tinha dúvidas. A “saia” estava justa demais para quem está começando uma nova vida e decidiu rasgar o pano. Se libertar, repensar e seguir sozinho. Parece que, quando o assunto é casamento, independente do que acontecerá no futuro, no momento do "sim" a certeza tem que ser plena e vir de dentro. Mesmo que tudo mude lá na frente. Mas, se naquele momento, a certeza não vier do coração, a vida não sustenta. E o que é para ser soma e divisão se torna só subtração e todos perdem. Por incrível que pareça, a noiva, depois de muito choro, percebeu que realmente tinha algo errado na relação. Ficou triste, abalada pela sensação de abandono (nessas condições), mas entendeu e sentiu que possívelmente, ele não estivesse tão equivocado assim. Ela não sabia explicar, mas sentia-se mais leve...

Ela engravidou. Não podia ter o bebê. Não naquele momento. Não era a hora. Seria mãe solteira e jovem demais, não estava pronta. Até queria um filho, mas também queria viver a vida, terminar os estudos, seguir uma carreira, viver a juventude, e sabia que uma criança mudaria tudo. Foi um vacilo, não era para acontecer. Pensou, muito chorou, repensou, teve medo, mas deciciu. Optou por não seguir com a gravidez. Pediu perdão aos Deuses e encarou os fatos com o seu lado mais racional. Ele não assumiria e ela não queria passar por isso sozinha. Foi madura, enfrentou o acontecimento com dor, porque mesmo que não se queira ter um bebê, abortar não parece ser simples como extrair um dente ou retirar uma pinta. Existem outras questões envolvidas, a pressão externa (e interna), o medo, fatores religiosos, a idéia que a humanidade criou de que a mulher que faz isso é uma criminosa e será castigada, etc, etc, etc. Polêmicas à parte, teve a sorte de encontrar um médico atencioso, que andava no paralelo da “moral e dos bons costumes” e pregava que, nesses casos, prosseguir ou recuar é uma decisão exclusiva da mulher. Ninguém mais poderia interferir ou decidir por ela, porque essa decisão mudaria a vida dela para sempre, apenas a dela, a de mais ninguém. Hoje ela sente que tomou a decisão certa. Mesmo tendo sofrido com a difícil escolha, ela sabe que agiu com a sua verdade naquele momento, e agradece não ter sido influenciada pelo “certo e errado” impostos por esse mundo. Feliz, ela está grávida do seu segundo filho, no momento certo, e ao lado de seu companheiro.


Observando e aprendendo a gente percebe que a vida parece exigir um certo compromisso com quem vive. Ela pede fidelidade. Pede - com carinho - para que as pessoas não se traiam. Pede autenticidade. E parece fluir fácil para quem atende seus pedidos. Mesmo em situações de verdadeiros terremotos, a vida sempre dá um jeitinho. Um ajuste daqui, uma coincidência dalí e, para aqueles que seguem a sua cartilha interna, ela faz a sua parte no pacto e tudo fica bem.


Afinal, o que é certo? O que é errado?

 

 

postado por Cami, às 11:36

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15.03.2009

Não são os tombos que se leva na vida que contam tua história, mas quantas vezes você foi capaz de se levantar. Parece que a sabedoria está no retorno. Quando se levanta mais forte e mais experiente. 

Existem várias modalidades e cada uma dói de um jeito, mesmo quando o tema é recorrente. Vai ver cada tombo é uma lição a ser aprendida. Ou repetida. Até decorar e passar na prova.  E independente do autor do buraco, cair sempre abala as estruturas, ou melhor, a gente cai porque as estruturas já estão abaladas e algo não vai bem. O tombo vem pra mostrar. Cair desaponta, mas depois de um tempo e, em alguns casos, com uma boa conversa é possível recomeçar. Agora no trilho certo, sem desgovernar.

Tem o tombo que vem da crença, às vezes no desconhecido. Gente que cai porque acredita demais, mesmo quando não se deve. Gente que não engana, por isso acredita.  Acreditar às vezes tem um preço e pode fazer doer. Talvez porque acreditar tem a ver com fé, e fé tem a ver com o invisível. Aquilo que não é provado. Improvável, mas sentido. Você não sabe muito bem explicar, mas você acredita. E o erro não está em acreditar, mas no contexto em que se crê, quando se deposita fé e certa dose de expectativa. No outro. Vai ver a fé deve ficar em quem a deposita. O tombo te ensina a parar de projetar e você começa a observar o pressuposto e, sem conjecturar, passa a perceber que o invisível agora tem formas bem delimitadas.  

Nesses casos quando o tombo é inevitável, não resta nada a fazer a não ser soltar o corpo. E chorar. Deixa cair, rolar, e chorar. Porque é depois da queda livre que vem o chão. O impacto que chacoalha os miolos e te desembaça a visão. É ali, no pavimento, que você começa a enxergar. Talvez porque tomou certa distância e agora sua visão é ampliada. Panorâmica. 

É quando se enxerga o que te fez cair que a crença perde a força e, na maioria das vezes, vira raiva. Por ter acreditado. Santo remédio para a cura de feridas e escoriações, e você começa a esquecer. É a terapia da raiva que resgata e impulsiona te tirando daquele estado de cegueira latente, estagnação intermitente, e te faz reagir. Te faz renascer. Dar a volta por cima e ser mais você. Convictamente, você levanta e se ajeita. Respira fundo, olha pra frente e segue, com a certeza de que quando não resta mais nada, enquanto o que restar for "seguir", ainda está valendo à pena.

 

postado por Cami, às 02:28

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14.03.2009

Essa menina é só Luz.
Grande como a Lua cheia,
Que ilumina noites escuras
E com ela há paz,
Esperança
E Luz.

Não é da que incomoda
É Luz que distrai,
Confia,
que dança na roda
E o medo reduz.

Não é da que ofusca
É Luz que acolhe
Abraça, aconchega,
Inunda e aquece
Resgata e seduz.

É Luz.

E você, quando descobre, não quer mais de sair de perto...

postado por Cami, às 12:27

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07.03.2009
Por mais que ela quisesse congelar seu lado esquerdo do peito para tentar não sentir mais aquilo que há tempos tirava o seu sono, ela não conseguia. Por ora até acreditava que pudesse ser possível e que de fato estava se tornando uma pessoa mais fria e mais descrente, mas bastava um encontro repentino para que comprovasse dentro dela a teoria do aquecimento global, e toda sua geleira com milhares de icebergs protecionais internos derretiam com apenas o calor de um único abraço. Era assim que se sentia na presença dele. Completamente derretida. Tentava conversar futilidades, despistar, não entregar, mas era impossível. Suas mãos suavam. Sua boca secava. Era necessário ingerir o rio amazonas para tentar disfarçar ao que estava completamente entregue e totalmente desprotegida: ao amor.

Mais alguns minutos em sua companhia e sentia-se como se só o melhor pudesse emergir de dentro dela. Um sorriso lhe estampava o rosto. Um olhar expressivo denunciava a ternura. Era assim que revelava o seu sentimento. Sublime e apaixonado. Dois adolescentes. Que se olhavam como se quisessem penetrar um no universo do outro. Literalmente. E bastava um copo d´água e um cenário qualquer para que ela percebesse que dalí não queria mais sair. Aquele era o seu mundo. Aquela era sua casa. Era tão óbvio quanto dizer que quem está na chuva é para se molhar, mesmo quando embaixo do guarda-chuva. Era tão claro e não tinha mais do quê duvidar ou questionar, e quando questionava, ele tinha as respostas prontas, exatamente como ela, que confimavam o que sentiam.
 
Como quando se passa muito tempo viajando, tempo exagerado que chega a dar saudade de casa e vontade de voltar para contar tudo o que se viu e viveu, então, era assim que ela se sentia, como se tivesse acabado de regressar e contava com uma alegria extasiante as novidades para aqueles que amava. Amor era pouco. Era mais que amor. Era magia o que os envolvia, e até os encontros mais simples, sem a menor produção, se tornavam grandes acontecimentos. Quase que show de astro de rock nas areias de copacabana, tamanha a repercussão da coisa: capaz de contagiar multidões.

Ficou ali por alguns minutos conhecendo e absorvendo uma sensação de plenitude jamais antes experimentada. Ficou ali pensando o quanto gostaria de mergulhar para sempre nesse universo e saiu de lá flanando com um calor que vinha do peito, quente como noites de verão. Planando como pássaro quando encontra a corrente certa de ar e não é mais necessário muito esforço, o vôo flui no mínimo bater de asas. Assim se despediu. Com um leve bater de asas e um sorriso na alma. Sentimentos de tristeza (pela despedida) e gratidão (pela descoberta), pois se deu conta que sentir, nessa nobreza, é um privilégio para poucos.

postado por Cami, às 01:54

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03.03.2009
Sem confete e serpentina, ela dizia adeus ao ano velho. Tão velho que parecia andar de bengalas, já com certa dificuldade tentando acompanhá-la, mas resolveu, assim mesmo, deixá-lo para trás. Sem dó. A folia era o marco de início de um novo ano. De acordo com a profecia de que o ano só começa mesmo depois do carnaval, dessa vez resolveu levar ao pé da letra. Novos projetos. Nova vida. Novo corte de cabelo. Até experimentara uma nova dieta. A ordem era inovar. Inovar para se reinventar. Já tinha perdido a noção de quantas vezes se reinventou nessa vida. Algumas nasceram assim: parto natural, sem dor, sem sofrimento. Outras de fórceps, até cesariana quase que sem anestesia. Mas independente da modalidade obstétrica, era preciso renascer. Nova por dentro e por fora. Resolveu começar pela viagem, novo destino e novas amizades. Quando se quer inovar, mudar o cenário e o elenco da história ajuda. Além de ser necessário. Gente nova traz energia nova, papo novo, novo aprendizado, novas oportunidades. E seguiu assim, como queria, com tudo novo.

Ficou imaginando que quando se trata de pessoas e novos relacionamentos viagens são importantíssimas, pois é aí que se revela graus de compatibilidade. São as horas passadas ao lado de alguém que faz com que se descubra de quem se trata e começa-se a entrar em seus territórios mais profundos. É quando as barreiras impostas pela aparência são quebradas por afetos, afinidades e verdades. E aí é que se começa uma relação, seja ela qual for, através da convivência. Ela é a responsável pela queda dos muros internos entre o que se é e o que se quer ser ou se aparenta ser. Ao mesmo tempo, ajuda na construção de outros muros, dessa vez necessários. Invisíveis, porém extremamente importantes, o muro dos limites. Conviver e descobrir a medida dos espaços, limites, até onde avançar, quando recuar e por aí vai. Coisas da vida, com vivência, convivência. Importante.

Estava feliz entre seus novos amigos e já tinha observado a estranheza de um dos casais presentes. Ele, mais velho, completamente frio e alheio à relação. Mal os conhecia, mas já fora possível traçar o diagnóstico do relacionamento desde o primeiro minuto em que os viu, quando ele chegou e foi comprimentar sua companheira: falido. Ela, jovem, bonita e cheia de vida, parecia bem simpática. O chamava de meu amor, lindo, querido e outros adjetivos de mulher apaixonada que quando não quer, não enxerga um elefante, mesmo que esteja escancarado em sua frente, nu e dançando can-can com sirene de perigo e emergência na cabeça, ela, se não quiser, não vê.

Percebeu que sua formação em psicologia vinha redendo diagnóstico certeiros sem muita falação. Apenas no observar. Trejeitos, respiração, olhares, pessoas que demonstram um certo desconforto dentro do próprio corpo. Tem gente que demonstra uma saia justa dentro da própria vida. Parecem atores novos sem muita familiriadade com o ato de representar. Para ela, a falta de verdade exalava um certo cheiro e ela tinha um faro infalível.
Passou os dias observando o casal pois, mesmo sem querer, era inevitável. A frieza com que ele a tratava era de dar pena. E por traz da frieza, existia uma espécie de "depressão declarada". O rapaz só dormia. Não conversava com ninguém, não era sociavél, nem era simpático. E a moça se perdendo nas desculpas de rotina, de trabalho, de cansaço, "vai passar", "é só uma fase", "mau momento, acontece com todos, ele não tá bem" e um monte de blá, blá, blá...

Até que a moça, sabendo que ela era psicóloga, resolveu desabafar. Sentou, contou tudo sobre o casal. Desde o dia em que se conheceram, até dias antes da viagem. Chorou, desabafou e, por incrível que pareça, se estavam juntos há dois anos, a insatisfação já tinha feito aniversário. Já não estavam bem há muito tempo. Como psicóloga, tentou dar uns leves toques, sem grandes alardes, afinal não estava ali para isso,  mas ficou impressionada de ver o quanto as pessoas se enganam. Quando se trata de relacionamento, é incrível como a visão fica embassada e os para-brisas da alma não funcionam. Muito provavelmente o rapaz não estava frio, ele era frio e ela estava insatisfeita desde o começo da relação. Mau momento que durava quase que o namoro inteiro.

Indignada, tentou ajudá-la, mas manteve-se no seu lugar, afinal não queria ultrapassar aqueles muros internos, invisíveis e necessários, chamados limite, pois mal conhecia a moça, mas fez o que podia, ouviu com carinho e atenção, pouco falou, e a moça saiu da conversa com um número de telefone. Do seu terapeuta.

postado por Cami, às 22:50

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03.03.2009
Por mais que apertasse seus olhos tentando ler os pequenos números que iam ganhando distância a medida que os segundos passavam, era impossível de se ler. A placa. Não conseguia ler a placa do caminhão que atropelara seu corpo mirrado. Era assim que se sentia. Estatelada. Atropelada. Colada no chão feito papel. Cena de desenho animado, mas que de animado não tinha muito. Juntou seus pedaços e trancou-se no seu mundo. Agora tentando esquecer, depois de tentar lembrar o nome e o número da placa. Para denunciar. Isso não se faz, isso devia ser proibido, pensou. Devia ter pena severa para quem sai por aí atropelando e vai embora sem nem olhar para trás. Sem nem prestar o devido socorro. Isso não se faz. Lembrou-se do amigo que diz que atropelamento, seja ele de qualquer natureza, é crime. Inafiançável. Mas que tem um preço a ser pago. Sabe lá em qual moeda...
Entre quatro paredes tentou transformar tudo numa grande mentira. Entre quatro paredes ela tentava se convencer de que nada havia acontecido. Fôra miragem. Sonho. Invenção de sua cabeça talvez. A mente as vezes é traiçoeira, faz com que você embarque em uma viagem que literalmente é pura navegação sem sentido. Vai ver era isso. Navegação sem sentido. Inventada. Criada por uma mente cansada. Uma mente que tinha vontade de ter mais do que simplesmente o silêncio. Vai ver era isso. Pura navegação sem sentido.
Mas quando dormia, ou mesmo acordada, sonhava como quem se lembrava e quase que podia ver. E quase que podia tocar. Era tão real que deixara de ser sonho e passara a ser vida real. Era tão real que deixara de viver vida real e passara a viver de sonho. Era tão real. E toda a história que vivera até aquele dia. Dia em que a ultima coisa que viu fôra o carro se aproximando e tudo ficando escuro. E tudo o que consegue se lembrar é ela, ali, estatelada. No chão.

postado por Cami, às 22:08

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28.02.2009

E passou mais um carnaval. Momento decisivo do ano. Carnaval é quando nos despedimos das férias e de fato resolvemos encarar o novo ano que, na verdade, já começou há pelo menos 60 dias. É quando acabam-se as desculpas e percebe-se que está tudo rolando, sem pausa ou férias, e a gente se dá conta que com ou sem verão, a vida corre e passa. Época em que as resoluções de ano novo são levadas a sério, afinal de contas, o "depois do carnaval" acaba de chegar. O sujeito nota que está tudo igual e resolve fazer algo a respeito, mesmo sem muito acreditar que possa mesmo mudar alguma coisa, mas as resoluções permanecem sempre vivas e cheias de esperança. Pelo menos até dezembro.

Para uns o carnaval é a época mais esperada do ano, quatro dias de "CFL - Comportamento Fora da Lei", totalmente compreendido e perdoado, afinal de contas, é carnaval. O lema pode ser sexo, drogas e rock´n roll, ou seria, sexo, suor e samba? ou ainda, sexo,cerveja e picolé... Enfim, tem pra todos os gostos, mas o sexo é sempre presente, afinal de contas é verão. E carnaval. Época em que os corpos andam bronzeados, menos vestidos e os hormônios parecem exalar perfumes afrodisíacos. O que pode confimar essa teoria é saber que outubro e novembro são meses de altas taxas de natalidade nos países tropicais, talvez seja essa a prova de que o verão por si só já é um tremendo "estimulante", por isso deixem o ginseng, a catuaba e o viagra para períodos invernais e aproveitem o calor dos corpos suados de janeiro e fevereiro.

No carnaval, é incrível como aumenta o número de poliglotas nas ruas. Profundos conhecedores de diversas línguas, a Bahia que nos diga! Acaba o carnaval e a farra é tanta que os intelectuais poliglotas e foliões ficam susceptíveis a crises de abstinência. Mas são tão inteligentes e bons de folia que até isso foi pensado e para não sofrerem com febre alta e tremedeira, criaram então os carnavais fora de época. Durante o ano todo podem continuar praticando novas línguas, suar em grupo ao redor de um caminhão e fazer xixi em banheiro químico, pra quem gosta (e aguenta), eis a salvação para o preto no branco e segundas-feiras engravatadas.

Para outros, agora é que começa a melhor parte. O verão escaldante chega ao fim e com ele as noites mal dormidas de corpos morimbundos e pensamentos agitados como mosquitinhos de luz também. Acaba o verão no calendário, mas ainda restam alguns meses de muito sol e céu estrelado. Vem chegando Março, com ou sem suas águas (acredito que grande parte delas vieram antes do previsto), mas ele está aí, e parece que vem ensolarado, com céu azul e tardes de pôr do sol para serem aplaudidas. Sem a obrigação de ser verão, a praia continua linda e mais tranquila, se recuperando dos excessos cometidos e se preparando para na próxima temporada mais uma vez dar conta do recado.

postado por Cami, às 13:12

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14.02.2009
Em meio as arrumações de começo de ano, encontrou a caixa. A tal caixa das memórias. Até achou engraçado ainda ter aquela caixa que não era uma qualquer. Uma caixa acolchoada coberta por tecido xadrez e laços vermelhos que ganhou de sua avó quando ainda era criança e nela foi guardando trechos, recortes e retalhos capazes de contar uma história. A sua história. Ali tinham fotos, diplomas, recordações, recortes de jornal, cartas, cartões, declarações... E uma infinidade de sensações. Vendo as fotos, sentiu saudades daquele tempo. Tempo em que a sua vida se resumia a música, dança, palco e todo resto era menos importante. Aos poucos foi se lembrando da enorme sala com piso em madeira e uma barra que percorria todas as paredes, o silêncio nos corredores, o dedilhar da pianista que mais parecia um concerto celeste entre valsas, adagios, polcas e allegros. De criança a mulher feita este era o seu universo. O universo do ballet. Universo em que as pernas faziam força para fincarem no chão e os braços pareciam tocar o céu. O tempo todo entre a força e a leveza, entre o cansaço e a satisfação, entre o limite da dor e o prazer. Difícil de explicar, difícil de executar, mas lindo de se ver.

Lembrou-se que quando criança ouvia pessoas dizerem que ballet era coisa de menina frágil, até chegou a acreditar, pois enquanto bailarina, não participava dos jogos de volei da escola, nem futebol, basquete, handball ou qualquer outro esporte praticado pelas amigas da classe. Ela era péssima nesses jogos. Fazia tudo errado e seus movimentos eram sempre coreografias. A "manchete" do volei era um show a parte, tinha perna para o ar e tudo, mas nunca acertava o principal: a bola. As amigas caçoavam e ela desistira. Não porque era menina frágil, mas porque aquilo era bruto demais para o seu corpo acostumado com movimentos de força e suavidade e, se pudesse escolher, preferia não participar dessas aulas para não se machucar, a dança sempre em primeiro lugar. Conforme fora crecendo,  percebeu que essa gente era completamente equivocada. Dança é coisa séria. Coisa de gente raçuda, que não tem medo de se arriscar, nem de se expor. É preciso ser determinada e forte para seguir por esses caminhos e graças a este universo, ainda criança, aprendeu que sentir dor faz parte da vida e, quando se fala em ballet, as vezes a dor passa a ser motivo de prazer. O prazer pelo trabalho realizado. Parecia loucura e até masoquismo, mas era assim que funcionava. E, em meio as lembranças, até ouviu a voz da professora estrangeira que gritava num português engraçado: "si non está doendo, é porque está errado, tem que doer!!!". Rindo, pensou ironicamente que tratava-se de um método bem didático e de uma psicologia incrível!

Mais tarde entendera o aprendizado. Não apenas o físico, mas o aprendizado pra vida. Descobriu que a bailarina sofre, mas aprende a ter garra. Aprende a fazer da dificuldade um desafio. Aprende a ser forte e suportar as dores sejam elas quais forem... Chegou até a comparar o ballet com um treinamento militar tamanha é a disciplina necessária em que se faz o mesmo movimento milhares de vezes até atingir a perfeição. Onde se cai e se aprende a levantar e continuar de onde parou, sorrindo e de cabeça erguida. Onde sente-se dor e aprende-se a resistir e a nem lembrar que ela está ali latejando, porque o que diferencia o palco de um quartel é a magia dela... Da  música. Capaz de transportar quem dança para um mundo de magia. A bailarina dança e sorri como quem  flutua, enquanto seus pés sangram com as bolhas nos dedos, mas ainda assim ela acha que vale o sacrifício. As horas de ensaio que se transformam em minutos de palco são indescritíveis. A energia dos aplausos reabastesse a força para mais horas e horas de muito ensaio e muita dor...

Continuou ali sentada lembrando quando se deu conta de que lágrimas escorriam. Lágrimas nostálgicas, porém gostosas. Recordações de um tempo que passou, mas que explicava muito de sua personalidade e de quem ela se tornara. Pensou em jogar fora alguns recortes envelhecidos  e empoeirados, mas desistiu. Guardou tudo de novo na caixa com aquela sensação de saudade que dá quando se acaba de ler um bom livro ou assistir à um bom filme. A vontade de ficar navegando naquela fantasia. Como sonho bom que não se quer acordar. Mas não era sonho, era um pedaço da sua história que guardou para um dia poder contá-la novamente. Para ela mesma quando a saudade apertasse ou quando sentisse a necessidade de resgatar. Resgatar para continuar. Entendeu que viver tem dessas coisas. As vezes é preciso parar, olhar para trás, rever sua história como um filme para poder dar continuidade, olhar para frente e prosseguir. Sem sair do trilho, sem sair do roteiro certo. 

postado por Cami, às 19:03

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