Em dezembro de 2008 tive a oportunidade de almoçar com Luiz Villaça, diretor de O Contador de Histórias. Entre um bate-papo e outro, perguntei da onde ele tinha tirado esta história para filmar. E ele revela: "Comprei um livro infantil para meu filho (ou filha, não me lembro bem). Achei bacana e li a parte 'sobre o autor'. Me interessei pela história de vida de Roberto Carlos Ramos. Falei com alguns amigos e pronto: corremos atrás e conseguimos colocar a história de luta deste homem em um longa metragem".
Agora pare e pense: se um diretor do porte de Villaça se interessou por uma pequena sinopse da vida de Roberto, por que nenhum de nós iríamos nos interessar? Fato é que a vida do homem que é um dos dez maiores contadores de histórias do mundo é bem natural do Brasil. Um vencedor de garra, suor, que nasceu pobre, foi internado na Febém, viveu na rua, era revoltado e hoje é uma pessoa respeitada.
A história de Roberto é semelhante a de muitos outros brasileiros de quaisquer classes sociais. Ele foi um garoto pobre. Muitos brasileiros são. Ele não teve uma família ao seu lado quando criança. Brasileiros também não. Roberto morou na rua, roubou, não tinha uma visão de seu futuro. Muitas pessoas também pensam assim. E o que mais chama a atenção é que, quando menor, ele foi violentado - sim, pedofilia brava; a cena...chocante. E milhares de menores são violentados todos os dias ao redor do mundo.
Roberto e sua dramática história é bem semelhante com a de muitos brasileiros. Idêntica com a de muitos jovens pelo mundo afora. É para pegar pela culatra jovens e adultos que não veem mais um futuro adiante em suas vidas e dar um belo tapa no rosto destes. Ele mostra claramente que para vencer, basta querer. Para conquistar. Tem que lutar.
COM UMA FAMÍLIA DE UMA PESSOA SÓFoi entre os tapas e beijos que a pedagoga Marguerite Duvas, interpretada pela atriz portuguesa Maria de Medeiros, conseguiu conquistar Roberto e tirá-lo das ruas e principalmente da Febém. Ele não tinha uma família. Ela, sozinha, deu tudo o que uma criança precisa para ser alguém. Foi entre tapas e beijos, mas ela conseguiu. E melhor ainda para o jovem foi a sua ida à França, que lhe rendeu um grande aprendizado. Que lhe fez voltar ao Brasil para cursar a faculdade. Que o tornou isto o que ele é hoje: um pedagogo contator de histórias bem quisto no mundo todo.
O VERDADEIRO JEDI DA HUMANIDADEDifícil é uma palavra muito fraca para o que Duvas teve que passar para educar o jovem e peralta Roberto. Fez de tudo um pouco para ele se socializar com o mundo e "esquecer" de seus traumas de infância. A verdade é que tudo o que Roberto passou sempre estará presente no seu dia-a-dia. Mas ele usou isto ao seu favor. Meteu as caras nas portas fechadas da vida e mostrou do que é feito. De adamantium. Isto mesmo. O cara foi forte o suficiente para aguentar sua própria pressão psicológica. Para dar a volta por cima. Para mostrar aos outros que o passado é o melhor aprendizado para a vida. Que o futuro é promissor e está próximo. Que os erros do presente merecem desculpas. Que, mesmo passando por uma das maiores barras que um ser humano pode passar, ele foi endireitado e correu atrás de seu sonho. E, o melhor de tudo, foi que ele não deixou suas raízes para trás. Fez de seu passado um aprendizado para muitos outros garotos de rua que ele adotou, tornando-os visionários do futuro. Saudáveis e, o principal, com uma família.