03.02.2010
Estou perdendo o encantamento pelo futebol. E a culpa é o meu Atlético.
Está ficando chato torcer pelo meu time. Sou sócio com três cadeiras bem posicionadas na reta da Madre Maria, andar superior e assisto a todos os jogos desde bem antes da belíssima Arena. Vi grandes ídolos, grandes espetáculos e lindas festas. Lembro da chegada dos “russos” de helicóptero, das jogadas magistrais do Sicupira, da mobilização para construção da Arena. Participei de todos estes momentos. Como era gostoso torcer e ser atleticano.
Mas confesso que estou perdendo o tesão. Estou quase que indo ao estádio por obrigação. Não vejo brilho nos olhos dos torcedores e nem dos jogadores. Só ouço vaias e aquele inócuo refrão “raça...raça...raça, que só intranqüilizam os novatos mas que não tinham efeito algum em Julio Cesar, Rafael Moura e Cia.
A imagem que surge no túnel é a do Bolinha arrastando uma “renca” de atletas que parece que estão acorrentados um a um, em fila, de cabeça baixa, cada um com pesado fardo nas costas. Um quadro triste.
E esses hinos? Que bosta.
Qual a causa deste meu desânimo? Devo ficar em casa?
Procuro as razões e descubro um milhão delas que enumero algumas aqui para tentar me convencer que estou sendo injusto com a minha antiga paixão - o futebol do Atlético.
1. A mediocridade do meu time, onde a estrela maior é o Alan Bahia, pois é o único que pensa para jogar. Tem o voluntarioso e eficiente Valencia e o emergente Manoel. Só. Por um curto período me animei com o Baier, mas contusão no Atlético é sinal de longos períodos de afastamento do gramado. Gostava do futebol clássico do paraguaio Julio dos Santos, uma pena que não deram a ele a mesma oportunidade que insistem em dar aos Wallinsons, Rodolfos e Netinhos da vida.
2. O enfadonho blá, blá, blá das entrevistas dos jogadores e comissão técnica ao término dos jogos, sempre com as mesmas frases, mesmas desculpas, passando pelas mesmices que lemos e ouvimos de depoimento dos Rodolfos, Chicos e um ou outro escolhido pelo marketing do Atlético para falar que “estamos melhorando”, que “temos que ter mais atenção”, que “blá, blá, blá...”
3. Passa também pelas horríveis “mesas redondas” à noite, onde impera uma falta de criatividade total dos produtores dos programas, com comentaristas, locutores e analistas copiando formulas da década de 60 da televisão brasileira para discutir os jogos do final de semana. Discutem lances duvidosos com imagens engessadas pela rede que detém os direitos e não conseguem tirar dúvidas ou criar polêmicas para prender a atenção do telespectador.
4. Com certeza existem muitos outros motivos que vão além da proibição da cerveja, mas estou “deprimido” só em escrever estes acima. Vou parar por aí.
O que estou procurando para me despertar, para me encantar novamente com o meu furacão.
Estou à espera de um ídolo!
Futebol se faz com espetáculo e isto faz tempo que não vejo no meu estádio. Contratamos jogadores que são destaques nos seus antigos clubes (Bruno Mineiro, os colombianos e agora um argentino), mas vejam o nível destes clubes de origem, é de dar dó. Mas assim mesmo não há nenhuma promoção do marketing do Atlético com as novas contratações. O técnico lança estes jogadores como se estes fossem oriundos do juvenil, sem festa, sem promoção alguma, na surdina, como que a não acreditar que vão dar certo.
Ídolo também se fabrica na “olaria”. Peças que podem ser de barro, mas que com uma boa mão artesanal, transforma em lindas louças com ricos detalhes. Bem trabalhados, poderemos descobrir talentos que estão escondidos. Um bom batedor de faltas, um eficiente cabeceador, um ótimo lançador, mas para isso temos que por a usina a funcionar a todo vapor, leia-se o Centro de Treinamento, que deveria ser chamado de Centro de Talentos. Temos que cuidar de cada atleta como um produto único e precioso que bem trabalhado e promovido poderá render excelentes resultados. Idolos de barro, por que não? Podemos fabricar ídolos se tivermos um bom serviço de marketing e/ou talvez uma boa olaria.
Fabricamos Oséas, Washington e Assis, Lucas e até Ricardo Pinto. Foram ídolos produzidos pela massa atleticana, pela torcida daquele tempo e que na verdade não eram o suprasumo do futebol. Por que paramos? Por que não colocamos estas mentes que recebem polpudos salários para pensar em ações que promovam e criem ídolos de Pimba, Marcelo, Patrick, Neto, etc? Falta competência? Por exemplo: por que não promover com “barulho” a chegada destes colombianos? A Diretoria não acredita nas contratações? Não querem ser responsabilizados se eles não forem a solução que a torcida exige? E agora o Ariel atleticano, por que não levá-lo na mídia e tratá-lo como a definitiva grande contratação? Parece que a Diretoria nem sabe quem eles contrataram.
O meu desencanto está na fábrica de talentos.
Sim, uma estrutura que produz quantidade de peças com defeito. Kleberson exceção.
Quem são os responsáveis para lapidar o Raul, o goleiro Santos, os juvenis Willian, Lucas Sotero? O próprio Kaio, o abandonado Pimba, Gerônimo, Bruno Costa, Fransergio, entre outros. Acho que não tem um profissional que esteja ensinando e preparando estes atletas para melhorarem os chutes de longa distancia, ensinando as regras do futebol, a baterem pênallidades, a se deslocarem sem a bola, a defenderem sem fazer faltas infantis, a tirar essa mania de cai-cai, de reclamar com o juiz, a darem entrevistas sem as frases “eu acho que”, “com certeza...”etc, etc,.
Descobrimos que amadorismo também pode ser remunerado. O que realmente fazem os auxiliares do Lopes? Por que eles não divulgam o que fazem e dão entrevistas sobre os seus trabalhos? Quem escreve as cartinhas do Lopes e do Geara?
Sugestão para o marketing do Atlético: promover ações de relacionamento junto aos torcedores que freqüentam a Arena para dar exemplo de civilidade entregando na entrada um saco de lixo feito de material descartável e não poluente para que estes coloquem os seus lixos produzidos durante o jogo e descartem nos locais apropriados existentes.
Ora bolas, acho que exagerei na minha terapia de hoje.
* Carlos Eduardo Pereira de Oliveira - atleticano
Colaborador do MAMF