Outro dia eu estava aqui em casa conversando e surgiu o assunto 'memória'. Eu sempre me perguntei porque tenho uma memória tão assombrosa em minha profissão e uma memória tão sofrível na vida particular. Na escola guardo dados que poderiam ser considerados milagrosos, se você me disser uma palavra posso te dizer em que livro ela é ensinada, qual a frase e até a lição em que está. E olhe que trabalhamos com uns 50 livros ou mais, em inglês e espanhol. Em casa eu mal consigo lembrar o nome de um ator de que gosto muito ou o título do filme que assisti há algumas horas.
Como uma memória pode ser tão boa e tão má ao mesmo tempo? E então me dei conta de que uso uma espécie de 'memória compartilhada'. Minha técnica (se bem que nem tinha me dado conta disso até alguns dias atrás) consiste em guardar na memória apenas o que só eu sei, e guardar na memória dos outros o que posso acessar quando precisar.
Meu marido era ainda meu namorado quando estávamos falando de um tipo de calças femininas e eu não me lembrava o nome de um tipo, não tive dúvidas: mandei um SMS para minha filha Adeline perguntando. Era um sábado, mais de meia-noite, mas minutos depois ela enviou a resposta: cigarrete.
Estou conversando e pergunto a meu marido: 'como é mesmo o nome daquele ator que eu gosto muito e que estava no filme que vimos ontem?' Ou ao meu filho: 'como era o nome da nossa vizinha da frente lá em Pacaembu?' E assim vou compartilhando a memória dos outros e poupando a minha para coisas que não posso esquecer. Viu como é prático?
Zailda Coirano